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O anonimato e as decisões econômicas

BRUNO MIRANDA

EM 01/02/2012

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*Sylvia Saes
*Bruno Varella


O fenômeno pode ser encontrado em qualquer página da Internet: uma notícia é publicada e, minutos depois, dezenas de comentários surgem. Em muitos deles, o tom é semelhante: respostas raivosas, quando não mal educadas. Por sorte esse não é o caso em nossa coluna, marcada pela civilidade nas postagens e pelo debate de ideias, mas quem já não se viu lendo os desaforos postados após a mais banal das notícias? O câncer do ex presidente Lula constitui apenas um exemplo entre os muitos que aqui poderiam ser citados. Seja para debater a corrupção, o conflito entre Israel e Palestina ou uma partida qualquer do campeonato paulista de futebol, não raramente a falta de respeito ao próximo é a regra.

De muitas maneiras, esses inúmeros comentários nos ajudam a refletir sobre questões mais amplas. Aqui queremos chamar a atenção para um aspecto específico: a influência do anonimato nas ações dos humanos. Ninguém nega que a Internet nos beneficia de diversas maneiras, e, entre mortos e feridos, acreditamos que é melhor que haja um espaço em que todos sejam livres para se expressar da forma que consideram a mais adequada. O que muitos não percebem, porém, é que muito antes da invenção dessa ferramenta já expressávamos nossas opiniões amparados no anonimato. É assim que agimos, por exemplo, quando vamos ao supermercado e decidimos o que vamos comprar.

Por que esperar, então, que humanos, muitas vezes incapazes de enxergar a validade na opinião de seus pares, comprariam um produto porque essa decisão beneficiaria a coletividade? Essa é uma questão mais complexa do que imaginamos a princípio. A própria teoria econômica, ao reconhecer que os agentes buscarão o menor preço quando isso não afetar a sua satisfação, nos fornece pistas acerca dessa realidade. Chega a ser irônico que tantas análises deleguem para esses mesmos mercados, e, consequentemente, para a ação dos seus participantes, a capacidade de lidar com problemas complexos como o trabalho em condições precárias ou o aquecimento global.

O primeiro erro cometido por essa linha de raciocínio reside no próprio uso da palavra “mercado”. Cheia de significados e, ao mesmo tempo, vazia, o termo abarca uma enorme diversidade de construções sociais e institucionais. Por isso, a sua utilização descuidada apenas confunde, ao invés de esclarecer. Outra imprecisão comum é a oposição entre as “forças do mercado”, por um lado, e a “intervenção do Estado”. Afinal, não existe no mundo mercado que não seja regulado, ou, em outras palavras, sofra de alguma maneira a influência de outros ordenamentos sociais.

Finalmente, muitas vezes adota-se uma visão exclusivamente benigna do ser humano, racional e guiado por um senso claro de justiça, o que apenas contribui para maiores desvios. Embora não seja novidade para ninguém que muitas empresas ainda garantem os seus baixos preços por meio da utilização de mão de obra em condições precárias, não vemos muitos consumidores questionando essa realidade diariamente. Por que esperar, assim, que a adaptação dos seus costumes irá ocorrer exatamente a tempo de evitar que as mudanças climáticas sejam contidas em um estágio tolerável para os humanos sem qualquer “empurrão” de outros ordenamentos sociais?

Por tudo isso, a ideia de que a ação independente de milhões de pessoas, seguindo os seus instintos, levará a soluções ótimas para os mais variados problemas – para muitos profetas, para todos eles – não deveria ser levada tão a sério. Chama a atenção, por sinal, a força que essa conclusão possui em determinados círculos acadêmicos e sociais. Talvez porque o outro extremo, o do controle estrito das escolhas dos cidadãos, tenha se mostrado ainda mais desastroso, a defesa acrítica desse mundo ideal conte com tantos defensores. Faz falta no mundo atual um número maior de pessoas que nos lembrem que, por trás de nosso “anonimato”, há responsabilidades das quais não deveríamos fugir, e ordenamentos sociais que deveriam cuidar da construção desses consensos.

Obviamente, a utilidade dos mercados impessoais é inegável. De fato, sem a sua existência, não teríamos sido capazes de gerar tamanha riqueza em nossas sociedades, tampouco explorar de forma eficaz os benefícios derivados da divisão do trabalho. Devemos estar conscientes, porém, de que, como qualquer outro ordenamento social, estes possuem limitações claras. Ademais, são o resultado daqueles que os constrõem ou participam de sua rotina. Se queremos construir um “mundo melhor”, qualquer que seja esse mundo, não deveríamos confiar tanto nas formas inatas do acaso. A história tem nos mostrado que, via de regra, o acaso só leva a bons resultados do ponto de vista social quando os humanos são capazes de construir uma estrutura adequada para a sua ação cotidiana.


*Sylvia Saes - Professora do Departamento de Administração da USP e coordenadora do Center for Organization Studies (CORS)

*Bruno Varella Miranda- Mestre em Administração pela USP



 

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BRUNO VARELLA MIRANDA

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 06/03/2012

Prezado Celso,

Acredito que o mais difícil, para boa parte dos participantes em qualquer debate, é aceitar que a existência de diferentes "visões de mundo" é uma consequência natural da vida em sociedade. Daí a importância das "regras do jogo" e das estruturas organizacionais que fazem essas regras funcionarem de forma adequada: permitir que essas diferentes visões possam ser expressas e comparadas.

O caso o drawback é complexo. Perde-se muita energia discutindo detalhes quando o quadro geral é que deveria ser exposto. Entre o mundo dos nossos sonhos e o mundo real há uma enorme distância; é pensando em soluções para o mundo real que devemos nortear as políticas, tanto públicas quanto privadas, e a defesa do drawback nada mais é do que isso (na minha visão de mundo, claro).

Finalmente, aproveito para dizer que acompanho sempre os seus textos, capazes de entregar um panorama bastante complexo do setor no momento em que são publicados, além de propor questões interessantes para a reflexão.

Atenciosamente

Bruno Miranda


CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

SÃO PAULO - SÃO PAULO

EM 06/03/2012

Prezado Bruno
Mas foi por detrás de uma persona que Fernando Pessoa escreveu um dos mais belos capítulos da língua portuguesa.
Recordo a primeira estrofe de TABACARIA.

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
...

Assumir posicionamentos alinhados com a verdade e com a razão podem nos trazer inimizades. Quanto nos batemos pelo drawback e além de nada conseguirmos angariamos olhares esguelhados dos produtores e seus líderes. É um tema complexo esse abordado e por isso instigante e que redundará em novos e mais profícuos debates.
Abçs
Celso Vegro
BRUNO VARELLA MIRANDA

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 06/03/2012

Prezado Carlos Eduardo,

Agradecemos o comentário. Acho que o seu comentário aborda uma questão bastante interessante, qual seja: a construção social dos valores de uma sociedade. Isso nos leva ao eterno questionamento: os humanos agem como agem porque seguem instintos inatos ou porque um determinado grupo de valores se afirmou na sociedade ao longo do tempo e os faz pensar da forma como pensam? Excelente tema para um artigo no futuro, essa pergunta nos leva a refletir um bocado.

Atenciosamente

Bruno Miranda
CARLOS EDUARDO COSTA MARIA

ANHEMBI - SÃO PAULO - INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS

EM 06/03/2012

Putz! O tema é instigante e suscita uma série de comentários que este espaço não daria conta.Embora, o autor nos passe uma idéia até otimista sobre a força do "anonimato" no destino de uma comunidade ou até da humanidade, devemos ter em mente que por força deste mesmo "anonimato" a humanidade patrocinou inúmeras atrocidades, por isso, é fundamental o papel dos formadores de opinião que são verdadeiros combustíveis que alimentam esta "força" que vai desde a compra de um simples produto até a escolha de um lider ou governo, determinando assim o tipo de vida de toda a sociedade.
BRUNO VARELLA MIRANDA

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 07/02/2012

Prezado José,

Agradecemos o comentário. Aproveitamos para convidá-lo a participar de nossas discussões aqui na coluna sempre que tiver vontade. Críticas, sugestões de pauta, testemunhos; o espaço é seu.

Atenciosamente

Bruno Miranda
JOSÉ GERALDO DE ANDRADE

LAVRAS - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 07/02/2012

Parabéns, voces estão provando que é possivel " criar" um mercado ético no campo das ideias!
BRUNO VARELLA MIRANDA

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 05/02/2012

Prezado José Antônio,

Muito obrigado pelo comentário. Acredito que você aborda uma série de questões interessantes, e que merecem análises no futuro. Em especial, chamo a atenção para o que você diz acerca da formação humana de nossas crianças e adolescentes. Concordo que, em grande medida, o modelo está ultrapassado; não tenho qualquer resposta, porém, para a forma como a mudança deveria ser processada.

Finalmente, concordo quando você chama a atenção para a importância de encontrarmos formas de coordenação capazes de responder com maior agilidade aos nossos desafios. São vários os desafios contemporâneos, por exemplo: i) como revitalizar as democracias ocidentais, que, não raramente, parecem perdidas enquanto o "mercado" dita a regra; ii) como encontrar um equilíbrio entre liberdade, por um lado, e responsabilidade perante a sociedade e as gerações futuras. Possíveis caminhos para esses desafios ainda estão sendo construídos; daí a importância do debate.

Atenciosamente

Bruno Miranda
JOSÉ ANTONIO PADIAL POSSO

MONTE CARMELO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 05/02/2012

Parabéns pela escolha do tema.

De fato, as soluções dos grandes problemas da humanidade - as quais inexoravelmente passam pelas ações conscientes das pessoas - estão, numa analogia, digamos a 40 km/h enquanto o agravamento e surgimento de novos problemas estão a 100 km/h.

Como vocês bem destacaram, toda essa liberdade e facilidade de expressão é preferível a uma situação oposta, e expurgando todo o lixo, tira-se muito conteúdo de proveito. O que acho que acontece: Primeiro, temos uma novidade atraente e muito acessível que faz com que as pessoas sintam-se a vontade para dizerem o que vier à cabeça de forma muito intuitiva, espontânea e sem compromisso. E outro ponto a ser observado é nossa formação, que geralmente é desprovida de incentivos para buscarmos uma consciência crítica e um entendimento mais profundo de questões que realmente interessa nas nossas vidas. Ou seja, nas escolas somos forçados a decorar inúmeras baboseiras, consumindo um tempo precioso que poderia ser muito melhor aproveitado, e isso depois acaba sendo replicado na sociedade.

Acredito, que a internet é ferramenta indispensável e através dela surgirão dispositivos decisivos para a evolução da sociedade a ponto de protagonizar eventos que conscientemente nos levarão a um mundo melhor, principalmente em relação ao mercado. Aliás é aí que devem se concentrar as principais mudanças. É onde surgem mais efeito. Como vocês, também me preocupo com a velocidade com que esses acontecimentos irão acontecer. Isso vai depender em muito da capacidade de aglutinação das pessoas "despertadas" e das ações práticas e poder de influência daí resultantes.

Abraços.
José Antonio (anap@netvip.com.br)
BRUNO VARELLA MIRANDA

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 03/02/2012

Prezado Reinaldo,

Agradecemos os comentários e, principalmente, a leitura atenta de nosso artigo. Sinta-se à vontade para nos mandar ideias de textos, críticas, enfim, use esse espaço da forma como achar conveniente. Principalmente quando se trata do funcionamento dos mercados, tema que nos encanta, sabemos que há espaço considerável para explorarmos em nossos textos. Assim, com certeza encontrará outros artigos sobre o tema nesse mesmo espaço no futuro.

Atenciosamente

Bruno Miranda
REINALDO FORESTI JUNIOR

CAMPANHA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 03/02/2012

Mestre Bruno Miranda,bela lição de humanismo para convivência social e respeito aos direitos naturais dos cidadãos.É realmente constrangedor quando deparamos com o baixo nível de alguns comentários que geralmente escondem-se no anonimato forma degradante e arma de covardes segundo opiniões acidáveis.Analisando as atitudes do ser humano encontramos também escritores,jornalistas,politicos ,historiadores que se manifestam sob pseudónimo e transmitem seus sentimentos positivos ou negativos de forma educada e construtiva no decorrer dos séculos.Toda unanimidade é perigosa podendo levar à arbitrariedade.No que se refere ao mercado assunto de interesse capital no site CaféPoint para nossa degustação e guia de ações derivadas concordo plenamente com os apontamentos e sinalizações oferecidas acreditando convicto e apaixonado que é a melhor forma democrática e transparente de convivência mercantil.Finalisando ,cumprimentos pelo artigo e contínuo trabalho intelectual.
BRUNO VARELLA MIRANDA

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 02/02/2012

Prezado Marcelo,

Agradecemos o comentário. Aproveitamos para convidá-lo a sempre visitar esse espaço e deixar o seu testemunho, críticas, etc.

Atenciosamente

Bruno Miranda


MARCELO EDUARDO BÓCOLI

MUZAMBINHO - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 02/02/2012

Parabéns pela excelente visão holística de um tema tão complexo.