O efeito do calcário, em geral, não é observado em camadas mais profundas do solo, uma vez que o ânion acompanhante carbonato (CO32-) imprime reduzida mobilidade ao cálcio no perfil do solo. É por isso que, ao se recomendar a calagem em cobertura, deve-se fazer a correção para 7 cm de profundidade, para que não ocorra uma supercalegem. Assim, grande parte do cálcio fica restrita às camadas superficiais do solo.
O cálcio, por sua vez, é um elemento essencial para o crescimento vegetal, apresentando mobilidade intermediária no solo e pouquíssima, ou nenhuma, mobilidade nas plantas. Dessa forma, o cálcio enviado das raízes para as folhas do café não é retranslocado para as raízes novamente, como acontece com o fósforo. Pode-se, então, fazer uma afirmativa de fácil entendimento: "as raízes do cafeeiro crescem em busca de cálcio, e, onde não houver cálcio, praticamente não haverá raízes de café".
Além disso, o alumínio (Al3+) presente em camadas inferiores, não corrigidas pelo calcário, é tóxico para as plantas em concentrações elevadas. Portanto, haverá pouco crescimento radicular nessas camadas, devido aos baixos teores de cálcio e à possível toxidez de alumínio.
Para contornar esse problema, que muitas vezes não fica explícito, mas que reduz a produção das lavouras, deve-se utilizar o gesso. O gesso agrícola é composto basicamente por sulfato de cálcio (CaSO4.2H2O), contendo, aproximadamente, 32,6 % de CaO e 18,7 % de S, sendo fonte, além de cálcio, de enxofre. É um sal neutro e dissocia-se, quando em solução, em Ca2+ e SO4-2. Logo, não apresenta receptores de prótons (OH- e HCO3- ), ou seja, não é capaz, a princípio, de neutralizar a acidez do solo, muito menos de elevar a CTC. Dessa forma, é considerado como um condicionador do solo, não um corretivo.
O ânion acompanhante sulfato (SO42-) imprime elevada mobilidade ao cálcio, permitindo que este nutriente chegue a camadas mais profundas do solo. Além disso, o sulfato, oriundo do gesso, se liga ao alumínio do solo, formando o sulfato de alumínio (AlSO4+), que é uma forma menos tóxica para as plantas. O gesso promove, também, outras formas de redução da toxidez de alumínio, como a "auto-calagem" ou a formação de AlF2+, mas essas ocorrem com menor intensidade do que a formação de AlSO4+.
Por fornecer enxofre e cálcio, dar mobilidade ao cálcio até camadas mais profundas do solo e reduzir a toxidez de alumínio em sub-superfície, o gesso é um insumo fundamental para a cultura do café, pois favorece o crescimento e o desenvolvimento radicular. Com isso, as plantas ficam menos sensíveis a períodos de veranico e são capazes de absorver nutrientes presentes em um maior volume de solo.
Aplicação de gesso
O gesso é um importante insumo para a cafeicultura, mas tem seu emprego limitado a situações particulares bem definidas. O uso indiscriminado de gesso nas lavouras pode causar problemas em vez de benefícios e prejuízos em vez de lucros.
A utilização do gesso é prescrita para as três situações de sub-solo listadas a seguir. Se apenas uma delas for satisfeita, deve-se aplicar o gesso.
- Teor de cálcio menor ou igual a 0,4 cmolc/dm3.
- Teor de alumínio maior que 0,5 cmolc/dm3.
- Saturação por alumínio (m) maior que 30 %.
Essas são situações a serem determinadas no sub-solo, por meio de análises químicas. Portanto, a amostragem de solo, para esse caso, deve ser realizada na camada de 20 - 40 cm de profundidade, ou mais profundas, não na de 0 - 20 cm. Para verificar a necessidade de aplicação de gesso, os resultados analíticos da camada de 0 - 20 cm não querem dizer muita coisa. Essa decisão só pode ser tomada a partir dos resultados analíticos da camada de 20 - 40 cm.
Concluindo-se pela aplicação do gesso, segundo as três regras citadas, o cálculo da quantidade a ser utilizada é muito simples e baseado no cálculo para a necessidade de calagem (já discutido em artigo anterior). Divide-se em necessidade de gessagem (NG) e quantidade de gesso a ser aplicada (QG).
NG = 0,30 x NC, onde:
NG = Necessidade de gesso, em t/ha.
NC = Necessidade de calcário, em t/ha (calculada para a camada que se deseja corrigir com gesso, não para a camada de 0 - 20 cm. Essa NC é utilizada apenas para o cálculo da NG, não sendo aplicada ao solo).
QG = NG x (SC/100) x (PF/20), onde:
QG = Quantidade de gesso a ser aplicada para corrigir determinada camada de solo, em t/ha.
NG = Necessidade de gesso, em t/ha.
SC = Superfície coberta pelo gesso, em %. (para área total utiliza-se SC = 100 %; para aplicação em faixas utiliza-se SC = 75 %).
PF = Espessura da camada onde o gesso deverá agir, em cm. (para a camada de 20 a 40 cm utiliza-se PF = 20 cm; para a camada de 30 a 60 cm utiliza-se PF = 30 cm).
O gesso pode ser aplicado junto com o calcário, mas é preferível que seja usado após a aplicação deste. Aplica-se a quantidade de calcário calculada para a camada de 0-20 cm e a quantidade de gesso calculada para a camada sub-superficial. O gesso pode ser aplicado em cobertura, sem necessidade de incorporação, pois é muito móvel no solo. Se não houver necessidade de calagem para a camada superficial, pode-se aplicar apenas o gesso, mas esta condição deve ser revista anualmente.
A aplicação de gesso, mal calculada e sem o prévio conhecimento se há necessidade de calagem para a camada superficial, é prejudicial ao equilíbrio químico do solo e à nutrição balanceada do cafeeiro. No entanto, quando bem prescrita e calculada, a aplicação de gesso é fundamental para que sejam alcançadas elevadas produtividades na cafeicultura.














Eudair Francisco Martins
Bauru - São Paulo - Engº Agrº Ministerio Agricultura
postado em 13/09/2006
Muito bom o seu artigo sobre uso do gesso agrícola, tendo em vista que, poucos técnicos se preocupam com a acidez sub-superficial, e, para culturas perenes como o cafeeiro, que explora o perfil do solo a profundidades abaixo de 20 cm, fatalmente ocorrerá limitação no desenvolvimento do sistema radicular, sendo comum presenciarmos plantas sentindo o efeito de estiagens normais para o período, o que mostra que estas não possuem um sistema radicular profundo.
Quanto ao cálculo da quantidade de gesso, quando se faz calagens anuais em baixas quantidades tipo 0,5 a 1 tonelada/hectare, visando corrigir a acidificação provocada pelos fertilizantes, qual a frequência de aplicação de gesso?
Além disso, a dosagem do gesso não está relacionada ao teor de argila do solo?
Prezado Eudair Martins,
Agradeço suas palavras e seu interesse pelo artigo. Tenho visto, frequentemente, produtores que gastam pequenas fortunas com NPK, mas não investem 1/10 disso numa calagem bem calculada. Acredito que, pelos artigos publicados no CaféPoint, muitos já sabem o que estão perdendo.
Considero plausível a aplicação anual de calcário para corrigir a acidez gerada por alguns fertilizantes. Entretanto, a necessidade de calagem deve ser calculada com base nos resultados da análise de solo.
Não se pode prever, exatamente, como o ambiente solo irá reagir à aplicação de determinados fertilizantes. Portanto, as aplicações de calcário, sem o prévio conhecimento da análise de solo, podem ser insuficientes ou excessivas.
Não há freqüência definida para aplicação do gesso. A decisão de aplicar gesso ou não deve ser, sempre, baseada nas três situações de sub-solo listadas a seguir. Se apenas uma delas for satisfeita, deve-se aplicar o gesso.
- Teor de cálcio < 0,4 cmolc/dm3.
- Teor de alumínio > 0,5 cmolc/dm3.
- Saturação por alumínio (m) > 30 %.
A fertilidade do solo deve ser monitorada anualmente (0-20 cm). Porém, como a coleta das amostras de sub-solo é um pouco mais complicada, considero, nesse caso, que o monitoramento para aplicação de gesso pode ser realizado a cada dois anos.
Realmente, a dose de gesso está relacionada ao teor de argila. Inclusive, existem tabelas que sugerem as doses de gesso de acordo com o teor de argila. Essas tabelas são funcionais, mas podem criar uma irrefletida generalização de altas dosagens de gesso, as quais tendem a ser aplicadas com elevada freqüência.
Na fórmula de cálculo fornecida pelo artigo, o teor de argila do solo é levado em consideração, uma vez que a necessidade de gesso (NG) é uma porcentagem da necessidade de calagem (NC). Esta é calculada considerando, em um caso, a capacidade tampão de pH do solo (método do Al3+ + (Ca2+ + Mg2+)) e, em outro, a CTC do solo
(método da saturação por bases), que são diretamente influenciadas pelo teor de argila do solo.
Novamente agradeço suas palavras.
Qualquer dúvida volte a escrever para o CaféPoint.
André Guarçoni Martins.