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Tecnologia para quem precisa

POR SYLVIA SAES

E BRUNO VARELLA MIRANDA

BRUNO VARELLA MIRANDA

EM 30/08/2012

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Em nosso último artigo, apresentamos algumas das conclusões de um relatório organizado pela FAO e pela OCDE. Entre outros dados, o texto apresenta uma projeção de quanto a produção agrícola deve crescer nas próximas décadas para saciar uma demanda crescente. A resposta para o desafio, ali mesmo é encontrada: aumentar a produtividade nos países em desenvolvimento, ao mesmo tempo em que é garantido o respeito a técnicas mais verdes no campo. Pois bem, nos próximos parágrafos queremos tratar da primeira parte da solução, qual seja: o aumento da produtividade nos países em desenvolvimento. Mais especificamente, queremos promover a reflexão sobre possíveis obstáculos a tal desfecho.

A razão que nos leva a optar por um viés pessimista é simples, entretanto, quando se fala de tecnologia, o otimismo costuma predominar. É recorrente a ideia de que a maioria dos problemas enfrentados pela humanidade - sejam eles médicos, ambientais ou mesmo materiais - serão, em algum momento, combatidos pela descoberta de algum cientista. Talvez este seja mesmo o caso para diversos fantasmas, como doenças graves ou as mudanças climáticas; sobre tal visão de mundo preferimos não opinar. O caminho até o desenvolvimento de uma nova tecnologia, ou a cura de uma patologia, porém, é longo e repleto de percalços.

No caso do aumento da produtividade, há diversos desafios que não podem ser esquecidos. Primeiramente, faltam recursos para o desenvolvimento de soluções aplicadas à realidade de muitos países. Desenvolver o potencial da África, por exemplo, exige investimentos que, na atualidade, estão longe do alcance daquelas sociedades. Ainda que a preocupação com a oferta de alimentos esteja na agenda de qualquer governo - ao menos na teoria -, políticas articuladas de médio prazo só prosperam quando um Estado possui um nível mínimo de organização. Infelizmente, dezenas de países no mundo carecem de tal estrutura e, por isso, pouco podem fazer para fomentar a produção agrícola.

Em segundo lugar, inexiste garantia de que a transferência da tecnologia disponível seja capaz de dar frutos no curto prazo. Os motivos são variados. Capital humano é fundamental para a operacionalização de uma tecnologia e este é um material escasso em diversas porções do globo. Pior, quando investimentos são feitos para que os seus habitantes adquiram mais conhecimento, não raramente o que se vê é a fuga destes cérebros em direção a mercados de trabalho mais bem organizados. Ademais, não raramente uma tecnologia resulta da observação de condições muito específicas, estando presa ao espaço em que foi desenvolvida. Logo, é comum que um período de pesquisas e de adaptação seja necessário para que um pacote tecnológico seja útil em outro contexto.

Finalmente, quando as instituições não ajudam, é difícil imaginar que investimentos sejam realizados para promover o aumento da produtividade em uma determinada área. Ainda que uma empresa baseada em um país desenvolvido esteja disposta a investir em pesquisa a fim de explorar economicamente a produção de determinada cultura na savana africana, só o fará se tiver garantias mínimas de que receberá uma remuneração adequada. Entre guerras e expropriações, inúmeros Estados oferecem incerteza demais para qualquer agente econômico. O resultado é conhecido de todos.

Por isso, a rota em direção ao aumento de produtividade nos países em desenvolvimento deverá vir acompanhado de inúmeras "chuvas e trovoadas". É até possível que, devido às inúmeras dificuldades, tenhamos que escolher o "possível", e não o "ótimo", para garantir algum resultado. Para que possamos chegar à metade do século XXI com uma oferta de alimentos condizente com as necessidades da época, é preciso entendermos o que nos impede de termos tal realidade nos dias atuais. E aí vemos que, além de cientistas, precisamos de regras adequadas que os permitam trabalhar e forneçam condições de que suas descobertas sejam utilizadas.




SYLVIA SAES

Professora do Departamento de Administração da USP e coordenadora do Center for Organization Studies (CORS)

BRUNO VARELLA MIRANDA

Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri

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