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Pobre Standard & Poor's

POR BRUNO VARELLA MIRANDA

E SYLVIA SAES

BRUNO VARELLA MIRANDA

EM 17/08/2011

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O anúncio feito pela Standard & Poor's, rebaixando a nota dos EUA pela primeira vez na história, causou enorme comoção. Desde então, diversas explicações têm surgido. Houve quem criticasse a atual administração norte-americana, quem jogasse a culpa no antecessor de Obama ou ainda quem questionasse a capacidade da qualificadora de risco. Ora, é perfeitamente aceitável perguntar, qual a credibilidade da avaliação da Standard & Poor's, tendo em vista seu histórico recente de previsões equivocadas?

A resposta, suspeitamos, é a seguinte: a credibilidade da Standard & Poor's é semelhante a de qualquer outra análise de fenômenos sociais complexos, ou seja, questionável. Se agências qualificadoras de risco são levadas em consideração pelos agentes econômicos, isso se deve menos à capacidade destas de adiantar tendências do que à compulsão dos seres humanos de buscarem padrões em seus momentos de interação social. Não é segredo para ninguém que as agências qualificadoras de risco, não raramente, refletem tendências já observadas no "mercado". Com isso, é comum que se deixem levar pelo sentimento predominante no momento, seja ele o otimismo ou o pessimismo.

O próprio uso do termo "risco" para as atividades desempenhadas por essas agências nos parece equivocado. Um interessante livro publicado pelo economista Frank Knight, na década de 1920, apresenta uma diferenciação fundamental para entendermos as previsões de qualquer analista, entre "risco" e "incerteza". De acordo com Knight, o risco pode ser estimado de acordo com as distribuições de probabilidade conhecidas, ao passo que, com a incerteza, isso é impossível. É evidente que o tipo de previsão feito pela Standard & Poor's não se limita a variáveis cujas distribuições de probabilidade sejam conhecidas. Qual o valor no curto prazo, assim, de uma nota baseada em uma análise parcial da realidade?

A escala usada pelas qualificadoras de risco tampouco se encontra livre de críticas. Qualquer pessoa que tenha corrigido provas escolares sabe que a nota é reflexo, entre outros fatores, de um pouco de arbitrariedade. Qual a diferença entre um 9 e um 8? Ou entre um 7,5 e um 7? Por mais que uma agência se esforce em demonstrar que um AAA é melhor que um AA, é necessário reconhecer que metodologia alguma é capaz de captar com precisão o número de letras em uma nota. A maior prova disso é o embate atual entre o governo norte-americano e a Standard & Poor's em torno dos cálculos que justificaram o rebaixamento da nota. Entre os funcionários dos EUA, há a versão de que a Standard & Poor's, ao ser avisada de erros em seu relatório, optou por eliminar esses trechos, mantendo o rebaixamento.

A resposta dos investidores ao rebaixamento dos EUA só ajuda a demonstrar o grau de transcendência do anúncio da Standard & Poor's. Adivinhem o que milhares deles fizeram na segunda-feira posterior ao anúncio? Compraram títulos norte-americanos! Ou seja, se o "Império" está mesmo em decadência - o que achamos pura especulação - não culpemos uma qualificadora de risco, e sim a incapacidade do sistema político dos EUA de discutir problemas práticos, ou a ascensão de visões de mundo que pouco contribuem para o êxito econômico do país. Todo o restante seria dar importância demais a algo que, se analisado friamente, carece da legitimidade que o "mercado" parece lhe dar.

Por tudo isso, consideramos um exagero tantas críticas aos analistas responsáveis pelo rebaixamento da nota norte-americana. Antes de criticar a Standard & Poor's devemos refletir acerca de várias questões fundamentais. É preciso reconhecer, em primeiro lugar, que as qualificadoras de risco só existem porque milhões de pessoas consomem esse tipo de informação. O que as faz buscar essas classificações tem mais a ver com a sua natureza do que com a metodologia dessas agências. Ademais, qualquer consequência derivada das informações disponibilizadas por uma qualificadora de risco só nos oferece problemas caso sejamos incapazes de pensar o sistema como um todo. Se achamos que o risco pode ser medido de forma satisfatória em casos como os analisados pela Standard & Poor's, começamos mal.

O fato é que ou nos esforçamos para tentar mudar as teorias que usamos, ou há pouco a ser feito. Em grande medida, os modelos que os analistas utilizam descendem diretamente de uma maneira de ver o mundo estabelecida em meados do século XIX, com todas as suas peculiaridades e limitações. Talvez seja a hora de questionarmos seriamente essas bases. Do contrário, mudaremos apenas o alvo de nossas críticas e frustrações; seguiremos, porém, não apenas incapazes de compreender o mundo ao redor, como com a esperança vazia de que todas as respostas podem ser obtidas com as ferramentas que possuímos.

BRUNO VARELLA MIRANDA

Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri

SYLVIA SAES

Professora do Departamento de Administração da USP e coordenadora do Center for Organization Studies (CORS)

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