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Sustentabilidade: recomendações a partir de uma breve análise de custo-benefício

POR CARLOS HENRIQUE JORGE BRANDO

ESPAÇO ABERTO

EM 20/03/2012

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Carlos H. J. Brando(*)

A crescente demanda da indústria por cafés sustentáveis não está fazendo com que a produção reaja com velocidade suficiente para atendê-la. Os prêmios de preço pagos por cafés sustentáveis estão corretos? Vamos ver se uma breve análise de custo benefício segundo a perspectiva do produtor pode explicar o que está acontecendo e apontar soluções.

O benefício mais evidente de produzir café sustentável é o prêmio de preço pago pelos torradores, seguido de acesso preferencial a mercados e clientes específicos. Entretanto, a vantagem mais importante (e duradoura) de se tornar um produtor de café sustentável pode estar em melhor gerenciamento, controle de custos e maior eficiência de produção, que são todas exigências básicas para se tornar sustentável e, portanto, são benefícios "ocultos" da sustentabilidade. O fato destes benefícios não serem facilmente percebidos nem serem necessariamente de curto prazo pode explicar porque o fornecimento de cafés sustentáveis não acompanha a demanda.

Embora os custos relativos à assistência técnica, assessoria e auditoria sejam geralmente mencionados no outro lado da equação, eles estão longe de ser os custos mais importantes de tornar-se sustentável. Estes são indubitavelmente os custos de adequação aos códigos de sustentabilidade, por exemplo, armazenamento adequado de café, fertilizantes e agrotóxicos, o tratamento e disposição de resíduos, ou a provisão de serviços sociais e de saúde aos trabalhadores. Mesmo com os preços do café em queda, mas ainda bons, os custos de adequação podem consumir os lucros dos produtores durante alguns anos. Na falta de financiamento adequado para ajudar os produtores a distribuir tais custos por vários anos, é improvável que a produção de café sustentável aumente para atender à demanda com os prêmios de preço existentes hoje. No curto prazo, os benefícios podem ser percebidos como não cobrindo os custos ou podem mesmo não cobrir os custos!

Mesmo que a solução de curto prazo possa ser prêmios de preço maiores, como já aconteceu em alguns casos recentes, a solução de longo prazo pode ser estrutural, com melhores serviços de extensão para promover a sustentabilidade (boas práticas agrícolas sustentáveis), treinamento de produtores para se tornar melhores gerentes (custos menores, produtividades altas, maior eficiência) e, muito importante, linhas de crédito a termos razoáveis (habilidade para cobrir os custos das mudanças). Por trás desta mudança estrutural está uma mudança organizacional e comportamental (talvez geracional): entender e incorporar a sustentabilidade, gerenciar a mudança de maneira eficiente e dividir os custos da mudança (governo, produtores e indústria). O cenário está montado para Parcerias Público-Privadas (PPPs) em que o governo provê treinamento e financiamento, a indústria fornece acesso a mercado e prêmios de preço e os produtores implementam as mudanças para se tornarem sustentáveis, com benefícios para todos os envolvidos.

Uma limitação do modelo acima é a dificuldade de estender treinamento e financiamento aos pequenos produtores, responsáveis pela maior parte da produção mundial de café. A solução é a formação de grupos de produtores facilitada pelo trade (exportadores, cooperativas e associações) com o apoio das plataformas de sustentabilidade. Ausente deste artigo sobre sustentabilidade, as plataformas de sustentabilidade, que estão no cerne do processo e foram sua "parteira", deveriam estar seriamente pensando em se redesenhar para evoluir de selos de sustentabilidade para serviços de sustentabilidade. As plataformas que melhor apoiarão as mudanças serão aquelas cujos códigos de conduta e propostas de serviços colaborarem para melhorar o gerenciamento e facilitar a implementação das mudanças para tornar o produtor sustentável.

O alinhamento dos padrões e a criação de condições para melhoria contínua, de códigos de conduta básicos para outros mais exigentes, é hoje um grande desafio para as plataformas de sustentabilidade. Talvez também haja espaço para sistemas de sustentabilidade nacionais básicos, que podem se tornar o primeiro passo da escada da sustentabilidade. Finalmente, mas não menos importante, outro desafio a ser enfrentado é que o alinhamento dos códigos de sustentabilidade com a legislação trabalhista e ambiental de cada país pode fazer com que cafés sustentáveis do país X sejam "mais sustentáveis" que os do país Y porque a legislação do primeiro é mais rigorosa que do segundo. Mas este assunto merece outro artigo...

(*):Engenheiro civil pela Escola Politécnica da USP e com estudos de pós-graduação à nível de doutorado em economia e negócios no Massachusetts Institute of Technology (MIT), EUA, é sócio da P&A Marketing Internacional, empresa de consultoria e marketing na área de agronegócio com ênfase em café.

CARLOS HENRIQUE JORGE BRANDO

Engenheiro civil pela Escola Politécnica da USP; pós-graduação à nível de doutorado em economia e negócios no Massachusetts Institute of Technology (MIT), EUA; sócio da P&A Marketing Internacional, empresa de consultoria e marketing na área de café

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REINALDO FORESTI JUNIOR

CAMPANHA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 26/03/2012

Prezado Dr.Carlos Henrique Jorge Brando.

É com prazer e honra que leio o artigo de V.Sa. em pauta abrangendo tema da sustentabilidade no setor produtivo do café, e sob o prisma visual desta importante empresa de consultoria e marketing internacional. Os grandes, médios e pequenos produtores de café em especial pelas dificuldades de estender treinamento e financiamento aos mesmos, e a solução na formação de grupos facilitada pela Trading (exportadores, cooperativas e associações) e com apoio das plataformas de sustentabilidade. É importante a observação do eminente articulista que os pequenos produtores são responsáveis pela maior parte da produção mundial. A necessidade do cenário de PPS com ajuda do governo e os respectivos benefícios advindos também merecem destaques. Parabéns pelo pragmatismo das soluções e o grande alcance economico e social das mesmas ao implementá-las no setor cafeeiro.
MARCOS BIANCONCINI TEIXEIRA MENDES

SERRA NEGRA - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 20/03/2012

Parabéns Carlos!

Concordo com suas observações plenamente. Sou auditor de qualidade em café e repito insistentemente aos produtores auditados que o maior benefício de uma certificação não é o prêmio, mas sim o controle e a organização que ele passa a ter da propriedade, inclusive com a possibilidade de redução dos custos diretos de produção. Quanto ao custo de adequação, considero que eles são variáveis, em função da condição da propriedade e da quantidade de adequações necessárias e é claro, de qual protocolo de sustentabilidade o produtor decide adotar (UTZ, Rainforest, Certifica Minas, Fair Trade, 4C, etc.) já que as exigências são diferentes entre os diferentes protocolos.
ARTUR QUEIROZ DE SOUSA

CAMBUQUIRA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 20/03/2012

Bom artigo Carlos Brando, e aborda de uma forma bastante interessante.

Tenho ouvido muito de alguns consultores, sobretudo daqueles envolvidos diretamente com a Certificadoras de ONGs internacionais, de que não existe promessa de um premio de preços sobre os cafés sustentaveis através de certificadoras. E é verdade, mas daí querer justificar-se através de melhoria de gestão, que estaria reduzindo custos, auto lá. É como se o consultor estivesse apertado ao fazer um projeto de criação de gado de leite, e vendo que os custos não fecham, vem com o poderoso truck de vender o esterco do gado, tornando o projeto viavel. É aí que desanda a coisa, ou seja planejamento mal feito com resultados desastrosos. Tenho visto muitas certificações eufóricas com sustentabilidade ambiental, social, mas não economica. Dura pouco, ou a fazenda é vendida, ou muda de dono, ou larga mão da certificação. Muitas propriedades que tem outras atividades vão em frente, mas quando se vê os pequenos, exceto aquels Fairtrade, param no meio do caminho. O maior sucesso que se tem visto no Brasil, é o do Certificaminas, onde os custos são bem menores, e tem o estado conseguido negociar um ágio através da ABIC, para os seus certificados. Oxalá, o mercado enxergue, que se tem custos mais elevados, e se pode ir muito mais longe vendendo cafés sustentaveis, como o prezado consultor muito conhece no mundo e vê o aumento crescente deste mercado, sobretudo nos emergentes.