Esqueletamento de cafeeiros, a moda e o modo

 

O esqueletamento é atualmente o tipo de poda mais utilizado na cafeicultura. Porém, nos dois últimos anos essa poda vem aumentando substancialmente sem respeitar as condições necessárias para sua execução.

Definição:

O esqueletamento consiste no corte dos ramos laterais associado a um decote. O ideal do corte lateral é fazê-lo em forma cônica, iniciando-se o corte no terço superior entre 20 e 30 cm de distância do ramo ortotrópico e terminando no terço inferior com 30 a 50 cm. Caso esse corte seja mais longo entre 50 e 70 cm de distância do ortotrópico, essa poda passa a ser chamada de desponte. Já o corte do topo da planta (decote) pode ser feito de 1,2 a 2 metros de altura sendo de extrema importância para a quebra da dominância apical, melhorando a brotação dos ramos laterais.

Finalidades do Esqueletamento:

Dentre as diversas finalidades do esqueletamento, podemos citar: 1) abertura de lavouras fechadas; 2) recuperação da saia de lavouras sombreadas (antes da morte desses ramos); 3) recuperação de lavouras depauperadas ou atingidas por intempéries como granizo e geadas; 4) Promover um reequilíbrio entre a parte aérea e o sistema radicular; 5) reduzir a altura da planta melhorando a colheita; 6) escalonamento de colheitas (Sistema Safra Zero); 7) racionalização de custos; 8) aumentar e renovar a quantidade de ramos produtivos.

Situações importantes:

Quando falamos em esqueletamento, temos que raciocinar em cima de quatro questões básicas: 1) Esqueletar quando? 2) de quanto em quanto tempo? 3) o esqueletamento realmente aumenta a produtividade? 4) posso reduzir adubação e tratamento fitossanitário em lavouras podadas?

1) Quando esqueletar?

O esqueletamento deve ser feito o quanto antes possível a partir do mês de Julho. Ensaios realizados na Fazenda Experimental de Varginha comprovam que as melhores épocas de esqueletamento, no ano seguinte à poda, para o cultivar Mundo Novo são os meses de julho e agosto, sendo o mês de setembro intermediário e a partir de outubro inferior. Já para o cultivar Catuaí o mês de julho foi superior, os meses de agosto e setembro foram intermediários e a partir de outubro inferior. No ano seguinte, houve uma compensação e as épocas inferiores no ano anterior passaram a ser superiores no ano seguinte. Portanto quando se analisa em dois anos não há diferença para a época de esqueletamento, mas é recomendável que seja realizado o quanto antes possível para recuperação do capital investido no ano de vegetação da planta (Tabela 1).

Desta forma, a colheita deve ser planejada com antecedência, pois os talhões destinados ao esqueletamento devem ser colhidos anteriormente.

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De quanto em quanto tempo?

O esqueletamento deve ser realizado sempre que as condições vegetativas da planta necessitarem dessa prática; mas geralmente é recomendável que seja realizado em prazos ímpares de colheitas, ou seja, uma, três, cinco ou mais safras. Isso devido a bienalidade de produção após a poda. Entretanto, deve-se sempre observar a resposta de produção que pode sofrer influência de fatores bióticos e abióticos, alternando o ano de alta produção, a fim de que não se efetue a poda em uma lavoura projetando uma alta carga. Caso específico é verificado no sistema Safra Zero, no qual colhe-se uma safra alta em um ano e zero no outro.

2) O esqueletamento aumenta a produtividade?

O esqueletamento por si só não aumenta a produtividade. Diversos são os ensaios que comprovam que na maioria das vezes a testemunha apresenta produtividade igual ou maior aos tratamentos podados. Na realidade o esqueletamento racionaliza o custo de produção, pois em anos que as safras seriam menores a lavoura encontra-se somente em desenvolvimento de ramos, reduzindo assim o gasto com a colheita que fica toda concentrada no ano seguinte.

Aumentos de produtividade só são observados em caráter corretivo quando algum fator que gera depauperamento está atuando na planta. Por isso tem que ter muita cautela na recomendação de um esqueletamento.

3) Posso reduzir adubação e tratamento fitossanitário?

Com relação à adubação, o importante não é reduzir, mas sim equilibrar. O material vegetal que cai no solo, fruto do esqueletamento, é rico em macro e micronutrientes.

Tabela 2. Quantidade de macro e micronutrientes nas partes podadas do cafeeiro, cafezal Mundo Novo, 9 anos, 3,5 x 1,5m (1904 covas/ha). Alfenas, 1986.



Fonte: Garcia, Malavolta, Gonçalves e outros.

Apesar de haver mais de 250 Kg de nitrogênio, a relação C/N desse material é alta e por isso é necessário a realização de adubações nitrogenadas para equilibrar essa relação. Já com relação ao potássio, são raros os casos de lavouras que após a poda necessitam desse nutriente, pois o mesmo é requerido em grandes quantidades em anos de safras altas.

O equilíbrio nutricional da planta é fundamental para que a produtividade não seja limitada. Desta forma deve-se proceder a análise mineral de solo de 0-20 e 20-40 a fim de se identificar e corrigir os teores de macro e micronutrientes de acordo com os critérios recomendados pelo Novo Manual de Recomendações do Livro Cultura de Café no Brasil (Ed 2005). O fornecimento de N ainda precisa ser mais estudado principalmente devido a imobilização deste pelo material vegetal oriundo da poda. Recomenda-se que este seja fornecido logo no inicio das chuvas considerando este intervalo entre a imobilização e re-disponibilização as plantas após decomposição da matéria orgânica.

Com relação aos tratamentos fitossanitários é importante ficar bastante atento às pragas de solo como nematóides, cigarras, berne de raiz e cochonilha de raiz. Caso haja histórico dessas no solo é indicado a realização do seu controle, pois lavouras esqueletadas tem uma mortalidade de aproximadamente 80% do sistema radicular aos 120 dias (Tabela 3). Cabe ressaltar que algumas doenças foliares tais com a Ferrugem e a Phoma são bastante intensas em lavouras esqueletadas. Em alguns casos a Phoma reduz drasticamente a produtividade dessas lavouras no ano de safra.

Desta forma é importante a constatação da presença de pragas de solo e aplicação de inseticidas/nematicidas logo no inicio das chuvas, momento este onde as novas raízes serão formadas. O monitoramento da ferrugem deve ser realizado a partir da emissão do terceiro par de folhas. Ao contrário de um planta não podada os cafeeiros sem produção, durante a vegetação, ficam extremamente susceptíveis ao ataque de ferrugem. Esse monitoramento deve ser realizado nas lavouras esqueletadas, pois nessas a ferrugem aparece mais cedo com uma curva de progressão mais agressiva. Durante este período são utilizados fungicidas triazóis em mistura com cúpricos geralmente aplicados no mínimo em duas épocas, com intervalo de 60 dias sempre que o índice da doença for superior a 3% de folhas atacadas.

Durante o ano de produção deve-se também controlar a ferrugem, mantendo a planta bem enfolhada, servindo como fonte de nutrientes e fotoassimilados para os frutos que são drenos preferenciais. Em altas produções esta força de dreno exercida pelos frutos é visivelmente notada a partir do período de expansão rápida, onde a planta tende a mudar a tonalidade das folhas, de verde intenso a amareladas. Outra doença de grande importância neste momento é a Cercosporiose. Além de causar a desfolha das plantas, atacam os frutos desde verdes até cerejas, principalmente na região apical das plantas, causando queda dos frutos ainda imaturos, perda de qualidade dos grãos e seca de ramos nas plantas.

Tabela 3. Mortalidade de raízes de cafeeiros em vários tipos de podas em cafezal Mundo Novo, 7 anos, 3,5 x 1,5m (3-4 hastes/cv). Alfenas-MG, 1986.



Fonte: Miguel, Oliveira, Matiello e Fioravante. In Anais 11º CBPC, p. 240-241.

Um fator primordial que deve ser considerado para a execução do esqueletamento refere-se as característica genéticas da cultivar. O potencial de produção pós poda das cultivares é bastante heterogêneo não só pela herança genética mas também pela interação com as condições ambientais e de manejo. Conforme verificado, por produtores e melhoristas, algumas cultivares tendem a ser mais responsivas a podas que outras, em maior amplitude de condições ambientais. Porém, deve-se realizar um estudo localizado, levando em consideração esta interação e as condições de manejo, a fim de potencializar a expressão genética de produção.

O estande também é muito importante, pois espaçamentos antigos com pequeno número de plantas por hectare não alcançam as altas produtividades almejadas no primeiro ano produtivo. Outro fator importante a considerar é a arquitetura da planta, pois plantas com pequena ramificação lateral ou sem saia ou com excesso de brotos ladrões não tem sucesso produtivo.

Saiba mais sobre os autores desse conteúdo:

Alysson Vilela Fagundes    Boa Esperança - Minas Gerais

Pesquisa/ensino

André Luiz Alvarenga Garcia    São Paulo - São Paulo

Pesquisa/ensino

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Comentários:

Antonio Costa Reis

Uberaba - Minas Gerais - Produção de café
postado em 13/07/2010

os engenheiros , professores , phd, usam uma linguagem muito tecnica, que tão somente agronomos a entendem. se querem atingir o pequeno produto, acho que não é assim.

Alysson Vilela Fagundes

Boa Esperança - Minas Gerais - Pesquisa/ensino
postado em 20/07/2010

Prezado Reginaldo Moacir Beleze,

obrigado pelo elogio. Nos da Fundação Procafé pesquisamos para o produtor acertar.

Reginaldo Moacir Beleze

Ipauçu - São Paulo - Produção de café
postado em 20/07/2010

Parabéns pelo artigo. Foi uma breve reciclagem.

Diogo Dias Teixeira de Macedo

São Sebastião da Grama - São Paulo - Engenheiro Agrônomo
postado em 21/07/2010

Prezados Alysson e André,

Muito bom o artigo, tive o prazer de ir ao dia de campo da Fundação Prócafé e acompanhar o experimento sobre esqueletamento. O tema é oportuno e vem em boa época.

Parabéns a toda equipe do Prócafé.

Alysson Vilela Fagundes

Boa Esperança - Minas Gerais - Pesquisa/ensino
postado em 21/07/2010

Prezado Diogo,

é sempre um prazer poder ajudar. As podas de maneira geral necessitam de tempo cronológico para darem bons resultados produtivos.

obrigado

José Tadeu Dantas Leite

Santo André - São Paulo - Produção de café
postado em 24/07/2010

Senhores Mestres Alysson e André, parabens e muito obrigado pelo excelente esclarecimento que nos troxe a respeito deste assunto tão valioso e importante para o cafeicultor que tanto necessita de aplicar técnicas corretas na condução de seu cafeeiro, o qual está sendo tão dificultoso. É de assuntos esclarecedores que necessitamos. Espero que nos tragam mais temas esclarecedores sobre outras técnicas. Meu muito obrigado, José Tadeu.

ricardo jose ferreira

Ilicínea - Minas Gerais - Consultoria/extensão
postado em 25/07/2010

gostei do tema do artigo, acho que muitos produtores tomam a decisão de esqueletar a lavoura por moda, não levando em conta a situação da lavoura,que poderia ser manejada de forma menos agressiva.

Alysson Vilela Fagundes

Boa Esperança - Minas Gerais - Pesquisa/ensino
postado em 26/07/2010

O que temos visto Ricardo, é que muitos produtores e até mesmo técnicos do setor tem esqueletado lavouras que não tem uma boa ramificação lateral. Assim sendo, os resultados de produtividade não poderiam ser diferentes, ou seja, são baixos. Além do mais, temos que avaliar que após um esqueletamento, são necessárias pelo menos duas desbrotas, as quais são muito caras devido seu baixo rendimento.

luiz claudio rezende Washington

Três Pontas - Minas Gerais - Produção de café
postado em 09/08/2010

Uma boa dose de senso crítico, caldo de galinha e muita pesquisa técnica aplicada. Dão muito certo.Parabens!

Bruno de Oliveira Paiva

Nepomuceno - Minas Gerais - Consultoria/extensão
postado em 12/08/2010

Bom dia Alysson,

Tenho ouvido relatos de produtores que mesmo ao se depararem com suas lavouras sem uma boa ramificação lateral (barrado-saia), fizeram o esqueletamento. E para compensar essa falta de ramos, foram deixados brotações na parte inferior da planta, que posteriormente formariam novos ramos plagiotrópicos nessas plantas, evitando assim podas mais drásticas, como a recepa,

gostaria de saber sua opiniao sobre essa prática , e se ja existe algum estudo sobre isso, e sua viabilidadde economica.

Grato Bruno...

Alysson Vilela Fagundes

Boa Esperança - Minas Gerais - Pesquisa/ensino
postado em 12/08/2010

Caro Bruno,

Quando uma lavoura perde os ramos plagiotrópicos do terço inferior e médio, não há mais o que ser feito além de uma recepa mais cedo ou mais tarde. Na verdeade, o que ocorre muita das vezes é que o produtor não quer ou não pode ficar dois anos sem uma boa safra (que acontece na recepa). Por esse motivo, muitos técnico avaliam diversas formas de esqueletar mesmo lavouras sem saia. Na verdade os brotos ortotrópicos secundários (broto ladrão), não é uma boa opção. Nesses casos, a melhor opção é fazer um decote mais alto para aproveitar a planta por mais algum tempo.

Decio barb0sa freire

Belo Horizonte - Minas Gerais - Produção de gado de corte
postado em 24/05/2011

excelente artigo.parabens Aos pesquisadores Alysson e Andre Decio Barbosa Freire

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