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Existe empreendedorismo destrutivo?

POR BRUNO VARELLA MIRANDA

E SYLVIA SAES

BRUNO VARELLA MIRANDA

EM 29/07/2011

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Em qualquer sociedade, determinadas noções são alçadas a um status que as tornam unânimes. O exemplo do termo "desenvolvimento" é o mais óbvio: é praticamente impossível encontrar uma pessoa que se oponha ao desenvolvimento, embora inexista um consenso acerca do seu significado exato. Outras idéias possuem apelo semelhante, entre as quais a do empreendedorismo. Não são poucas as análises que enaltecem o papel desses desbravadores de oportunidades econômicas para o progresso de uma sociedade, reivindicando maior atenção à formação desse perfil. Chega-se mesmo a propor que o empreendedorismo possa ser ensinado!

Uma rápida análise nos perfis de figuras consideradas empreendedoras mostra que a realidade é mais complexa. Comparar cada histórico familiar, ou cada trajetória acadêmica, nos oferece uma clara demonstração de que inexiste uma receita de bolo para a formação de empreendedores. Apesar de podermos ajudá-los, fornecendo-lhes informação, por exemplo, temos que nos acostumar com o fato de que eles estão por aí, "vagando" em busca de oportunidades. Para os formuladores de políticas públicas, então, emerge a questão: se é complicado moldar empreendedores, há maneiras de tornar o seu trabalho mais fácil?

Em um trabalho publicado em 1990, William Baumol parece oferecer a resposta. O seu argumento principal é o de que pouco se pode fazer para modificar a oferta de empreendedores em uma sociedade. Por outro lado, a determinação das "regras do jogo", ou as recompensas derivadas da interação do cenário social, é que determinaria a ação desses potenciais empreendedores. Da mesma maneira, é possível que a energia criativa de uma sociedade seja usada para fins que prejudicam boa parte dos seus integrantes, desde que haja incentivos suficientes para isso.

Para entender essa afirmação, é importante voltarmos a uma das inspirações do autor do texto. Baumol cita uma frase do historiador Eric Hobsbawn, que nos lembra que as economias de mercado, ao contrário do que aponta o senso comum, não se direcionam necessariamente para a inovação. Na verdade, estas se direcionam ao lucro. Ora, o lucro pode derivar de atividades predatórias, caso tal estratégia seja a que assegure riqueza, poder e prestígio com maior facilidade.

Assim, se o objetivo é a obtenção de maiores taxas de crescimento econômico, por exemplo, as regras do jogo devem beneficiar atividades que contribuam para essa finalidade. Obviamente, requisitos como um ensino de qualidade, a existência de um sistema financeiro desenvolvido, entre outros, ajudam a explicar a prosperidade econômica. No entanto, é fundamental termos em mente que muitos humanos optarão por "destruir", ao invés de "construir", caso a estrutura de incentivos em uma sociedade lhes garanta poder e riqueza daquela maneira.

E o que temos a ver com isso? O "jeitinho brasileiro" provavelmente seja a máxima expressão da nossa incapacidade de canalizar os esforços dos empreendedores para fins mais nobres. A sucessão de escândalos em Brasília, por exemplo, demonstra que não raramente a busca por poder e riqueza - ambição de boa parte dos humanos - vem acompanhada de estratégias voltadas a explorar os recursos comuns. Outros casos são ilustrativos, e os leitores certamente se lembrarão de algum. A conclusão que fica é que estamos desperdiçando a contribuição potencial de milhões de empreendedores.

BRUNO VARELLA MIRANDA

Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri

SYLVIA SAES

Professora do Departamento de Administração da USP e coordenadora do Center for Organization Studies (CORS)

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