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O Brasil e seu "milagre agrícola"

Brasil: potência agrícola mundial. Um observador em viagem pelo interior do país durante a década de 1960 talvez tivesse dificuldade em imaginar o desfecho. Embora exercessem o protagonismo em alguns mercados - especialmente no caso do café -, aos agricultores brasileiros as dificuldades abundavam. De fato, pergunta feita pelo professor Fabio Chaddad em evento no dia 21 de setembro resume a natureza do desafio: como um país pobre, importador de alimentos, sofrendo com a insegurança alimentar e governado por um regime autoritário seria capaz de atingir tal status?

Pois bem, hoje competimos diretamente com os Estados Unidos e a União Europeia. A fim de explicar as razões para tamanho êxito, Chaddad escreveu a obra "A Economia e a Organização da Agricultura Brasileira", cuja edição em português será lançada em 2017. Antes disso, foi recebido no Insper, onde apresentou suas principais conclusões. Na sequência, um debate moderado por Sérgio Lazzarini contou com a participação de André Pessoa, Decio Zylbersztajn e Rodrigo Lima. O evento ofereceria uma mostra do enorme potencial existente para mais discussões sobre os rumos da economia do Brasil. Em tempos marcados pela rejeição à política, o evento demonstrou a importância de um diálogo maduro sobre "o que somos" e "o que queremos ser".

Conforme explica Chaddad em sua obra, enaltecer o estoque privilegiado de recursos naturais encontrado em nosso território não basta para descrever o "milagre". Ainda que pesquisa aplicada tenha sido fundamental para a aceleração do processo, tampouco é suficiente uma explicação baseada no papel da tecnologia. A fim de entender o porquê da expansão contínua da produtividade agrícola no Brasil, precisamos entender como tais recursos foram alocados. Fundamentalmente, o êxito da agricultura brasileira é sustentado pela habilidade de governança de cadeias cada vez mais complexas.

Nesse sentido, merecem destaque os indivíduos capazes de projetar as bases organizacionais do êxito. Economistas muitas vezes se esqueçem de um detalhe fundamental: por trás dos mercados, existem pessoas. A história de êxito do agronegócio brasileiro é construída por milhares de empreendedores capazes de enxergar oportunidades em meio aos inúmeros gargalos encontrados no Brasil.

Conduzir um negócio em um país em desenvolvimento exige acima de tudo criatividade. Afinal, se já não bastassem os afazares cotidianos, seus líderes devem preencher as lacunas deixadas por um arcabouço institucional deficiente. Igualmente, precisam encontrar alternativas para escoar a produção diante da infraestrutura deficiente, ou congregar esforços a fim de potencializar a inovação tecnológica. Ao longo de sua obra, Chaddad nos descreve a importância da construção de organizações capazes de lidar com problemas comuns.

Engana-se, porém, quem considera que a receita para o êxito é única. Parcela considerável do livro explica a considerável diversidade organizacional existente na agricultura brasileira. Entre as muitas lições ali encontradas, talvez essa seja a principal: a efetividade da organização de uma cadeia agroindustrial depende diretamente da capacidade de observação das condições ao redor de seus participantes. Em outras palavras, uma estratégia só tem sentido quando alinhada com os recursos à disposição e adaptada aos desafios impostos pelo meio. Em um país marcado pela heterogeneidade, não é de se estranhar que cada grupo de produtores - e cada indústria - tenha encontrado uma solução particular.

Chaddad encerra sua exposição com uma mensagem otimista. Entretanto, dois desafios centrais - e diretamente derivados do protagonismo - são identificados: (i) a dimensão social; (ii) a dimensão ambiental. O que virá pela frente, não sabemos. Partindo do inspirador debate, fica a impressão de que uma solução para ambas as questões dependerá, em grande medida, de um novo ciclo de inovação institucional. Em um mundo em constante transformação, a agricultura brasileira deve ampliar o leque de ações coletivas existentes, catapultando os seus participantes a assumirem uma posição mais ambiciosa na apropriação do enorme valor derivado de sua existência.

Em resumo, a trajetória brasileira de êxito não se resume ao aproveitamento de nossa posição única no globo terrestre. Se chegamos ao status de potência agrícola, é devido à criatividade e à cooperação de milhões de produtores. Até o momento, o setor tem sido capaz de mitigar a influência negativa do tão criticado "custo Brasil". Para as próximas décadas, de que maneira podemos contribuir para acelerar a correção de distorções e assimetrias? Até que ponto precisamos esperar a boa vontade de Brasília - ou de governos estaduais e municipais - para agirmos de forma mais ambiciosa?

Seremos capazes de assumir uma posição mais "ofensiva", potencializando a criação de oportunidades de negócio?

O bom debate é aquele em que, além de respostas, encontramos perguntas desafiadores para o futuro. Certamente, o evento no Insper nos faz pensar. Aos interessados, a apresentação de Chaddad e a discussão podem ser assistidas aqui.

BRUNO VARELLA MIRANDA

Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri

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JOSE EDUARDO FERREIRA DA SILVA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS

EM 18/10/2016

Confesso que sou bastante cético em relação ao cooperativismo. Acho que vai contra a natureza humana.

Como dizia Adam Smith: "Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro e do padeiro que esperamos o nosso jantar, mas da consideração que ele têm pelos próprios interesses. Apelamos não à humanidade, mas ao amor-próprio, e nunca falamos de nossas necessidades, mas das vantagens que eles podem obter." Cooperar não me parece ser uma saída natural para a maioria.

O Brasil tem casos interessantes de cooperativismo (há cooperativas enormes, com boa estrutura, etc.), mas não são regra. Trata-se de casos isolados e ainda assim acredito que pouco eficientes.

Um vez conversando com um dirigente de uma cooperativa disse que podíamos tentar uma parceria para financiar os produtores cooperados a juros bem baratos (à época havia recurso disponível a taxa fixa de 3% a.a. para financiar máquinas e equipamentos). Disse que seria interessante, que a cooperativa poderia dar uma garantia extra para que pudéssemos suportar um limite maior de crédito aos produtores, reduzindo o risco das operações (taxas baixíssimas, carência e prazos longos). A resposta dele foi que poderíamos repassar o recurso à cooperativa (3% ao ano) para eles repassarem aos produtores (a 3% ao mês!!!!), de modo que a cooperativa fortalecesse o seu caixa. Onde estava o espírito cooperativista? A cooperativa ganharia às custas do seu cooperado!

Expor as pessoas à competição e submeter ao esforço sempre foi uma saída mais eficaz. Todos buscam atender aos próprios interesses, e para isso devem atender aos interesses dos consumidores (ou dos clientes na sua cadeia de suprimentos). Essa é a raiz do sucesso. O limite para a ambição é a concorrência e os que pagam por isso.

Adam Smith dizia ainda que "é injusto que toda a sociedade contribua para custear uma despesa cujo benefício vai a apenas uma parte dessa sociedade." Então é preciso repensar os serviços públicos, seus subsídios, o protecionismo, o excesso de regulação, etc. Este não é um preço justo, que resulta numa enorme ineficiência (lembrando do importante contingente de pobreza no campo), e é preciso respeitar à sociedade que paga por isso, com uma das cargas tributárias mais altas do mundo.

Os que venceram no cenário traçado pelo Fábio Chadad são aqueles que empreenderam, que arriscaram, que pagaram os custos de oportunidade (dito pelo André Pessoa) ao sair do conforto do sul maravilha e desbravar as "novas" fronteiras do cerrado.

É preciso repensar o modelo protecionista, tão caro a algumas lideranças rurais.

É preciso repensar a Embrapa e a pesquisa brasileira.

É necessário não apostar tanto no cooperativismo.

E concordo com você que não podemos ignorar nossa história, devemos nos orgulhar do que foi feito a despeito de tanta intromissão. E devemos aprender com a história, perceber que a raiz do sucesso foi o empreendedor.

Parabéns mais uma vez.

Eduardo
BRUNO VARELLA MIRANDA

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 16/10/2016

Prezado José Eduardo,



Obrigado pelo comentário. Acho muito interessante o ponto que coloca. Como gerar sinergias que potencializem a nossa capacidade de oferecer conhecimento relevante aos agentes ligados à agropecuária? Eu acredito que a resposta passa por um sistema híbrido, em que o investimento privado se alie aos recursos acumulados durante décadas na esfera pública. Não podemos ignorar a nossa história. Recomeçar do zero seria um equívoco, na minha opinião.



Também acredito que a resposta deve ser interdisciplinar. As dificuldades enfrentadas por muitas comunidades rurais derivam de um conjunto de variáveis. Existe o problema de uma inserção deficiente nas cadeias produtivas, mas também uma precária organização da comunidade. Sinto que, antes de tudo, precisamos recuperar a auto-estima em inúmeras pequenas cidades brasileiras. Em outras palavras, contribuir para o adensamento das ações coletivas locais, trazendo uma motivação adicional para os seus habitantes.



Em grande medida, os principais desafios brasileiros demandam melhor governança. E, para isso, precisamos de iniciativa de todos os agentes potencialmente afetados. Acredito que há um espaço considerável para que os produtores rurais - principalmente por meio da cooperação - assumam um papel ainda mais importante nesse processo. Na minha visão, o livro do professor Fabio Chaddad ilustra os potenciais benefícios de um maior ativismo.



Foi-se o tempo das estratégias defensivas. Precisamos discutir aquilo que queremos ser...



Atenciosamente



Bruno
JOSE EDUARDO FERREIRA DA SILVA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS

EM 14/10/2016

Entender que a competitividade está ligada à inovação e ao empreendedorismo dos agricultores e demais agentes das cadeias do agro nacional é fundamental.

Devemos também ter em mente que temos um enorme passivo social no campo, que demandará um esforço enorme e investimento para trazer estes produtores (ou suas terras com outros empreendedores) para a atividade produtiva, com inovação, tecnologia, produtividade e competência. Despertar o talento dos agricultores, tirá-los da inércia e do circulo vicioso da pobreza é fundamental. Mas isso não se dará com a intervenção do Estado, nem com mais políticas públicas, mas com mais mercado, com mais inserção nas cadeias produtivas.

Com mais pesquisa privada, que gere diferencial competitivo para estes produtores. E nesse ponto é interessante rediscutir o papel da pesquisa pública no Brasil. Acho que é um tópico discutido com um tom muito passional. Sem tirar o mérito da pesquisa pública da Embrapa e Universidades, é preciso reconhecer também que instituições públicas de pesquisa não foram capazes, até por força institucional, de gerar diferenciais competitivos a um pequeno grupo de produtores, a grande necessidade dos pequenos e alijados do mercado. Só isto poderá gerar o diferencial competitivo capaz de gerar preços capazes de remunerar atividades de pequena escala. Mas como tirar a pesquisa privada da inércia e fornecer a estes pequenos produtores, empobrecidos, este poderoso diferencial competitivo? será que há saída para que as entidades públicas exerçam este papel?

Acho que aí tem um bom tema para discussão.

Parabéns pela matéria e obrigado por disponibilizar o link para o vídeo do evento.