ESQUECI MINHA SENHA CONTINUAR COM O FACEBOOK SOU UM NOVO USUÁRIO
FAÇA SEU LOGIN E ACESSE CONTEÚDOS EXCLUSIVOS

Acesso a matérias, novidades por newsletter, interação com as notícias e muito mais.

ENTRAR SOU UM NOVO USUÁRIO
Buscar

Desgovernança

BRUNO VARELLA MIRANDA

EM 23/01/2023

2 MIN DE LEITURA

0
1

Por Bruno Varella 

A eclosão de um escândalo contábil não chega a ser uma novidade. Hoje a imprensa discute o caso das Lojas Americanas, mas basta uma rápida pesquisa para percebermos que problemas semelhantes afetaram diversas empresas nos últimos trinta anos. Tampouco podemos culpar a cultura ou as instituições do Brasil pela debacle: casos de fraude contábil são encontrados em nações desenvolvidas como os Estados Unidos, o Japão, ou os países da Europa Ocidental.     

O que explicaria a recorrência de escândalos? Embora seja impossível apontar um único motivo, precisamos refletir sobre o quanto a pressão por resultados no curto prazo contribui para a erosão moral. 

Vivemos tempos em que as atenções geralmente recaem sobre o resultado. O executivo admirado pelo mercado é aquele que entrega os maiores lucros, esse número “mágico” que parece resumir todo o resto. Pode-se até falar de responsabilidade social, sustentabilidade ambiental, mas sempre enfatizando que tais políticas são boas para o bolso dos acionistas. Mesmo a ênfase no desenvolvimento de mecanismos de governança corporativa costuma vir acompanhada de explicações que sublinham o potencial de atração de investidores.     

No entanto, temos pouco controle sobre o resultado. Ou, ao menos, um controle menor do que a nossa cultura de celebridades parece sugerir. É bem verdade, o executivo “acima da média” influenciará as rotinas e políticas na rotina da organização. Isso não significa, porém, que possa determinar de forma mágica os lucros amealhados ao final do período contábil. 

Afinal, o resultado depende não apenas daquilo que uma empresa faz, mas também das decisões de burocratas, concorrentes, consumidores, fornecedores e outros grupos de interesse. Depende também do acaso. Por isso, mesmo o mais talentoso executivo deverá trazer más notícias de vez em quando. 

O que fazer, então, quando as notícias são ruins? Em uma sociedade caracterizada por uma crescente pressão por resultados, a mentira passa a ser uma saída frequente. E isso geralmente significa o desmonte dos sistemas de governança corporativa. Em outras palavras, quando um executivo não tem nada de positivo para mostrar ao público, é grande a tentação de afrouxar o monitoramento para “fabricar” uma boa notícia.  

A lógica vale não apenas para os mecanismos de governança no interior na empresa, mas também para a relação entre organizações. Escândalos contábeis ocorrem, entre outros fatores, porque uma auditoria não fez o que dela se esperava. Entretanto, os auditores também são pressionados a entregar boas notícias. De fato, se a entrega de uma má notícia pode significar a perda do cliente, isso significa um sinal de fracasso sob a lógica prevalecente no mundo corporativo. Temos aí mais uma fonte de incentivo para a mentira. 

Um sistema de governança robusto é aquele que resiste mesmo que notícias ruins tenham que ser entregues. Um problema fundamental em nossa sociedade é não toleramos as más notícias. Em resposta, executivos muitas vezes preferem desmontar as regras e criar uma realidade paralela – algo que, no limite, significa transferir o prejuízo a outras pessoas – do que revelar os números reais. Se adotam tais práticas, é porque seus empregos e prestígio pessoal dependem da boa vontade de acionistas impacientes.  

Já o grande público busca alternativas para tentar reduzir a sensação de insegurança. Não é uma coincidência que vivamos tempos de admiração desmesurada por líderes com atributos quase míticos. Acreditar que um determinado empreendedor sempre acerta é uma forma de relativizar a precariedade dos sistemas de governança corporativa. Afinal, se o Elon Musk sempre tem razão, ele nunca trará más notícias – e, portanto, quem se importa com um Conselho de Administração ou auditorias?

Deveríamos nos importar. 

BRUNO VARELLA MIRANDA

Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri

0

DEIXE SUA OPINIÃO SOBRE ESSE ARTIGO! SEGUIR COMENTÁRIOS

5000 caracteres restantes
ANEXAR IMAGEM
ANEXAR IMAGEM

Selecione a imagem

INSERIR VÍDEO
INSERIR VÍDEO

Copie o endereço (URL) do vídeo, direto da barra de endereços de seu navegador, e cole-a abaixo:

Todos os comentários são moderados pela equipe CaféPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração. Obrigado.

SEU COMENTÁRIO FOI ENVIADO COM SUCESSO!

Você pode fazer mais comentários se desejar. Eles serão publicados após a analise da nossa equipe.

Assine nossa newsletter

E fique por dentro de todas as novidades do CaféPoint diretamente no seu e-mail

Obrigado! agora só falta confirmar seu e-mail.
Você receberá uma mensagem no e-mail indicado, com as instruções a serem seguidas.

Você já está logado com o e-mail informado.
Caso deseje alterar as opções de recebimento das newsletter, acesse o seu painel de controle.

CaféPoint Logo MilkPoint Ventures