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Lições de Jirau

POR SYLVIA SAES

E BRUNO VARELLA MIRANDA

BRUNO VARELLA MIRANDA

EM 30/03/2011

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A violência em Jirau acabou chamando menos a atenção do que merecia. Em meio aos terremotos no Japão e à crise na Líbia, sobrou pouco espaço para esse assunto nos jornais. E olha que pautas não faltam: Jirau é muito mais do que energia elétrica. Sua construção reflete um projeto estratégico para a região amazônica. Da mesma maneira, o deslocamento de milhares de trabalhadores para a região impõe questões inquietantes.

Não pretendemos, ao longo desse texto, apontar quem tem razão na questão de Jirau. Além de estarmos diante de uma questão complexa, a distância dos eventos nos impede de emitir um parecer sem corrermos o risco da injustiça. Nosso objetivo é estabelecer um paralelo entre o avanço das grandes obras de infraestrutura pela região amazônica e as perspectivas para a agropecuária brasileira. Em especial, trataremos da abertura dos mercados externos aos produtos nacionais.

Por sinal, o acesso aos mercados de outros países constitui uma preocupação incontornável para os agentes do setor agropecuário. A visita do presidente norte-americano Barack Obama, há alguns dias, constituiu mais uma oportunidade para que o Brasil manifestasse as suas demandas. Uma longa lista de produtos, alvo de barreiras tarifárias, foi citada pela presidenta Dilma Rousseff em seu discurso. Tudo indica que não será fácil chegarmos à liberalização no curto prazo: as resistências na maioria dos países desenvolvidos segue, infelizmente, considerável.

Ironicamente, no mesmo mês da visita de Obama ao Brasil, eis que explode a violência em Jirau. Operários reclamam das condições de trabalho e atos de vandalismo ocorrem em seu acampamento. Tudo isso em uma área em que é latente a tensão entre a expansão da fronteira agrícola e as demandas por conservação. Acrescente o fato de que Jirau fica próxima a uma importante reserva indígena. Ingredientes não faltam para que as questões envolvendo Jirau extrapolem os limites da produção de energia.

Energia elétrica é fundamental para um país em rápido crescimento econômico, e o potencial da região amazônica não pode ser desprezado. No entanto, ficará a eterna dúvida: será que estamos lidando com esse desafio com o devido cuidado? Ao promovermos o deslocamento de milhares de pessoas para uma área tão sensível do ponto de vista ambiental, estamos planejando o futuro pós-Jirau?

Nossas escolhas em relação à Amazônia poderão selar o destino das exportações brasileiras de produtos agropecuários ao Hemisfério Norte. É desnecessário repetir o apelo da Amazônia para a maioria dos cidadãos europeus, norte-americanos ou japoneses. Considerada o "pulmão do mundo", nossa floresta se encaixa facilmente nos debates políticos de qualquer sociedade do chamado Primeiro Mundo. Nas duas últimas décadas, por sinal, tem sido parte integrante da retórica favorável ao protecionismo.

Ao darmos motivo para a reprodução de notícias negativas acerca da Amazônia, jogamos ainda mais lenha na fogueira. Ganham os protecionistas, sempre em busca de argumentos para desqualificar as nossas demandas. Embora tenham sofrido com a "concorrência" de outras notícias, as imagens da violência em Jirau certamente correram o mundo. Depende de nós evitar que eventos parecidos ocorram, sob o risco de reforçarmos cada vez mais a idéia de que não temos condições de conduzir uma exploração sustentável dos imensos recursos disponíveis na Amazônia.

Longe das teorias conspiratórias, o reforço de uma imagem negativa do Brasil nessa questão poderá, por exemplo, derivar no boicote dos produtos do país por uma parcela dos consumidores. Muitos poderão argumentar que o número de consumidores que carregam essas preocupações para o supermercado é limitado; no entanto, é inegável que este grupo corresponde a dos nichos mais dinâmicos do mercado internacional, abrindo oportunidades para estratégias de diferenciação que beneficiem os produtores.

Finalmente, precisamos tomar todas as precauções para que os trabalhadores de Jirau, Santo Antônio e todas as grandes obras brasileiras não sejam vítimas do abandono. Não há nada pior do que deixá-los à própria sorte. Não é nem preciso ir muito longe para constatar isso: a urbanização caótica do entorno de Brasília é uma mostra de que planejamento é necessário. No caso de Jirau, a mistura de reservas indígenas, floresta equatorial, fronteira agrícola e um grande contingente de desempregados pode ser bombástica.

SYLVIA SAES

Professora do Departamento de Administração da USP e coordenadora do Center for Organization Studies (CORS)

BRUNO VARELLA MIRANDA

Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri

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EDIMAR GONÇALVES CARVALHO

GUAÇUÍ - ESPÍRITO SANTO

EM 04/04/2011

Contruir hidrelétrica dá muito problema trabalhista e ambiental, temos que seguir o exemplo do Japão e contruir usinas Nucleares..................
JOSÉ ANTONIO PADIAL POSSO

MONTE CARMELO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 04/04/2011

Mas, a Sylvia tem toda razão. Quem conhece o entorno de Brasília sabe do que ela está falando.
JOSÉ ELEUTÉRIO ALVES NETO

SINOP - MATO GROSSO - INDÚSTRIA DE CAFÉ

EM 01/04/2011

Ontem quem viu o jornal nacional, viu que os funcionários não estavam mal acomodados, seus alojamentos para 8 pessoas continham até ar condicionado, as maiores reclamações eram falácias de sindicatos oportunistas que são criados urgentes para abocanhar as contribuições trabalhistas, mas a grande problemática, são os próprios trabalhadores que na maioria das vezes são "paus rodados" no rio da vida, não tem educação e cultura, pra "conviver" com as diferenças culturais do viver e pensar alheio.
LUIZ SIMONI

UMUARAMA - PARANÁ - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 31/03/2011

Conversa prá boi dormir. A china deve a médio prazo tirar mais de 300 milhões de pessoas da miséria. São 3 Brasis. Haja alimentos. Ainda temos a Índia, a Améria Latina, Leste Europeu, Uma parte da Comunidade Européia, TODOS aumentando população, a maioria com grande crescimento econômico. Dentro de 100 anos TODAS as terras agricultaveis do globo terrestre serão utilizadas intensamente. Só no Brasil ainda tem gente que acha que Índio tem que viver dormindo em ranchinhos cobertos com folhas de coqueiro, subnutridos, alto índice de suicídio entre jovens, mortalidade infantil na estratosfera educação zero, etc.... Ongs devem estar estar junto com os arruaceiros.