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O grande irmão

POR SYLVIA SAES

E BRUNO VARELLA MIRANDA

BRUNO VARELLA MIRANDA

EM 01/11/2011

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As imagens, chocantes, correram o mundo. Em meio a gritos eufóricos dos rebeldes líbios, lá estava o ex-ditador Muamar Gaddafi, vivendo um pesadelo particular. Para quem, há algumas semanas, exigia a caça obstinada aos "ratos" que ameaçavam seu poder, a humilhação de ser encontrado em um cano de drenagem certamente foi tremenda. Posteriormente, toda a violência sofrida, em um episódio ainda mal explicado, acabou por manchar a transição política na Líbia, ao simbolizar a derrota da Lei para a sede por vingança imediata.

Até aí, nada de novo. O menu de atrocidades oferecido pela raça humana em seus milênios de existência é extenso. O próprio Gaddafi, com sua peculiar visão de mundo, certamente contribuiu com inúmeros episódios lamentáveis. O que mudou é a documentação dos excessos. Não demorou muito para que vídeos amadores, gravados com os celulares das testemunhas oculares, corressem o mundo, oferecendo detalhes dos últimos minutos do tirano. Foi-se o tempo em que as intrigas palacianas se tornavam lendas, maleáveis segundo a imaginação de seus transmissores.

É desnecessário lembrar que a facilidade com que temos acesso a todo tipo de informação não tem precedentes na história. O que talvez nos esqueçamos é que toda essa transformação ocorreu em um ritmo alucinante. Há apenas 70 anos, a Alemanha nazista exterminava milhões de judeus em seus campos de extermínio na Polônia com considerável tranquilidade. Se tomamos o exemplo de Auschwitz, foi preciso que dois prisioneiros conseguissem escapar para que o mundo tivesse plena noção do que se passava em território polonês.

No século XXI, é inimaginável a existência de algo como Auschwitz - um campo de extermínio em plena Europa - sem que, logo em seus primeiros dias de funcionamento, dezenas de imagens e vídeos apareçam. Da mesma maneira, os responsáveis pela transição na Líbia talvez tivessem evitado o embaraço se a revolta contra Gaddafi tivesse ocorrido antes da proliferação dos smartphones e da banda larga. Atualmente, um indivíduo já é suficiente para dar a um fato condições de atingir os quatro cantos do mundo.

Não sofrem apenas os políticos inescrupulosos com essa nova realidade. As denúncias de trabalho escravo contra empresas evidenciam que é cada vez mais difícil varrer a sujeira para debaixo do tapete. De repente, marcas conhecidas pelo alto preço de suas roupas se encontram associadas com práticas abomináveis, destruindo parte da reputação da noite para o dia. Os acionistas, antes satisfeitos com os baixíssimos custos obtidos pela eficiente administração, passam a ter que lidar com questões indigestas, como o porquê da existência de custos tão favoráveis ao negócio.

Por essas e por outras, a tecnologia está transformando uma série de noções que fundamentaram a vida em sociedade nas últimas décadas. Idéias como hierarquia e representação estão sendo erodidas, a medida que as pessoas percebem a distância potencial entre o "discurso oficial" e a realidade. Em um contexto marcado pela emergência progressiva de valores como os direitos humanos e o imperativo da busca por sustentabilidade ambiental, falar que "o certo está sendo feito" acarreta responsabilidades crescentes. Nos negócios, essa realidade, se ainda não chega a fechar as portas de empresas, ao menos já começa a incomodar.

As consequências dessa guinada têm tudo para ser positivas. Por um lado, elimina-se parte da hipocrisia que caracteriza a essência de burocracias dotadas de discurso voltado para o futuro e práticas inspiradas no passado. Não há departamento de marketing capaz de impedir uma gravação de celular, e as pessoas, com o tempo, aprenderão o real valor que as novas ferramentas lhes proporcionam. Para os ditadores, então, a situação é ainda mais dramática, como já provaram os antigos líderes da Tunísia, do Egito, e o próprio Gaddafi.

Por outro lado, novas formas de contrato entre os indivíduos podem surgir. Na atualidade, a sombra da assimetria informacional torna a proteção exagerada por parte de um terceiro um artifício usado para tentar equilibrar a relação. Os excessos na legislação trabalhista, por exemplo, buscam cercear de todas as formas a transgressão motivada pela sensação de impunidade. Com mais transparência, independente da fonte, espera-se que, aos poucos, seja possível nos livrarmos dos exageros. Mais tecnologia não significa apenas expor os maus exemplos; indo além, aproxima os humanos da capacidade de tomar decisões e expressar as suas preferências. Devemos nos preparar para esse novo mundo.

SYLVIA SAES

Professora do Departamento de Administração da USP e coordenadora do Center for Organization Studies (CORS)

BRUNO VARELLA MIRANDA

Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri

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