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O caso do café conilon do Brasil

POR LUCIO CALDEIRA

ESPAÇO ABERTO

EM 03/05/2013

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Tudo indica que o café conilon produzido no Brasil foi originário de cafés robustas oriundos do Congo Belga e da Costa do Marfim. Em 2012, comemorou-se no Espírito Santo, os cem anos do café conilon no Brasil. A evolução foi incrível. Atualmente, o Brasil já é o segundo maior produtor de café robusta do mundo, com uma produção de cerca de 12 milhões de sacas/ano. O maior produtor mundial é o Vietnã. Seis estados brasileiros já produzem o conilon, mas os destaques ficam por conta do Espírito Santo, com produção de cerca de 9 milhões de sacas e Rondônia, com cerca de 1,5 milhões de sacas.

O café conilon é um café robusta e possui características distintas dos cafés arábicas. São adaptados a temperaturas mais altas (entre 22 e 26 graus celsius) e podem ser cultivados em altitudes menores (abaixo de 500 metros de altitude). São mais produtivos (quase o dobro em relação aos arábicas) e mais resistentes a pragas e doenças. Exigem bem menos cuidados e por tudo isso possuem custos menores. Possuem o dobro de cafeína e por possuírem mais sólidos solúveis são mais utilizados na fabricação de cafés solúveis. A qualidade da bebida é inferior aos arábicas.

De certo modo, os cafés da espécie conilon (robustas) são concorrentes dos cafés arábicas. Conforme descrito no artigo A vantagem competitiva dos robustas, esse tipo de café tem ganho participação relativa no mercado de café. Isso ocorre em função da evolução do mercado de cafés solúveis, que utilizam mais cafés robustas e também em função de um ganho de participação de robustas/conilon nos blends dos torrefadores internacionais e nacionais. Para entendermos melhor esse aspecto vamos a alguns fatos.

Primeiro. De acordo com a Conab, os custos de produção de cafés arábicas são bem superiores aos custos de produção de conilon. Na safra 2011/`12, o custo da saca de um café arábica em Guaxupé ficou em 320 reais a saca de 60 quilos. (com produtividade de 30 sacas por hectare). No caso do conilon, a saca de 60 quilos na mesma safra ficou em 196 reais, com produtividade de 55 sacas por hectare (Pinheiros – ES). Nesse aspecto, percebemos que as diferentes espécies possuem características bem distintas, tanto em termos produtivos quanto em termos de custos.

Segundo. Os cafés da espécie conilon são de certo modo “protegidos” no mercado interno. Com a proibição de importação de café (não estou defendendo a importação), os cafés conilon são mais caros que os “primos” robustas africanos e asiáticos. Essa constatação pode ser verificada no anuário do Cecafé, que utiliza dados da Esalq, IEA-SP, BMF e ICE. Os cafés conilon são mais caros que a segunda posição da bolsa de Londres, que negocia os cafés robustas.

Terceiro. Mesmo sendo mais caros em relação a outros robustas, as exportações de conilon não param de evoluir. No ano de 2000, as exportações de conilon foram de 678 mil sacas. Em 2011 exportaram 2.670 sacas (dois milhões e seiscentas e setenta mil sacas). Uma evolução de 393%. As exportações de arábicas do Brasil no mesmo período saltaram de 15.333 para 27.470 (evolução de 78%).

Quarto. O maior uso de conilon/robusta nos blends dos torrefadores reduz a demanda relativa de arábicas e o resultado é uma redução da distância de preço entre os dois tipos de café (isso no Brasil). No mercado internacional, verificou-se que os robustas conseguiram ganhar participação de mercado com preços relativamente mais baixos.

No Brasil, de acordo com os dados de preço entre um arábica tipo 6 bebida dura e um conilon tipo 6 peneira acima de 13, ocorre o inverso e a diferença de preço caiu. Entre os anos de 2009 e 2012 a diferença entre esses tipos de café era de 148 reais (média dos quatro anos); e nos primeiros meses de 2013 caiu para 59 reais. A moral da história é que quando o preço do café sobe, a tendência é uma alta maior para os robustas/conilon; e quando o preço do café cai, é natural que os preços de robustas/conilon caiam menos (isso porque o torrefador nacional precisa de conilon para baixar o custo de seu torrado e moído).

O consumo interno no Brasil é de cerca de 20 milhões de sacas ano e o conilon contribui com cerca de 10 milhões desse total. O blend médio nacional é 50 x 50. É possível que seja o país onde o percentual de robustas/conilon encontra-se mais elevado. A verdade é que o conilon/robuta veio para ficar. Competem com preços menores por possuírem custos bem mais baixos.

Em função de praticarem preços mais altos que os “primos” robustas da África e Ásia, o conilon do Brasil encontra-se em uma posição de destaque no mundo e provavelmente é a cafeicultura mais rentável do mundo. (vendem mais caros que os robustas africanos e asiáticos e provavelmente possuem custos menores que os mesmos, isso em função da eficiência do produtor brasileiro de conilon).

Por tudo isso, as regiões produtora de cafés arábicas do Brasil e do mundo precisam acordar. Conilon e robusta são concorrentes. De nada adianta produzir cafés arábicas de qualidade (mais aromáticos e saborosos) se isso não for percebido pelos consumidores. O mundo consome blend e enquanto não for feita uma propaganda / comunicação sistemática sobre o 100 % arábica em oposição ao blend, essa história vai continuar.

O maior erro do marketing é acreditar que basta ter o produto melhor. O arábica é superior ao robusta/conilon, mas é esse tipo de café que provocou a maior mudança no cenário mundial do café.


Lucio Caldeira é Mestre em Estratégia, professor de Marketing e Planejamento Estratégico do Unis-MG e escritor, tendo publicado o livro A Guerra do Café: a competitividade revelada do café arábica do Brasil.

Atua como comentarista no quadro A Palavra do especialista no programa de TV da Alterosa/SBT – Café com TV. Atualmente cursa o Doutorado em Administração da Ufla e participa do Gecom – Grupo de Estudos em Comportamento do consumidor e marketing.Também atua como consultor em Marketing pela Foco Soluções Empresariais.

Contato para palestras e para a compra do livro: (35) 9821-7777; focolc@ig.com.br





 

LUCIO CALDEIRA

Mestre em Estratégia, prof. de Mkt e Planejamento Estratégico do Unis-MG e escritor. Comentarista na TV da Alterosa/SBT - Café com TV. Doutorando em Administração na Ufla, participante do Gecom e consultor de Mkt pela Foco Soluções Empresariais.

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MARCOS PATRICK STUR

PANCAS - ESPÍRITO SANTO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 22/07/2013

Lucio Caldeira, vc mostrou na redação de seu texto um posicionamento pessoal e nada profissional, se a Nestle for houvir vc como consultor ela vai a falencia, café 100% arabica exite nas plateleiras do supermercado, o consumidor não compra porque 100% de arabica não agrada o consumidor, não é o que o mercado quer, e sendo assim, não é bom. Talvez para vc seja, mas para a grande maioria dos consumidores de café não é, o consumidor busca um sabor especifico, cada vez mais exigente, o blend busca atender isso. Lembro que o Blend de cada país é diferente, os americanos gostam de café mais ralo, com menos conilon, já europeus e russos um café mais forte, com praticamente 50 % conilon e 50% arabica, os Brasileiros hoje tomam café com misturas que variam entre 40% e 60% de conilon, estas são as misturas de maior aceitação no Brasil. Café bom ou ruim quem diz é o mercado e hoje ele diz que o melhor café é feito com a mistura de arabica e conilon, existe cliente para qualquer tipo de café, vendem-se escolha de café para torrefadoras. Seja mais profissional em suas manifestações técnicas, existem profissionais do setor analisando seu trabalho e da forma como fez vc se denigre como tal.
ROBINSON GREGO

VITÓRIA - ESPÍRITO SANTO - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 21/07/2013

Quem compra o café do produtor não é o consumidor. Os marketings dos torrefafores são constantes e  eficientes para dirigir o consumidor para os produtos que desenvolvem. A eles interessam os lucros .Alguem esta vendo grande investimentos destas torrefadores  em paises   que se destacam por produzir arábica. E onde se produz conilon , e principalmente conilon  de custo barato ( Brasil tem mão de obra cara e escassa no campo )  o soluvel tem investido cifras bilionarias  que claramente mostra para que lado vai  o consumo
SANTO ADALBERTO GALEANE

EM 17/07/2013

Bom dia Robson, eu sou micro  torrefador de café, torro em média 10 sacas por mês Arabica. Pelos comentários que eu vejo, a adição de uma pequena porcentagem do conilon melhoraria o creme, mas fica inviável busca-lo a essa distância .



Obrigado pela atenção.



Adalberto.
JOSE ROBSON VESCOVI RAMOS

FUNDÃO - ESPÍRITO SANTO - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 17/07/2013

Olá Adalberto, quase não há produção do robusta conilon ao redor de são paulo, o lugar mais proximo e Est. Esp. Santo mesmo, a não ser que encontre uma pequena quantidade no Est. Rio de Janeiro, mas ai voce pode optar pelo sul do Est. Esp. Santo que tem produção do conilon. comprando aqui  ES, voce consegue preço melhor.
SANTO ADALBERTO GALEANE

EM 16/07/2013

Ola Amigos, eu sou de Araraquara - SP, alguém poderia me informar onde comprar conilon mais próximo da minha cidade.

Obrigado.

Adalberto
FELIPE DE MEDEIROS RIMKUS

GARÇA - SÃO PAULO - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 22/05/2013

Bom dia a todos, deixo claro que sou produtor de arabica e consultor ´nessa produção há certo tempo. Quero expressar que produtores não podem transportar para o setor produtivo "guerras" mercadológicas. Café é café e ponto final. Discordâncias e dissonâncias sobre qual é melhor não agregarão valor a nada. Temos que entender o porque do aumento ou diminuição dos segmentos de consumo, não tentar "forçar" as tendências no mercado.



O aumento do consumo do conilon, se deve a estratégias industriais e receptividade do mercado; creio que devemos interpretar que onde se consome conilon se consome café também, cabendo aos produtores e comerciantes de arábica saberem aproveitar melhor o mercado. É sabido, que até pouco tempo certas regiões do globo consumiam o que havia de pior do arabica (incluso grande parte do publico Brasileiro), acontece que foi percebido que é bem melhor um conilon no blend do que pauleras, palhas e muitos residuos não identificados.....conclusão o mercado deu um salto evolutivo. Para não me estender demais, identifico que temos que analisar com estratégia; o produtor de conilon não é culpado por vender melhor seu produto; culpados são os componentes da cadeia que ao longo de anos foram "espertos" vendendo palhada.



Agora não é aceitavel querer o retorno ao mercado em detrimento a outros produtores. Temos que agir com estratégia, estudarmos o mercado e interpretarmos como concorrentes os paises que trabalham com mão de obra alusivas a escravatura, não tem leis ambientais ou seja trabalham sem as exigências que possuimos e ainda temos que comprovar constantemente. Mais uma vez deixo claro que temos sim excesso de produção, temos sim excesso de estoque.....e ainda sim grande parte de nossos representantes sonham em buscar medidas protecionistas, que em primeiro lugar não irão acontecer e quando acontecem parcialmente nos remetem novamente à armazenagem. Enquanto guardamos outros ocupam nosso lugar, enquanto guardamos, quebramos; e depois a culpa é do conilon?



Vamos pensar que precisamos de politicas de planejamento e informações minimas (ao menos); não somente politicas de preços minimos e politicas de armazenagem. Precisamos de informações precisas para que nossa politica seja a de preços máximos.

Desejo a todos boa semana.......e espero ramos abraçados de arabicas e conilons para que possamos enfrentar juntos os desafios que o mundo nos entrega.
CARLOS ALBERTO DE CARVALHO COSTA

MUQUI - ESPÍRITO SANTO - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 22/05/2013

Ótimo artigo Sr. Lucio Garcia e ótimo comentário Sr. Bento Venturim, apenas discordo do Sr. Lucio quando ele trata do custo de produção do conilon. Hoje para se produzir um bom café conilon, os custos também são altíssimos, são inseticidas para tudo(cochonilhas, brocas, largatas e outras pragas), fungicidas caríssimos, adubo via solo e folear de acordo com as análises de folha e de solo e o pior de tudo a cultura do conilon é toda manual, desde o plantio até a colheita, para piorar a situação,para se  produzir uma boa quantidade de café conilon, o pós colheita desse café é caríssimo, pois além dos tratos normais temos que fazer de tres a quatro desbrotas manuais depois de uma poda muito bem feita. Calculamos aqui no sul um custo de produção de aproximadamente de R$ 220,00 a saca de 60 Kg,  isso sem contar as propriedade que despolpam o produto..
JUAREZ MUNIZ JÚNIOR

ITABUNA - BAHIA - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 09/05/2013

Sr. Carlos Renato A. Theodoro,  Excelente Comentário !!!



Estimular este atrito nada resolverá aos produtores de Arábica, apenas pessoas insanas ou despreparadas poderiam chegar à conclusão que a resolução dos problemas de rentabilidade do Arábica viriam de uma guerra de mercado com o Conilon.
JOSE ROBSON VESCOVI RAMOS

FUNDÃO - ESPÍRITO SANTO - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 09/05/2013

Se nosso governo tivesse maior interesse na produção de cafe robusta, poderia incentivar o produtor a melhorar a qualidade do cafe com financiamentos de maquina para despolpamento e agregar maior valor ao produto, alem de melhorar o faturamento do agricultor, quem sabe um dia haverá um despertamento.
EDER JUFO

GUAÇUÍ - ESPÍRITO SANTO - INDÚSTRIA DE INSUMOS PARA A PRODUÇÃO

EM 09/05/2013

Parabéns Sr. Bento Venturim pelo comentário.
CARLOS RENATO ALVARENGA THEODORO

MUQUI - ESPÍRITO SANTO - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 06/05/2013

Sou Presidente de uma pequena Cooperativa de Produtores de Café Conilon no sul do Espírito Santo. Não gostaria de entrar no mérito de discutir se o arábica é melhor que o conilon ou não.

Mas, me incomoda muito quando ficam estimulando esta guerra de mercado entre conilon e arábica. Gostaria de ver o pessoal do arábica cobrando dos governos investimentos em pesquisa, como fez o nosso Incaper no Espírito Santo para o conilon, para encontrar variedades mais produtivas, mais resistentes a pragas, para reduzir o custo de produção e aumentar a produtividade das lavouras.

Quanto ao conilon no mercado, é uma realidade que os produtores de arábica terão de conviver. Lembrando que o solúvel tem sido usado para abrir mercados potencialmente grandes, principalmente na Ásia, que depois se tornam mercados para o arábica.
BENTO VENTURIM

SÃO GABRIEL DA PALHA - ESPÍRITO SANTO - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 06/05/2013

Sou também direigente de Cooperativa de Crédito. Enquanto não tínhamos como captar Caderneta de Poupança, achava um absurdo outras instituições não oferecer um produto querendesse melhor para o aplicador. Conquistamos o direito de captar Poupança.  Certo dia um associado à Cooperativa foi fazer uma aplicação em Caderneta de poupança. Eu tentei demovê-lo da idéia. Sua resposta para mim foi a seguinte: Vai fazer a aplicação  em Caderneta de Poupança ou eu vou para o Banco  X.?

A conclusão que precisamos chegar é a seguinte:  não adianta querer  desmoralizar o conilon.  O CONSUMIDOR, pelo bolso  ou pelo paladar  toma sua decisão.   CONTINUO PENSANDO QUE  A OPORTUNIDADE QUE TEMOS É UMA RIQUEZA.  VAMOS CONTINUAR AGRADANDO NOSSO CONSUMIDOR COM NOSSAS MISTURAS.  

Pode ser que  mais alí adiante, os produtores de conilon  consigam colocar no mercado  seu produto puro,  mais barato que a mistura, e o arabica vai ficar pior que está.
HUGO VELEZ MONTES

CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 05/05/2013

Excelente  alternativa para los cultivdores de nuestra region y mas que  empresas productoras de cafe soluble entiendase tambien lioilizado pusieron sus plantas de produccion.
JOSÉ ELEUTÉRIO ALVES NETO

SINOP - MATO GROSSO - INDÚSTRIA DE CAFÉ

EM 03/05/2013



"A skilled and subtle coffee roaster, can transform mediocre beans into a smooth blend and very good beans into something unforgattable." - Corby Kummer, The Joy of Coffee, 1995



"Um torrador de café hábil e sutil, pode transformar grãos medíocres em um blend suave, e grãos muito bons em algo inesquecível." - Corby Kummer, A alegria do Café, 1995
JOÃO PAULO RODRIGUES ARCIPRETE

RIBEIRÃO PRETO - SÃO PAULO

EM 03/05/2013

Concordo com você inteiramente Lucio, defendo um trabalho de valorização de marca para a cafeicultura arábica, enquanto os consumidores conhecerem tudo apenas como café, o  arábica continuar sendo apenas uma commodities, não explorar a agregação de valor e assumir uma identidade única irá continuar sofrendo esta pressão.



Parabéns pelo texto



abs

João Paulo