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Polemizar para construir?

POR SYLVIA SAES

E BRUNO VARELLA MIRANDA

BRUNO VARELLA MIRANDA

EM 14/06/2010

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O que era para ter sido o último artigo da série acabou fornecendo material suficiente para a continuação da polêmica. Que o drawback é um dos temas mais explosivos relacionados à cafeicultura, isso já sabíamos. Agora, chama a atenção o caminho tomado pelo debate nas últimas semanas. Não imaginávamos ler insinuações como as publicadas no CaféPoint; de repente, ter uma opinião sobre o tema passou a significar ligações secretas com um dos lados do debate, e o valor de uma posição passou a ser medido pela proximidade relativa de um pé de café!

Em parte, reconhecemos a culpa por esses rumos. Embora não tenha sido nossa intenção, os dados usados no último artigo acabaram por levar parte do debate para um desfecho absolutamente inútil. A fotografia mais ampla do problema acabou perdendo espaço diante da controvérsia acerca da precisão da informação. Lamentamos o ocorrido, especialmente porque chegaríamos às mesmas conclusões caso tivéssemos usado números mais adequados. Afinal, a tendência do mercado é clara, seja qual for a fonte utilizada.

Conforme não é novidade para ninguém, consideramos que há razões para acreditarmos que o drawback beneficiaria o país como um todo. Os motivos se amparam sobretudo em argumentos qualitativos, cuja repetição seria enfadonha. Não cabe a nós, entretanto, dar a palavra final sobre o tema. Na verdade, ninguém deveria ter essa prerrogativa, especialmente na ausência de um debate sólido, capaz de contrapor vantagens e desvantagens da decisão.

É fundamental salientar, inclusive, que o drawback não resolveria todos os problemas da indústria brasileira de café solúvel. As barreiras à importação existentes em mercados estratégicos, por exemplo, dificultam a inserção de nosso produto, independentemente da origem da matéria-prima. Reverter essa situação depende não apenas da atuação do governo do Brasil em negociações internacionais, como também de uma postura mais ativa da indústria junto a nossos representantes. Talvez falte à indústria a capacidade de empreender ações coletivas mais efetivas, condizentes com os desafios que vêm enfrentando.

Essa capacidade de delimitar com maior precisão os interesses do setor e tirar proveito das potencialidades derivadas da cooperação não se justifica apenas pelos benefícios evidentes. O próprio debate com outros elos da cadeia, especialmente com o segmento produtor, ganharia corpo com uma maior união da indústria. Daí a necessidade de que todos façam a lição de casa, aparando arestas, abrindo-se ao contraditório e aceitando as restrições impostas pelo mundo real.

Como na maioria dos problemas que enfrenta a cafeicultura, a natureza sistêmica da questão do drawback impõe um debate maduro. Espera-se que essa necessidade inspire os agentes, motivando o estabelecimento de canais de discussão capazes de responder de forma ágil aos desafios que surgirem. Sem ações coletivas consistentes, é improvável que o setor avance em qualquer uma de suas reivindicações. Seguindo o espírito da sugestão do Renato Fernandes, é necessário que cada parte nesse debate aceite um debate franco e desprovido dos preconceitos de sempre.

Obviamente, espera-se que, sempre que possível, a ação coordenada se volte à exploração de oportunidades originadas no mercado, e não na obtenção de benesses governamentais. Essa é uma responsabilidade que deve ser compartilhada por todos: governo, academia e iniciativa privada. A principal lição, portanto, é da necessidade de um diálogo entre cada um dos elos dessa complexa cadeia. Enquanto cada agente se preocupar unicamente com os seus problemas mais imediatos, será difícil concebermos uma política com a ambição que o setor merece. Perdemos todos nós!

SYLVIA SAES

Professora do Departamento de Administração da USP e coordenadora do Center for Organization Studies (CORS)

BRUNO VARELLA MIRANDA

Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri

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