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Qual o valor da palavra?

BRUNO MIRANDA

EM 16/02/2012

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 *Sylvia Saes
*Bruno Varella

 
O leilão de concessão de alguns dos principais aeroportos brasileiros é um evento que merece a nossa reflexão. Afinal, trata-se de um tema discutido exaustivamente na última campanha presidencial e que, por isso mesmo, revela algumas facetas de jogo político brasileiro. Para quem não se lembra, a então candidata Dilma Rousseff usou o assunto a fim de deixar o seu adversário, José Serra, em situação desconfortável. Nada que a impedisse de, meses mais tarde, adotar a mesma prática que criticara anteriormente.

Antes que a discussão descambe para a polarização partidária, porém, é importante salientar que o fato de Dilma ter utilizado essa estratégia diz muito pouco sobre a sua personalidade ou a dos integrantes de seu partido político. Serra, em outros momentos, apelou para práticas semelhantes; basta nos lembrarmos de sua promessa de não abandonar a prefeitura de São Paulo, quebrada pouco tempo depois. Mais importante do que o responsável pela contradição é entendermos algumas das consequências dessa prática.

Uma das principais, em nossa opinião, é a progressiva desvalorização do voto. Imaginemos um eleitor, contrário aos leilões de concessão, que tenha se decidido com base nos dizeres da candidata Dilma. O que pensará esse indivíduo? Dirá que foi enganado? Ou já terá esquecido as razões que o motivaram a votar? Pior, o que o levaria a valorizar a decisão diante da urna no futuro se percebe que o ato, ainda que leve a vitória de um candidato, não significa o respeito às posições defendidas na campanha?

Muitos poderão argumentar que, no Brasil, parte considerável dos eleitores não se lembra nem em quem votou nas últimas eleições e que, portanto, essas reviravoltas têm pequena influência nas eleições futuras. Outros dirão que a decisão de voto é motivada por fatores mais banais do que a análise das propostas de cada candidato. De qualquer maneira, reforçamos o nosso argumento: a falta de cuidado com o corpo de ideias de determinado agrupamento político pode levar, no médio prazo, a uma desvalorização do jogo democrático.

Some-se a isso a crescente pirotecnia das campanhas políticas. O enorme dinheiro gasto em campanhas e no mapeamento dos humores da população acaba por tornar a trajetória dos políticos semelhante a uma novela. Se o povo deseja mais de determinado tema, eis que tudo se transforma repentinamente e o candidato desanda a tecer os seus comentários. No mundo real, entretanto, o discurso de um homem público não deveria ser tão volúvel quanto os humores do mocinho da “trama das 9”. A situação só piora se lembramos que essas estratégias são armadas com recursos que, em quantidade considerável, originam-se de práticas condenáveis.

Longe de sermos inocentes, reconhecemos que a política é um espaço em que o pragmatismo vez ou outra triunfa. Da mesma forma, é evidente que as posições de um político não devem ser equiparadas a uma camisa de força. Mudar de opinião é salutar, desde que esse processo seja baseado em argumentos sólidos. Quando tratamos de uma agenda política, em que as ideias pertencem a uma complexa reunião de vontades, essas transformações podem e devem ser processadas com o devido debate e a afirmação de princípios. Trata-se de algo que, muitas vezes, falta ao nosso cotidiano: justificativas mais bem fundamentadas, que demonstrem que o caminho tomado corresponde a uma parcela de um todo minimamente coerente.

Em outras palavras, o que aqui criticamos não é exatamente a mudança de opinião ao longo de um governo, e sim a forma como os programas de governo são montados na atualidade. Na era dos espetáculos de massa, essas apostilas não mais são mais que um amontoado de ideias. Arrisca-se muito pouco, define-se muito pouco; em resumo, grande parte da riqueza do debate político se perde em meio a considerações de equipes especializadas na criação de uma imagem. Enfim, a homogeneização diminui a importância da urna.

Menos pirotecnia e maior preocupação com a perenidade das propostas. E, claro, se possível, um projeto de longo prazo sustentado por um corpo de ideias dotado de um mínimo de coerência. Para um país que quer chegar ao Primeiro Mundo, isso é uma obrigação. O leitor, obviamente, pode fazer a sua parte, cobrando tal orientação no cotidiano. Caso contrário, os debates políticos se tornarão, cada vez mais, um reality show, em que os participantes – no caso, os candidatos – adequam o seu comportamento exclusivamente de acordo com o seu desejo de evitar o “paredão” da derrota.

 
*Sylvia Saes - Professora do Departamento de Administração da USP e coordenadora do Center for Organization Studies (CORS)

*Bruno Varella Miranda- Mestre em Administração pela USP




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BRUNO VARELLA MIRANDA

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 14/03/2012

Prezado Carlos Eduardo,

Agradecemos o comentário. Concordo quando você diz que governar é aparar arestas; muitas vezes, algo de pragmatismo é necessário. O que criticamos em nosso texto - e isso é uma impressão nossa - é a falta de exposição dos princípios, de uma visão de mundo coerente e que se mantenha ao longo do tempo. Não existe verdade absoluta, de modo que seria interessante se houvesse mais embate entre ideias no processo de escolha dos candidatos.

Repetimos, porém, que essa é uma impressão nossa, que compartilhamos com vocês.

Atenciosamente

Bruno Miranda
CARLOS EDUARDO COSTA MARIA

ANHEMBI - SÃO PAULO - INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS

EM 13/03/2012

Não discordando do tema exposto, aliás muito bem articulado aí pelos autores, mas não acredito, a despeito de que no embate eleitoral joga-se com todas as armas e estratégias,
que os eleitores,de um modo geral, não saibam separar o que se diz em campanha eleitoral e o que de fato esperam de verdade dos politicos que elegem e que até mesmo nas democracias mais desenvolvidas sempre há promessas que se sabem não se concretizarão, mas não é isso o ponto crucial do artigo. No caso em questão é a mudança em relação ao que não havia na sua cartilha de campanha e aí perguntaria se a omissão não seria mais desastrosa para perpetuação da democracia, porque campanha eleitoral é uma coisa governar é aparar as arestas, é tomar atitudes, ainda que, aparentemente contraditórias, o que importa é realizar o necessário para o bem comum da sociedade, segundo as regras e o que dita a Constituição.
JOSÉ ANTONIO PADIAL POSSO

MONTE CARMELO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 24/02/2012

Caro Bruno,

Acho que você está certo nisso também. Essa impressão sua de que o administrador é que vem se apresentando para o eleitorado, mostra bem um certo (quase)concenso de que as extremas esquerda e direita já não tem lugar. É comum a todos uma cesta básica de problemas aos quais devem se ater e apresentar soluções.

Há muito se fala em um projeto de Estado para a nação, que vislumbre e trace uma rota para um futuro seguro para os brasileiros. Também não sou especialista, mas creio que em toda nossa história, isso foi relegado e a administração se deu aos trancos e barrancos, repleta de eventos que atendiam a caprichos e deleites dos governantes, manter privilégios ou para driblar questões pontuais imediatas.

Esse megaprojeto, de factibilidade discutível, reconheço, certamente seria muito útil para direcionar as campanhas e assim tornar claras as intenções e os posicionamentos dos candidatos, porque certamente as prioridades seriam diferentes entre eles.

Abraço.
José Antonio


BRUNO VARELLA MIRANDA

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 24/02/2012

Prezado José Antônio,

Muito obrigado pelas palavras. Gostaria de levantar um aspecto interessante do seu comentário: o papel das ideologias nas eleições atuais. Posso estar enganado, dado que não sou especialista no tema, mas a minha impressão é a de que a imagem do "administrador eficiente" vem substituindo grande parte do debate acerca dos rumos a serem dados para a sociedade. É como se fosse necessário apenas alguém capaz de administrar a rotina da cidade, e não alguém que represente ideias ou que apresente uma rota a ser seguida.

É aí que mora o problema: alguma rota, necessariamente, terá que ser seguida. No final das contas, acabamos assinando contratos em branco; escolhemos pessoas que consideramos ser bons "gerentes", mas, não raramente, temos pouca ideia sobre o que farão.

Atenciosamente

Bruno Miranda
BRUNO VARELLA MIRANDA

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 24/02/2012

Prezado Reinaldo,

Agradecemos o comentário. Concordo plenamente: o voto é uma forma de expressar descontentamento com práticas consideradas condenáveis. Este constitui, porém, apenas parte de um processo mais complexo. É necessário, de maneira geral, maior mobilização da população para a construção de debates mais aprofundados de diversas questões importantes em nossas rotinas. Afinal, se predomina o "show mediático" nas campanhas políticas, é também porque essa estratégia se mostrou efetiva.

Atenciosamente,

Bruno Miranda
JOSÉ ANTONIO PADIAL POSSO

MONTE CARMELO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 24/02/2012

Vocês estão certíssimos.

Os discursos de políticos, especialmente os dirigidos às massas, é pura retórica não autêntica - aquela usada para envolver e tirar o foco de detalhes relativos a assuntos realmente interessantes. São generalistas, repletos de clichês, frases de efeito, palavras de ordem, acompanhados de gestos grotescos, inócuos para avaliação das reais intenções e totalmente contraproducente para o aprimoramento da democracia.

E porque o tempo passa, as gerações se renovam e nada muda? Continuamos a eleger pessoas demagogas, pouco comprometidas com o que apregoam.
Os motivos podem ser vários.
1) Princípios frouxos;
2) Por posicionamento ideológico equivocado. Hoje em dia se posicionar mais a esquerda ou a direita traz um risco de ao ser eleito, ter que se confrontar com uma realidade (correlação de forças) incompatível com a posição assumida. A posição ideológica a ser assumida deve ser a da sustentabilidade, a tudo aplicada e no mais amplo significado da palavra. Mas, o que normalmente acontece é a cessão a um sistema onde o governo se presta a manter a ordem social e a pavimentar o caminho por onde trafegam as jamantas do acúmulo de capital. (cadê a sustentabilidade?)
3) Como vocês bem disseram, os marketeiros se valem de pesquisas e estudos para avaliarem o público receptor do discurso. Ora, é notório que o brasileiro comum é vítima de um sistema que a muito negligencia sua formação para o exercício da cidadania. Sem condição de entender e analisar os fatos, acaba facilmente servindo aos interesses de políticos inescrupulosos.

Essa situação não vai eternizar-se, contudo as pessoas precisam ser conscientizadas de suas responsabilidades (menos futebol e novela, mais informação útil, estudo e participação), e todos os que tem algum poder de voz, aglutinação, liderança devem ajudar nesse processo. A internet é aliada inestimável.

Abraços.
José Antonio Padial Posso (anap@netvip.com.br)
REINALDO FORESTI JUNIOR

CAMPANHA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 17/02/2012

Prezados Mestres.Tendo vivido como cidadão votante mais de cincoenta anos em nosso imenso Brasil e comparecendo como direito de cidadão aos pleitos realizados sinto uma grande ingratidão dos políticos aparecidos em sua grande maioria bons de conversas e péssimos de luta pelo conquista da plena democracia e realizações para a nossa carente população.Mas entretanto continuo realista que podemos construir um país melhor escolhendo candidatos honestos que se apresentarão agora para os futuros pleitos obdecendo os ditames da Lei De Ficha LIMPA honrosamente votada pelo nosso S.T.F. em gloriosa reunião acontecida.Acho que poderemos eleger candidatos com P DE POLITICOS autênticos e não comprometidos com corrupção e com corruptos de plantão,que infelizmente não faltam no meio.Parabéns pelo artigo e vigilância constante.Atc.