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Tragédia grega

POR SYLVIA SAES

E BRUNO VARELLA MIRANDA

BRUNO VARELLA MIRANDA

EM 21/06/2012

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No momento em que ler este texto, você, leitor(a), provavelmente já terá recebido uma série de notícias sobre o desfecho das eleições na Grécia. O motivo: o seu resultado poderia ter definido o futuro do país na Zona do Euro. Muito do que foi escrito nas últimas semanas aponta, uma eventual vitória do partido de "extrema esquerda", o Syriza, o que representaria um desastre para o país e, quem sabe, para a Europa. Assim, é como se o futuro do capitalismo ocidental no curto prazo dependesse da decisão de um Estado com cerca de 11 milhões de habitantes.

Nos próximos parágrafos, não falaremos dos erros da Grécia, tampouco daquilo que a Europa poderia fazer e não faz. Consideramos que já há muito material escrito sobre o tema. O que queremos é chamar a atenção para dois pontos que, provavelmente, estarão presentes em outros pleitos ao redor da Europa nos próximos meses. Ambos também foram tratados pela imprensa vez ou outra - ora, talvez não haja nada que não tenha sido objeto de análise no mundo atual, em que a abundância de informação é a regra. A nossa impressão, porém, é a de que deu-se menos importância a tais fatores que aos efeitos de uma eventual vitória do Syriza para a Europa.

A Grécia é uma democracia, como o Brasil e dezenas de outros países ocidentais. Na prática, os seus habitantes têm o direito de escolher os rumos para o país segundo regras estabelecidas. Em outras palavras, podem decidir qual visão de mundo querem que governe a sua sociedade. Não é o que ocorre na prática; a impressão é a de que os gregos podem escolher a visão que mais os agrade, desde que ela respeite as exigências de um plano draconiano de austeridade. Ou seja, estamos diante de um caso em que a liberdade de escolha do indivíduo no plano político se encontra diretamente subordinada aos imperativos de uma teoria econômica determinada previamente e, como qualquer teoría aberta, há inúmeras controvérsias.

Tamanha pressão não poderia acabar bem. E, de fato, o resultado da última votação já deveria ser suficiente para levantar enorme preocupação na Europa. Muito se fala sobre o desastre que a ascensão do Syriza traria para a Grécia e para o Euro mas pouco se fala que, entre as opções existentes, a extrema esquerda está longe de ser a pior. Evidentemente, muitos dirão que a melhor solução passa pela aceitação de um plano de austeridade e o ajuste de longo prazo mas, convenhamos, os humanos estão longe de ser os agentes racionais que habitam os livros de economia. Em outras palavras, parecem pouco dispostos a aceitar pasivamente um plano de ajuste que leve à economía grega a um suposto equilibrio no longo prazo. Por isso mesmo, os sentimentos que os movem fazem com que, vez ououtra, optem por uma visão de mundo "extrema".

No caso em tela, essa opção atende pelo nome de "Amanhecer Dourado". O partido de extrema direita grega, com a sua retórica contrária aos imigrantes, cresceu enormemente nas últimas eleições aproveitando-se justamente da frustração dos cidadãos gregos. Em muitos casos, o voto veio graças a motivos muito mais pragmáticos, como a distribuição de alimento sem comunidades empobrecidas. Ainda que não tenha chance de vencer as eleições, a sua entrada no Parlamento já deveria acender o sinal de alerta no continente: há poucas décadas atrás, uma "punição" económica acabou por levar a Alemanha ao nazismo e, em seguida, toda a Europa para a guerra.

Claramente, a Grécia não tem o poder de arrastar sozinha o continente europeu para um conflito, de modo que uma eventual vitória da extrema direita no futuro não significaría necessariamente a eclosão da III Guerra Mundial. Os líderes da Europa, porém, que fiquem atentos: brincar com a frustração dos seus cidadãos não costuma acabar bem. Se uma eventual vitória do Syriza for realmente encarada como um desastre, o sinal é o de que apenas a austeridade exagerada será aceita por aqueles que deveriam "ajudar" a Grécia. E, isso, no médio prazo, poderá ser a oportunidade que a extrema direita espera para voltar ao poder.

Em tempo: a vitória de um partido favorável ao plano de resgate da Grécia deve fornecer, no máximo, alivio momentáneo. No médio prazo, porém, a saída do país da Zona do Euro parece ser o desfecho menos doloroso, principalmente quando se tem em conta o alto desemprego e o encolhimento preocupante da sua economia.

SYLVIA SAES

Professora do Departamento de Administração da USP e coordenadora do Center for Organization Studies (CORS)

BRUNO VARELLA MIRANDA

Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri

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