Países ricos cobram medidas nos emergentes para conter a inflação

postado em 09/05/2011

 

A pior crise financeira nos últimos 70 anos eclodiu nos países ricos. Mas agora esses governos cobram, justamente das economias em desenvolvimento, um abandono de políticas de estímulo ao crescimento, elevação de taxas de juros e cortes de gastos. Tudo para permitir que os países ricos, que patinam para sair da crise, evitem a "importação da inflação" e possam apresentar crescimento sustentável.

A cobrança é feita pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS), alertando que a inflação nos países emergentes ameaça a recuperação da economia mundial, mas abrindo um racha entre emergentes e ricos. O BIS (o banco central dos bancos centrais) reúne na Basileia, na Suíça, autoridades monetárias do mundo, entre elas Alexandre Tombini, presidente do Banco Central brasileiro.

A cobrança irritou representantes dos emergentes e alguns ironizaram o alerta como mais uma tentativa de transferir aos mercados em desenvolvimento a responsabilidade por tirar a economia mundial da incerteza.

O BIS estima que o impacto da alta nos preços se transformou em uma realidade para a grande maioria dos países emergentes. Mas seu efeito tem ido além, com prejuízos para a recuperação da Europa, Estados Unidos e Japão. Dos 21 BCs no mundo que têm metas de inflação, oito já a estouraram, entre eles a zona do euro, Reino Unido, Turquia, Chile e a própria Nova Zelândia, onde ideia das metas foi criada. Apenas Suíça e Noruega estão com inflação sob o centro da meta.

O crescimento da demanda por commodities nos países emergentes teria levado a um aumento dos preços desses produtos. Essa alta também é sentida onde não há ainda crescimento sólido das economias. Como consequências, regiões como a Europa tem, ao mesmo tempo, dificuldades para crescer e ameaças de inflação.

Com recuperação ainda tímida, europeus e americanos não teriam espaço para elevar taxas de juros para conter os preços, sob o risco de matar prematuramente a recuperação. O BIS acredita que não há certezas ainda sobre a retomada dos mercados maduros. Na zona do euro, a inflação já superou a meta estabelecido pelo BC europeu. Mas a região pena para crescer. Na Europa, o BC optou por não elevar os juros para não abafar a retomada.

Para o BIS, emergentes precisariam tomar duas ações: continuar a elevar os juros e, ao mesmo tempo, cortar os gastos públicos para desaquecer suas economias.

No caso do Brasil, a estimativa é a de que o País também terá de seguir com sua política de elevação de taxas de juros e corte de gastos. Mas o BIS optou por destacar o trabalho do BC como um exemplo de autoridade monetária que estaria focada no esforço de reduzir a inflação. Na semana passada, a inflação do País estourou a meta de 6,5%.

Para governo brasileiro, a inflação convergirá para o centro da meta de 4,5% em 2012 se o nível da atividade econômica permanecer ainda por um bom tempo, algo como nove a 12 meses, crescendo abaixo do Produto Interno Bruto (PIB) potencial. Não há uma conta cravada sobre o produto potencial, mas o consenso de mercado é que ele gira em torno de 4,5%.

A variação do IPCA em abril, de 0,77%, ficou aquém das expectativas e foi uma boa surpresa. Na visão do governo, o pior da inflação já passou. A partir deste mês os índices serão mais confortáveis. No acumulado de 12 meses, porém, o índice bateu no teto em abril (6,51%), deve superar o teto nos próximos meses e voltar a cair a partir de agosto/setembro.

Está nas contas do governo a possibilidade de um aumento da inflação no último trimestre deste ano e no primeiro trimestre de 2012. Além de este ser um comportamento padrão no ano, desta vez pode ocorrer uma pressão dos dissídios coletivos concentrados em setembro, se a tendência for balizar as negociações pelo reajuste do salário mínimo do próximo ano, em torno de 14%. Espera-se que essa elevação seja temporária, movida por sazonalidades.

No segundo semestre de 2010, o crescimento da economia ficou por um rápido período abaixo do potencial. O crescimento foi de 0,4% no terceiro trimestre, mas subiu para 0,7% no fim do ano. No primeiro trimestre deste ano, a taxa de crescimento do produto aproximou-se mais de 1% e, segundo a expectativa de economistas do governo, deve recuar a partir de agora.

Isso não significa que a política de aperto monetário pode ser afrouxada. Embora os indicadores de preços, a acomodação dos preços das commodities internacionais e os sinais de desaquecimento da demanda tenham deixado o governo mais confiante nos últimos dias, "o Banco Central não vai tirar férias coletivas", comentou uma fonte.

O cenário internacional continua incerto e, na semana passada, ocorreu um fato curioso. Após reunião do Banco Central Europeu que decidiu pela manutenção da taxa de juros em 1,25% ao ano, o presidente da instituição, Jean-Claude Trichet, declarou que o BCE está incorporando a situação da taxa de câmbio em suas análises. Fez isso após numa iniciativa incomum, ler em voz alta as declarações recentes do presidente do Federal Reserve Bank, Ben Bernanke.

A valorização de 9% do euro frente ao dólar estaria na raiz do adiamento da elevação dos juros na Zona do Euro, depois de um aumento de 0,25 ponto percentual na reunião do BCE em abril. Apreciação que decorre da montanha de dólares que o governo americano está jogando no mundo, inundando a liquidez internacional e depreciando sua moeda.

As palavras de Trichet chamaram a atenção de alguns economistas brasileiros, pois coincidem exatamente com o que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, tem dito. Conferem também com os argumentos do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, de que a questão cambial hoje é inflacionária. Na medida que o imenso fluxo de dólares entra no país, gera expansão do crédito e alimenta a demanda, ela acaba neutralizando os efeitos das políticas monetária e fiscal.

As informações são do jornal O Estado de S.Paulo e do Valor Econômico, resumidas e adaptadas pela Equipe AgriPoint.

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