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O Brasil e o imprevisível efeito Trump

O ano de 2016 trouxe fortes emoções. Tudo indica que os próximos 12 meses serão igualmente atribulados. Nos Estados Unidos, a ascensão de Donald Trump à presidência sinaliza um futuro de controvérsias. Por aqui, a grande pergunta é: de que maneira a chegada de um novo inquilino à Casa Branca afetará a economia brasileira? A verborragia do futuro líder estadunidense influenciará, ainda que indiretamente, nossas possibilidades no curto prazo. Diante de sua imprevisibilidade adiante, qualquer previsão seria precária. Ainda assim, arrisco-me a apontar um potencial desdobramento da espalhafatosa atuação política do bilionário.

A vitória de Trump inagura uma era de elevada incerteza nas relações internacionais. Ao assumir a presidência dos Estados Unidos, o bilionário assumirá o comando do principal responsável pela arquitetura do atual sistema de governança global. Se tomarmos suas palavras como evidência, deveríamos esperar uma ruptura com o passado. Entretanto, pouco sabemos sobre a natureza de tais transformações. Como ele próprio afirmou inúmeras vezes, boa parte de suas estratégias não serão reveladas antes de implementadas. Na "melhor das hipóteses", o plano revela o cuidado para evitar reações antecipadas dos rivais. Será o caso? Pouco provável.

Talvez o maior desafio para entendermos Trump derive do caráter reativo de suas declarações. Durante o período eleitoral, o então candidato pelo Partido Republicano opinou sobre os mais diversos temas, mesclando desenvoltura com um absoluto desprezo pelos detalhes. A predisposição do bilionário a encapsular sua ignorância em frases de efeito contrasta com a sede do público estadunidense por novidades constantes. A cada esforço jornalístico de exposição do perfil do postulante ao cargo mais importante do mundo, um novo compromisso genérico parecia assumido. Se nada sabemos sobre as posições do futuro presidente em relação ao Brasil, é porque ninguém lhe perguntou.

Obviamente, o exercício da política internacional não cabe nos típicos adjetivos utilizados por Trump. Nos próximos anos, será necessário ir além dos já notórios "fantástico" e "desastroso". Quer um exemplo? Ao conversar por telefone com a presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, provocou a ira do governo da China. Beijing teme que o passo signifique uma revisão da posição estadunidense sobre uma futura reunificação de ambos os países asiáticos. A real intenção do próximo presidente dos Estados Unidos, só Trump sabe. De qualquer maneira, a suposta inconsequência do bilionário motivará reações de seus potenciais rivais, gerando oportunidades para outros países.

Embora analistas concordem que o bilionário pretende envolver a polêmica em uma negociação mais ampla com a liderança chinesa, inexiste uma certeza sobre o grau da ambição do futuro inquilino da Casa Branca. Um erro de cálculo de Trump levaria à escalada do conflito entre China e Estados Unidos. Excluindo os cenários extremos, o desentendimento entre as potências poderia beneficiar o Brasil no curto prazo. Em um momento marcado pelo pessimismo em relação à vitalidade das instituições brasileiras, argumentos de natureza estratégica garantiriam a desculpa necessária para a realização de investimentos no país. O argumento vale especialmente para a China, detentora de uma política ativa de expansão de sua esfera de influência em direção a outros países em desenvolvimento.

A possibilidade de vender o Brasil como um destino estratégico seria de grande valia para a cambaleante administração de Michel Temer. Em setembro de 2016, um recém-empossado presidente viajou à China em busca de investimentos e apoio de outros países emergentes. À época, a mensagem era de retorno da credibilidade e criação de condições favoráveis ao capital estrangeiro. Passados apenas três meses, é improvável que o presidente brasileiro possa consolidar um discurso capaz de associar a atratividade do mercado nacional com a vitalidade de suas instituições. Já no âmbito privado, o modus operandi de alguns dos principais propulsores do crescimento da era Lula exige um período de readaptação a uma realidade de maior transparência.

É bem verdade, o "mercado" não pede coerência, mas aparência. Ocorre que o momento é de sujeira demais para tapete de menos. Assim, a atração de investimentos no curto prazo dependerá de argumentos que transcendam as variáveis exclusivamente econômicas. Nesse sentido, as polêmicas trazidas pelo novo presidente dos Estados Unidos oferecerão um farto repertório para os malabarismos retóricos da administração de Michel Temer. Tendo em vista a personalidade de Trump, estragos são possíveis. Entretanto, os parágrafos acima buscam demonstrar que o cenário aberto pela eleição do bilionário não será necessariamente de terra arrasada. Até porque, nessa matéria a política brasileira já se mostrou suficientemente hábil.

Pode parecer surreal, mas a sobrevivência do "governo de salvação nacional" também depende do conteúdo das próximas frases de Trump nas redes sociais. Resta saber se o acirramento das tensões provocadas pelo futuro presidente dos Estados Unidos ofecerá margem de manobra suficiente para terceiros países. E, claro, sempre existe a possibilidade de que o bilionário estadunidense tenha que oferecer sua visão sobre o Brasil em alguma entrevista. "Fantástico" ou "desastroso"? Trata-se de uma pergunta que ficará para 2017.

A você, prezado(a) leitor(a), um feliz ano novo! 

BRUNO VARELLA MIRANDA

Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri

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ERÁSIO JR.

FRANCA - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 29/12/2016

Em primeiro lugar, quero parabenizá-lo pelo brilhante trabalho realizado aqui durante esse ano de 2016 e lhe desejar muito sucesso para o novo ano que se aproxima, prezado mestre e futuro doutor e colega Bruno Varella. Perdemos um nobre colega nesse ano, não é? Lamentável a perda do Dr. Fabio. Em relação ao novo presidente dos EUA que assumirá dia 20 de janeiro,  estamos aguardando com muita espectativa em relação ao mercado do café, pq o preço desabou, sem fundamento e acredito que a consequência disso, seja seus depoimentos em relação a economia. Vamos ter que pagar pra ver ... feliz ano novo pra todos nós!!!
CLÁUDIO BARBOSA

RIO DE JANEIRO - RIO DE JANEIRO - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 28/12/2016

Parabéns pelo seu artigo, Bruno.

Se me permite acrescentarei um componente que pode valorizar, do ponto de vista comercial, sua palavras quanto às possibilidades comportamentais do citado cidadão: muita gente ganhou dinheiro a partir dos negócios privados criados e desenvolvidos por ele, afinal numa economia capitalista dinheiro atrai dinheiro (OK que certamente muitos também perderam, mas é do jogo). Se transportarmos esta perspectiva para o nível das nações, e desde que estas estejam atentas e organizadas para tal, poderá ser uma questão de desenvolver as oportunidades (quase que independentemente das convicções políticas, eu diria).

Cláudio Barbosa..