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"Árvore em pé, produtor deitado"

BRUNO MIRANDA

EM 17/04/2012

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*Sylvia Saes
*Bruno Varella

A curiosa analogia que intitula o presente artigo foi feita por um cafeicultor familiar mineiro, em conversa ocorrida há apenas algumas semanas. Antes, a seguinte pergunta lhe havia sido feita: é possível obter renda da floresta sem que, para isso, as árvores sejam derrubadas? Embora reconhecesse a importância da mata nativa para garantir o suprimento de água e para o embelezamento da paisagem, o produtor concluiu que do “verde” é impossível obter dinheiro.

É essa frase que desejamos usar para inspirar o texto da quinzena. Nosso principal argumento é o de que temos falhado na criação de instrumentos efetivos para socializar os custos da preservação ambiental. Em outras palavras, fomos incapazes de, até o momento, aproximar o indivíduo que preserva o pedaço de mata nativa daqueles que se beneficiam dessa ação; ou seja, todos nós. Como resultado, a polarização em discussões como a do Código Florestal acaba sendo maior do que deveria.

Um interessante debate inicial diz respeito à conveniência de transformar o patrimônio ambiental em uma espécie de mercadoria. Mais especificamente, faz sentido colocar preço em uma nascente, apenas para citar um exemplo? A resposta, ao menos no curto prazo, parece ser “sim”. Em uma sociedade tão guiada por incentivos baseados na lógica econômica, seria difícil produzir uma transformação em larga escala sem a adoção de mencanismos inspirados em princípios semelhantes.

Iniciativas interessantes já existem no Brasil com o objetivo de proporcionar uma alternativa de renda àqueles que preservam um serviço ambiental. Exemplo é o programa “Produtor de Água”, que indica uma rota a ser aprofundada no futuro. Dado o tamanho de nosso desafio para as próximas décadas, porém, estamos atrasados. Nossa dificuldade em consolidar um mercado de carbono efetivo ilustra o quanto precisamos avançar. Informação aos indivíduos é igualmente fundamental; dito de outra forma, precisamos de conscientização acerca das potencialidades associadas à preservação ambiental e da responsabilidade por seus custos.

Desejar que o Brasil cuide de seu valioso patrimônio ambiental deve equivaler a lutar para que todo o conjunto da sociedade reconheça a sua importância e aceite investir em um ativo que fará toda a diferença no futuro. Isso significa, entre outras coisas, convencer o produtor rural que uma árvore em pé pode resultar em uma oportunidade de negócio interessante. Obviamente, palavras bonitas são insuficientes; se não criarmos mecanismos consistentes para a preservação dos chamados “serviços ambientais”, seremos obrigados a dar razão ao produtor que inspirou esse texto, ainda que com uma ressalva: “árvores deitadas”, sobretudo em exagero, podem ser ainda mais perigosas para os humanos no longo prazo.


*Sylvia Saes - Professora do Departamento de Administração da USP e coordenadora do Center for Organization Studies (CORS)

*Bruno Varella Miranda- Mestre em Administração pela USP

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JOSÉ ARMANDO NOGUEIRA

BONITO - BAHIA - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 09/04/2013

Para muitos produtores, acredito, por que me incluo entre aqueles que realmente preservam, uma das coisas que falta é justamente a compensação por esses serviços. ( Minha área explorada é inversamente proporcional ao que a lei me faculta como possibilidade supressão vegetal) E a tal compensação deveria ser feita de forma absolutamente prática. Geógrafos famosos já disseram que ninguém mora na União, ainda que ela represente a territorialidade nacional. E o que isso tem a ver com o assunto? Simples: é urgente que a identificação de áreas preservadas ou não seja feita através de meios disponibilizados aos municípios, com equipamentos (medição) e pessoal competente para a missão. Como a União vai analisar, fiscalizar, levantar - ainda que seja pelos meios adequados de georreferenciamento - todas as macro, medias e micro propriedades do Brasil? É preciso botar o pé no barro, na macega, no capim, no brejo, na capoeira, no capão, no cerrado, na mata, ciliar ou propriedade adentro, com GPS na mão, claro, georreferenciando tudo! E quem pode fazer isso além do dono da terra, e de quem esteja próximo dele, no município? Só que isto custa e muito para qualquer proprietário. O pagamento por serviços de preservação começaria por aí. Sem isso dificilmente teremos implantados mecanismos modernos discutidos com toda pompa em fóruns internacionais, cuja implantação prática está muito próxima de ZERO! E os tais créditos de carbono soam distantes como soa para nós, habitantes tropicais, uma intervenção qualquer nas estepes russas. Vejo nos jornais alguns cálculos sobre a tonelada de carbono. E essa aferição é baseada em quê? Quanto isso realmente vale para a Humanidade, em relação, por exemplo, ao teor de poluição causado por diversas fontes predadoras do meio ambiente no mundo!? O Código Florestal, obviamente, é nacional. Mas sua implantação e regulamentação tem que acontecer aonde as fazendas estão: nos municípios. E lá a sua implantação ainda vai dar o que falar.
BRUNO VARELLA MIRANDA

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 23/04/2012

Prezados participantes da discussão,

Gostaríamos de agradecer a participação de todos os que deixaram aqui o seu comentário. Ademais, lembramos sempre que o espaço é de vocês: continuem deixando os seus comentários, sugestões e críticas, que faremos o possível para manter o debate interessante para os leitores.

Sobre tudo o que foi dito, quero reforçar que a preservação não deve ser vista apenas como um fardo para os produtores rurais. Afinal, ela os beneficia também, por meio da proteção do suprimento de água, da fertilidade do solo, do microclima da região, etc. No entanto, os benefícios que ela traz ao conjunto dos cidadãos deveria ser refletido também nas responsabilidades de cada um.

Quando pensamos em um mercado de serviços ambientais, pensamos não apenas em algo como uma "indenização" para aqueles que tiverem que se adequar à legislação vigente. É possível ir além, e garantir um nível de preservação ainda maior, e que seja compatível com as outras demandas da sociedade.

Com isso, queremos lembrar que a legislação ambiental não deve ser vista como uma inimiga dos produtores rurais. Pelo contrário, estes devem ser os maiores interessados na manutenção do equilíbrio ambiental, dado que este é um requisito fundamental para a viabilidade da atividade. Se isso for possível com a ajuda de toda a sociedade, que se beneficia da preservação, melhor.

Atenciosamente

Bruno Miranda
ARTUR QUEIROZ DE SOUSA

CAMBUQUIRA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 23/04/2012

Parabéns pela colocação, e em momento oportuno. A preservação ambiental colocada como proteção de nascentes, margens de corregos ou rios, é feita pelo produtor conciente, bem como deixar um capão de mato em um local de risco de ser desmoronado, ou mesmo porque a terra ali é de árvores de madeira de lei. Agora daí Cimpor essa ou aquela área em percentual de seu negócio, começa a mudar de figura. Está sendo imposto, e como está sendo imposto, por isso mesmo deve ser indenizado, pois nessa área ele fica impedido de produzir, e por ela pagou, pagou impostos, e portanto deverá ser indenizado por ela não mais poder produzir. Isso porque acredito tira-lhe o direito de isonomia, inclusive com outros paises que com ele compete, sem ter essa exigência. Contudo já é hora do mundo assumir essas áreas de preservação ambiental, sobretudo aqueles países mais poluidores. Aqueles que não aderir teriam que pagar um pedágio alto para vender seus produtos naqueles que preservam, e ter que pagar mais cents por libra peso, para aqueles produtos oriundos de paises que preservam. Tem que doer no bolso, para se dar valor na produção.
MARIA SONIA SIGRIST PAZETTI

INCONFIDENTES - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 18/04/2012

Acho que a questão ambiental é tão importante e imediata que não pode de maneira nenhuma ficarem se justificando uns com os outros e não tomarem nenhuma providência prática. Isso é um assunto de interesse público e deveria ser liderado pelos orgão públicos e doa a quem doer.
VIAVERDE CONSULTORIA AGROPECUÁRIA

SÃO SEBASTIÃO DO PARAÍSO - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 18/04/2012

Sylvia Saes e Bruno Miranda, parabéns!

Vocês colocam em primeiro plano uma ponto crucial para o avanço das discussões sobre preservação que envolvem, entre tantas questões, o código florestal.

A questão do PAGAMENTO por serviços ambientais deve ser uma BANDEIRA LEVANTADA POR TODOS:

- AGROPECUARISTAS - que não podem nem conseguem arcar com este ônus sozinhos;
- AMBIENTALISTAS - que lutam a todo custo pela preservação e precisam apontar caminhos viáveis;
- POLÍTICOS - que têm dificuldade imensa para legislar sobre um matéria que, dependendo do enfoque, ou penaliza o produtor, ou penaliza o meio ambiente;
- CIDADÃO COMUM - que se sente tocado pelas questões ambientais, quer atuar em prol da conservação, mas não sabe como.

Sem dúvida esta é uma das saídas inteligentes e factíveis no contexto da preservação ambiental - um "cipoal" (com perdão do trocadilho) onde as discussões são quase sempre apaixonadas e as soluções oferecidas, muitas vezes, impraticáveis.
OSCAR KROLL FILHO

RIBEIRÃO PRETO - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 17/04/2012

Árvore em pé, grande patrimonio de uma propriedade rural.



ROBERTO WAGNER TRAVENÇOLO

CACOAL - RONDÔNIA

EM 17/04/2012

Parabéns pela matéria.

A frase "Árvore em pé, produtor deitado" pode ser bem colocada se pensarmos em quantos serviços uma Floresta despende para o bem da propriedade e para o bem do proprietário que "pode descansar" enquanto a floresta trabalha. Uma reserva de Mata Nativa presta serviços como: a proteção de nascente, melhoria na qualidade do ar e da água, abriga insetos para polinização, cria barreiras contra ventos, faz a regulação da temperatura, mantem umidade do ar, proporciona vida para animais nativos, gera nutrientes e matéria orgânica e melhora a paisagem.
RONEY

CARMO DE MINAS - MINAS GERAIS - COMÉRCIO DE CAFÉ (B2B)

EM 17/04/2012

Oi Bruno. Parabéns pelo artigo ! Tb acredito que a direção rumo a resolução( sem hipocirisia) desse assunto seja essa.
Tb somos produtores e gostaríamos de preservar mais e, em contra-partida, termos como fazê-lo com dignidade aqui em Carmo de \Minas.
Abraço,
Roney Villela,
MARIA SONIA SIGRIST PAZETTI

INCONFIDENTES - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 17/04/2012

Realmente gostei da conotação. Se fala tanto da preservação, mas efetivamente nada é feito de concreto. No meu município fui atrás desses incetivos. Pasmem: tem direito os que devem impostos. ELES SERÃO BENEFICIADOS COM DESCONTOS DAS DÍVIDAS. Vem ai a pergunta. Quem não deve não tem como se beneficiar. ????? Acho um absurdo.