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Qual é o futuro para o Zé Agricultor?

POR SYLVIA SAES

E BRUNO VARELLA MIRANDA

BRUNO VARELLA MIRANDA

EM 13/08/2010

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Texto popular na Internet, a carta do Zé Agricultor para o Luis da Cidade expressa o sentimento de muitos brasileiros. Escrita com humor, explora os contrastes entre as zonas urbanas e rurais, tendo em vista o progressivo endurecimento das regras trabalhistas e ambientais. A conclusão que apresenta é a de que as restrições crescentes impostas aos agricultores não encontram um paralelo nos grandes centros; em consequência, essa penalização levaria, no médio prazo, ao abandono da atividade agrícola por um número crescente de indivíduos.

O aspecto mais interessante do texto é o uso que faz da insatisfação dos produtores rurais com as exigências crescentes. Ao longo dos parágrafos, uma série de exemplos é usada para demonstrar a estreita ligação entre os componentes da sociedade. Nesse ponto, acerta em cheio. Enviada a carta, porém, é necessário refletirmos qual o melhor desfecho para o dilema vivido pelo Zé Agricultor. É aí que está o desafio: como fazer com que o Zé desista de vender o sítio?

Uma resposta para esse desafio não é simples. Acreditamos, porém, que o que é hoje considerado uma restrição se tornará um importante trunfo no futuro. Nos referimos aos serviços ambientais que as propriedades rurais podem fornecer à sociedade e a possibilidade de que estes sejam remunerados. Seu aproveitamento econômico será viabilizado a medida que a sociedade se conscientizar de que está interligada e que o bem-estar derivado das características únicas da Terra é um recurso escasso.

Poucos se dão conta dessa realidade, mas todos ganhariam com a organização de um mercado de serviços ambientais. Do ponto de vista da sociedade, os benefícios são óbvios. Entre os produtores rurais, há muitos que enfrentam desafios ainda mais complicados, como a pressão pela produtividade, a dificuldade de garantir a inserção no mercado e as flutuações constantes nos preços. Nesse sentido, regras mais estritas, embora sirvam para desmotivar, não escondem problemas que nada têm a ver com sua existência.

A existência de benefícios não significa que consolidação desses novos mercados seja fácil. Há desafios de ordem técnica, política e, por que não, moral, envolvidos. Alguns passos, no entanto, são bem-vindos. A discussão, em primeiro lugar, não deveria ficar restrita a um embate entre o campo e cidade. Retomando argumento desenvolvido em nosso último texto, deveriam ser as práticas, e não as classes, o elemento diferenciador. Em outras palavras, o deputado federal Aldo Rebelo (PCdoB/SP) comete um grave equívoco ao vincular as posições das ONGs ambientalistas a interesses escusos de agentes imperialistas.

Da mesma forma, os militantes envolvidos na questão ambiental possuem, não raramente, uma visão completamente desconectada dos reais desafios impostos pelo tema. Daí a importância de mais informação; na atualidade, muito do que é dito acerca do tema se baseia em "achismos" e velhos preconceitos. Com o interesse crescente pelo tema ambiental, é provável que a academia preencha parte desse vazio. O desenvolvimento de metodologias robustas possibilitará a valoração dos serviços ambientais, ficando mais fácil para os agentes delimitar o que está em jogo.

Finalmente, outra questão envolvida nesse debate diz respeito à forma como decidimos organizar a sociedade. Nos referimos não apenas ao conjunto de regras, como também às prioridades que escolhemos. Se nos falta conceder um tratamento adequado ao meio ambiente na atualidade, isso se deve em grande medida a como mensuramos o desempenho e estabelecemos metas sociais. Trata-se de um tema de difícil reflexão; conclusões nesse campo, porém, certamente facilitarão a implementação de políticas voltadas à preservação dos serviços ambientais.

Como se vê, o aproveitamento dessas oportunidades depende do trabalho de toda a sociedade. Embora no curto prazo a opção pelo confronto beneficie muitos, é evidente que os dilemas mais complexos exigem respostas coordenadas. O que se espera é que, no futuro, o Zé só decida vender o sítio caso queira muito viver em outro lugar. E que o Luís, em meio ao cotidiano da cidade grande, não seja obrigado a conviver com tanta poluição e desrespeito aos direitos básicos dos seres humanos.

SYLVIA SAES

Professora do Departamento de Administração da USP e coordenadora do Center for Organization Studies (CORS)

BRUNO VARELLA MIRANDA

Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri

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LUCIANO PIZZATTO

CURITIBA - PARANÁ

EM 06/11/2016

Sou ator da Carta do Zé ... e só li agora, desculpem, a reflexão, já escrita em 2010 mas que está atual como o proprio texto da Carta.

Convivo este drama, a décadas, inclusive pessoalmente, contrapondo propostas como o PSA- Pagamento por Serviços Ambientais e outras, que nunca saem do papel, ou sempre esbaram na ideologia de limitar ao tamanho do Zé e outras ...

Infelizmente a dicotomia entre os que conservam de fato e os que acham que vão preservar pelo imobilismo só aumenta.

Se puderem leiam um texto quer escrevi em 1989 quando era Diretor de Parques Nacionais e Reservas do ex IBDF hoje IBAMA, mostrando o dilema de ter de viver o hoje a espera do amanha :

A FÁBULA DA ECOLOGIA E DO TRACAJÁ. "o homem com fome não pode pensar o amanhã"

http://ambientes.ambientebrasil.com.br/educacao/textos_educativos/a_fabula_da_ecologia_e_do_tracaja.html

Parabéns pela reflexão.
DIOGO DIAS TEIXEIRA DE MACEDO

SÃO SEBASTIÃO DA GRAMA - SÃO PAULO

EM 23/08/2010

O Jornal Nacional deveria mostrar a cara dos inúmeros Zé Manés que estão produzindo alimento e dando o que comer as grandes cidades. Além de produzir alimentos, os Zé cuidam do meio ambiente , protegem as águas e dão emprego a milhões de pessoas, tudo do bolso do Zé ... o que mais querem ... o sangue nosso ... vivemos uma verdadeira agricultura de dar e não receber nada, nem mesmo o reconhecimento ... quando falamos que somos produtores somos tachados de exploradores do meio ambiente, poluidores, senhores de terra que exploram a mão de obra e grandes devedores em bancos ... isso cabe as entidades da classe ajudarem a mudar nossa imagem!!!
V P DEOLIVEIRA

EM 18/08/2010

Infelizmente nosso Brasil esta repleto de "Ze".
Na maioria de Ze analfabeto, Ze desnutrido, Ze doente, Ze abondonado Ze drogado Ze esplorado, e principalmente de Ze dominado.
Este sempre foi um Pais de Ze.
O Ze engravatado que sempre esplora o Ze analfabeto.
O seu Aldo Rabelo foi direto nas feridas do Ze, estas ONG´S e o verdadeirpo cancer do Ze . A influencia que estas ong´s tem sobre o Ze engravatado afeta diretamente o Ze Lumbriguento.
Acorda Ze Mane. Vamos acordar o pais do Ze.....
DARIO FRANCISCO FRANQUEIRA CARNEIRO

CARMO DE MINAS - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 16/08/2010

So depois que o Zé vender e se f... Os especuladores tiverem comprado dos bancos que tomaram a propiedade ai os ecologistas e ambientalistas farão leis que beneficiem estes espertalhões....... AI o Zé ja estara morto e enterrado como todos produtores que estamos sendo massacrados por essa politica agraria.
CARLOS EDUARDO COSTA MARIA

ANHEMBI - SÃO PAULO - INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS

EM 16/08/2010

Oportuna a reflexão sobre a carta,tenho certeza que é atraves da participação de toda a socidade que chegaremos ao aperfeiçoamento de uma atividade rural e urbana mais integrada e embasada nos principios da sustentabilidade.A preocupação com o meio ambiente é um desafio geral e a responsabilidade não deve recair somente aos que vivem da agropecuária.