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Qual é a nota?

*Por Bruno Varella Miranda

Amado e odiado, Robert Parker é provavelmente a opinião mais ouvida entre os apreciadores de vinho. De fato, os boletins escritos pelo especialista têm construído e destruído as reputações de inúmeras marcas desde o final da década de 1970. Coube ao crítico norte-americano conceber e aperfeiçoar uma ideia simples, mas poderosa: um ranking baseado em uma escala de 100 pontos. Pode parecer banal, mas a indústria do vinho nunca mais foi a mesma após a iniciativa.

Foto ilustrativa: Bruno Fernandes/ Café Editora
Foto ilustrativa: Bruno Fernandes/ Café Editora

Entender a influência de Robert Parker - e a razão de este ser odiado por muitos - exige uma análise mais ampla do setor em que atua. Quando se discute a qualidade de um vinho, os tradicionalistas clamam por uma interpretação fundamentada na influência do terroir sobre a bebida. Aos humanos, caberia compreender as peculiaridades do clima e do solo em uma dada região para, a partir daí, criar as condições para a produção de um "vinho perfeito". Obviamente, tal capacidade não seria desenvolvida da noite para o dia. Não por acaso, os países europeus - e a França, em particular - seriam uma espécie de "terra prometida", onde a conjunção de condições ideais e séculos de conhecimento acumulado ofereceriam vantagens únicas.

Ninguém discute a qualidade superior dos vinhos franceses, e muito menos a enorme experiência dos profissionais do país. Há um pequeno problema, porém: a lógica baseada no terroir limita a produção de uma bebida superior a uns poucos oásis já descobertos. Mesmo a descoberta de novas áreas altamente favoráveis ao desenvolvimento da vinicultura sofreria com a falta de especialistas capazes de reivindicar os séculos de tradição dos pioneiros da indústria. Em resumo, aos apreciadores de vinhos caros, Bordeaux seria o destino incontornável.

Após a consolidação do ranking de Robert Parker, milhões de consumidores foram convencidos de que outros critérios poderiam informar a compra de um bom vinho. Mais especificamente, ao estabelecer uma escala de 100 pontos, oferecendo a qualquer garrafa a possibilidade de atingir tal classificação, o crítico norte-americano abriu a todos a possibilidade de entrar no "paraíso" - dependendo, é claro, do julgamento de Parker. Evidentemente, são poucas as vinícolas capazes de obter a nota máxima. Da mesma maneira, muitos dos integrantes dessa elite pertencem a regiões tradicionais, conhecidas por seu terroir único. Ainda assim, a substituição de séculos de tradição pela opinião de alguns indivíduos influentes ampliou o lugar ao Sol disponível na indústria do vinho.

Em grande medida, a ascensão de Robert Parker acompanha o aumento exponencial do interesse pelo vinho nos Estados Unidos. Nesse sentido, seu ranking oferece uma justificativa de compra a uma sociedade com características diferentes daquelas encontradas nos mercados consumidores tradicionais, como a Europa. Milhões de norte-americanos se vangloriam ao adquirir um vinho com nota 91 por um preço incrível, ou usam a classificação como um argumento irrefutável para elogiar a bebida escolhida para um jantar. Especialmente para os novatos, a escala de 100 pontos facilitou um primeiro contato com a indústria, gerando oportunidades novas de negócio.

Embora Parker não seja o único, o grupo do qual faz parte é composto por uns poucos críticos. Não por acaso, sua opinião vale muito. Por outro lado, a influência não veio de graça. Desde o princípio, o especialista norte-americano foi extremamente cuidadoso em suas relações com as vinícolas, priorizando a construção de uma reputação sólida perante os consumidores. Mais especificamente, Parker adotou políticas como a recusa de receber presentes ou patrocínios de empresas. Igualmente, o crítico não compra vinhos como investimento, evitando conflitos de interesse - algo não muito comum no noticiário do Brasil, dadas as constantes menções às "trocas de favores".

Há quem diga que milhões de dólares foram gastos por vinícolas no desenvolvimento de bebidas mais próximas do "padrão Robert Parker". Existe forma melhor de convencer os consumidores do que conseguir a benção do dono do ranking? Tal necessidade é especialmente aguda para aquelas empresas localizas em áreas não tradicionais, como as milhares abertas nos Estados Unidos desde o início dos anos 1990. Ainda que a contragosto, os europeus também vêm aprendendo a navegar nesse mundo. Se os 100 pontos de Parker permitem uma entrada fácil no complexo mundo do vinho, é natural que muitos indivíduos queiram mais e mais após o contato inicial. Trata-se de uma oportunidade a ser explorada pelos defensores do terroir, que se afirmariam um degrau acima. Afinal, os limites para a diferenciação são dados unicamente pela criatividade dos indivíduos.

A ascensão de Robert Parker é interessante pois nos mostra o complexo jogo por trás da consolidação de qualquer sistema de classificação. Por trás de números supostamente objetivos, o que existe é um conflito latente entre visões de mundo distintas. O crítico não é infálivel, e talvez os europeus tenham bons argumentos para criticá-lo. Não estamos diante de um jogo com vencedores e perdedores claros, entretanto. Melhor seria falarmos de um constante rearranjo do mercado, com oportunidades e desafios moldados pela emergência de novos padrões. Se por um lado o ranking de 100 pontos erodiu as vantagens únicas detidas pelos representantes da interpretação tradicionalista, por outro a expansão da base de consumidores criou um novo grupo de potenciais interessados em uma diferenciação crescente. É possível que, no fim da história, o final seja feliz para todos.

Compreender o que torna um determinado padrão a prática predominante nos permite planejarmos melhor a visão de "qualidade" que defenderemos no mercado. Da mesma forma, oferece a possibilidade de uma reação quando nossos concorrentes fizerem a sua jogada. Independentemente da opção adotada, reputação é fundamental. Enorme debate existe sobre os limites de extensão da lógica do vinho para outros segmentos, como o do café. Trata-se de um tema complexo, e que seguirá nos ocupando no futuro.

*Bruno Varella Miranda é mestre em Administração pela USP e doutorando em Economia Agrícola pela Universidade de Missouri - Columbia.

BRUNO VARELLA MIRANDA

Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri

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ADELBER VILHENA BRAGA

CAMPESTRE - MINAS GERAIS

EM 03/04/2016

Em se tratando de Brasil, o importante é ficar atento à imparcialidade.