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Entre a tentação e a timidez

Não é de hoje que a carne é fraca. Tentativas de fraude sempre existirão – e não apenas em países em desenvolvimento. Conforme o escândalo da Volkswagen em 2015 demonstra, casos de trapaça também ocorrem em sociedades ditas avançadas. Diante da impossibilidade de eliminarmos a corrupção da face da Terra, resta-nos aperfeiçoar a capacidade de detecção de desvios de conduta. Da mesma maneira, precisamos refletir sobre a natureza das punições por ações oportunistas como as perpetradas por fiscais do Ministério da Agricultura, executivos de frigoríficos e políticos.

É improvável que a operação Carne Fraca traga efeitos de longo prazo para a posição internacional do Brasil no setor de carnes. A emergência de novos hábitos alimentares no mundo em desenvolvimento representa um incentivo suficientemente poderoso para um acordo com boa parte de seus parceiros comerciais. Embora tenhamos que lidar com a falta de escrúpulos de funcionários públicos e privados, nossos concorrentes sofrem com desafios ainda mais complexos, como a doença da vaca louca e a gripe aviária. Mais cedo ou mais tarde, a poeira abaixará.

Nunca é demais lembrar, variáveis econômicas são insuficientes para explicar a abertura de um mercado. Considerações geopolíticas importam – e muito. Por exemplo, seria difícil para a Rússia limitar as compras de carne brasileira em um momento de crescente animosidade entre Moscou e boa parte do mundo ocidental. Por outro lado, eventos como a operação Carne Fraca oferecem um conveniente argumento para países em negociações com o governo do Brasil. Quanto maior a pressa por uma “normalização”, maior o preço do acordo. Fraudes como as reveladas pela Polícia Federal podem levar a concessões adicionais a parceiros como a China, tão interessados em aumentar sua presença na América Latina.

De fato, a abertura de um mercado não ocorre gratuitamente. Exportamos não apenas porque somos competitivos, mas porque alocamos recursos escassos em múltiplos níveis para atingir tal meta. Mais especificamente, destinamos bilhões de reais ao apoio de empresas pertencentes a setores avaliados como “estratégicos”. Ao empreender tais ações, não raramente beneficiamos alguns elos da cadeia agroindustrial de forma desproporcional. Da mesma maneira, condicionamos as ações de funcionários públicos – e as possíveis concessões em complexas negociações comerciais – a objetivos de desempenho ligados a essas escolhas.

Nesse sentido, gera desconcerto o contraste entre a hiperatividade do governo brasileiro e a letargia das principais empresas afetadas pela operação Carne Fraca. Avanços em nossa capacidade de detectar fraudes dependem de uma postura mais corajosa por parte da iniciativa privada. Faz-se necessário reconhecer os erros, apoiar o reforço da fiscalização e pagar parte da conta pelas mudanças. Minimizar a probabilidade de corrupção exige o estabelecimento de um sistema em que a ação pública seja complementada por mecanismos independentes. Nem todos os integrantes do setor precisam participar da iniciativa – e, quem sabe, distintos modelos podem coexistir. De qualquer maneira, o compromisso com a criação de ações coletivas dotadas de regras de participação claras e autonomia para avaliar seus integrantes já representaria um importante passo.

A magnitude da atual crise deriva do peso detido pelo Serviço de Inspeção Federal (S.I.F.) na verificação da qualidade. Poder exagerado a uma “caneta” costuma facilitar a tarefa de oportunistas. Uma vez vencida a barreira burocrática, quem bloqueria os malfeitos? A Polícia Federal, com seus métodos espalhafatosos. Muito se fala sobre a postura inadequada adotada pelos responsáveis pela operação. Independentemente dos erros cometidos pelos policiais, o escândalo só ganhou tamanha proporção porque colocou em xeque a credibilidade de um sistema do qual todos dependem. A criação de uma rede efetiva de compromissos e garantias protegeria o setor dos efeitos nocivos trazidos por fraudes isoladas. Ademais, permitiria maior diferenciação do produto brasileiro, facilitando a participação voluntária em iniciativas voltadas ao oferecimento de atributos adicionais aos consumidores.

Enquanto a agenda propositiva não chega, nunca é demais lembrar: a operação Carne Fraca revelou malfeitos que afetam sobretudo os consumidores brasileiros de produtos industrializados. Em outras palavras, aqueles que contribuem indiretamente com o oferecimento de linhas especiais de crédito ou lidam com as consequências de concessões feitas pelo Brasil em negociações internacionais. Por isso, a resposta ao escândalo não deveria se limitar a uma punição a funcionários corruptos. Indo além, generalizemos o uso de critérios mais amplos de avaliação dos resultados de políticas de apoio aos distintos setores econômicos. Uma melhor definição das contrapartidas aumentaria a efetividade do esforço feito por todos para a promoção do desenvolvimento do país.  

BRUNO VARELLA MIRANDA

Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri

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ROBERTO TICOULAT

SÃO PAULO - SÃO PAULO

EM 11/04/2017

Bruno



Pós tsuname estamos vendo os efeitos nefastos da falta de coerência do tratamento do assunto.



Além de queda de preços houve uma sensivel queda de demanda para os setores envolvidos. Tenho uma granja de integração com a JBS e este frigorifico diminuiu a demanda das escalas em 30%.



Uma pena para um ano que tinha tudo para ser excelente e um custo adicional a toda a cadeia. Neste momento onde precisamos de tomadores para o nosso excesso de oferta de milho é uma grande perda para toda a cadeia.



O que mais me inclomoda é não vermos punições àqueles que comanaram esta fadada operação.



Mais uma vez a sociedade pagando por desmandos de nossos orgãos de controle.



Forte abraço



Roberto
JOSE EDUARDO FERREIRA DA SILVA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS

EM 10/04/2017

Pois é, qual melhor "freio e contrapeso" que o mercado? Um mercado aberto e com pouca intervenção governamental tenderia a ser muito mais eficiente nesses casos, pois a falha de uns poucos, numa cadeia produtiva complexa, teria efeito marginal num ambiente de mais ampla concorrência (inclusive de certificação).

Então concordo que colocar todo o peso da fiscalização é um desastre. O SIF é o exemplo. Qual o problema de "abrir" este mercado para as inúmeras certificadoras nacionais ou internacionais? A pulverização nesse caso seria uma boa saída.

Mais uma vez parabéns pelo artigo, é ótimo quando suscita essas visões diferentes.
BRUNO VARELLA MIRANDA

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 06/04/2017

Prezado José Eduardo,



Obrigado pelo comentários. Excelente contribuição para o debate. Comento suas ideias abaixo:



(i) se o critério de mensuração do êxito é a capacidade de recuperação do espaço perdido após o escândalo, o desempenho do governo foi bastante superior ao observado na maioria de suas iniciativas até o momento.



Como disse no artigo, acho que as características do mercado em questão facilitaram um pouco a tarefa. Tampouco sabemos muito bem de que maneira o atual escândalo poderá condicionar movimentos do Brasil em outras questões de interesse na esfera internacional.



Aí entramos em um tema mais complexo: como mensurar o grau de efetividade de uma ação de nossos representantes? Podemos adotar critérios objetivos - número de mercados recuperados, por exemplo ou critérios subjetivos - alinhamento da estratégia de comunicação adotada com o problema enfrentado, por exemplo. Trata-se de um debate interessante.



(ii) Achei interessante a sua colocação "a internet é mais rápida que o timing político". Aqui creio que vale a pena relativizarmos um pouco o escárnio dos dias posteriores à revelação do escândalo. De fato, a internet - e as piadas - parece rápida demais em comparação com os tempos da política tradicional. Porém, não deveríamos nos pautar pela velocidade de distribuição de uma piada por Whatsapp.



Se formos nos pautar pela forma como as redes sociais e aplicativos ilustram a realidade, é provável que tudo acabe em piada e ridicularização. Sempre haverá um lado que discordará de algo com criatividade suficiente para desmoralizar o interlocutor. Aconteceu com a Dilma, é a rotina com o Temer, e assim será com qualquer representante eleito.



(iii) Estado demais é ruim, mas Estado de menos pode ser desastroso. Instituições funcionam melhor quando dotadas de "freios e contrapesos". Quando maior o peso da decisão de apenas um fiscalizador, seja ele um representante do setor público ou da iniciativa privada, maior o risco de um caso de corrupção.



Atenciosamente,



Bruno Miranda  


JOSE EDUARDO FERREIRA DA SILVA

BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS

EM 05/04/2017

Eu, ao contrário de vocês, Bruno e Roberto, achei que a atuação do governo foi fraca e deu margem a interpretações erradas.

Na sexta-feira, após o anúncio da operação, o secretário executivo (e não o ministro) deu uma entrevista coletiva. Jornalistas estavam excitados com tamanha operação, anunciada com a maior de todos os tempos e cobravam respostas do secretário. Ele deixou várias perguntas sem respostas, mostrou-se perdido e aumentou a temperatura e pressão na panela da imprensa.

Quando o Michel Temer apareceu (no dia seguinte), parecia dar rumo ao caso por parte do governo. Aí, ao final da reunião com embaixadores, foi jantar numa churrascaria de carnes importadas. Virou piada nacional.

O ministro, na sequência, ficou mais perdido que cego em tiroteio. Pareceu mais preocupado com mais uma notícia de corrupção no governo que com a repercussão para os mercados. Não gerou confiança. Quando começou a agir pensando nos mercados a carne nacional já tinha virado piada nacional com milhares de memes nas redes sociais, whatsapp inundado do papelão, não da carne, mas do governo. Acho que deu margem às piadas, preocupou-se mais com o próprio umbigo que com a cadeia produtiva. O ministro já deveria ter sido demitido. Deveria saber que a internet é mais rápida que o timing político.

E as empresas deixaram à mostra que o conluio entre empresários e políticos é uma prática que vai além dos empréstimos subsidiados, ao protecionismo e aos conchavos de gabinete. O "jeitinho" ficou evidente e a esperteza sobressaiu aos interesses dos consumidores. E concordo com você Bruno, foram lerdas, deu a entender que aguardam o esquecimento. Deveríamos esquecer suas marcas. A reação mais evidente foi o a especulação acerca de uma delação do presidente da J&F e o ressurgimento na tv do ex-presidente da Sadia, sumido desde que deixou o governo Lula e depois de ter quebrado sua empresa, salva numa operação de fusão. Estava em Brasília mexendo os pauzinhos pra abafar o caso. Sempre a saída da muleta estatal. As empresas menores apelaram para o sentimentalismo das demissões de funcionários. Piegas!

E no final o responsável foi o delegado que apurou maracutaias!

Acho que uma saída de certificação privada poderia ganhar mais relevância em relação à certificação governamental do SIF. Será que o governo é confiável mesmo para certificar qualidade?  Em quem o mercado internacional confia mais? Que ouçamos nossos clientes. Lembrei do Ney Bitencourt de Araújo, que foi presidente da Agroceres e da ABAG, ele dizia exatamente isso. Ouvir o cliente! por que o governo é incapaz de ouvir? por que ele acha que sabe o que é melhor para o consumidor? O setor é muito maior que meia dúzia de picaretas, fiscais do governo ou das empresas, é muito mais competente e vai dar a volta por cima. Se o governo deixar!
BRUNO VARELLA MIRANDA

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 03/04/2017

Prezado Roberto,



Agradeço a leitura atenta do artigo e os comentários. Sua percepção sempre ilumina novos aspectos do debate. Comento os pontos enumerados por você abaixo:



(i)     Concordo com a sua avaliação sobre a reação do governo. Não fui suficientemente claro ao apresentar meus argumentos. A definição "hiperatividade" elogiava a ação estatal. Conforme você afirmou, com enorme rapidez tanto o presidente Michel Temer quanto os ministros envolvidos deram uma resposta ao desafio.   



Por outro lado, é importante reconhecer a dinâmica das negociações internacionais. Uma pergunta inevitável é: a boa vontade de nossos parceiro comerciais depende de concessões futuras em outras áreas? Considero uma questão importante, pois nos permite ilustrar todos os custos - muitos dos quais pouco aparentes - de um escândalo como o atual.



(ii)     Também concordo com a sua avaliação sobre a atuação da Polícia Federal. De fato, o uso do adjetivo "espetaculoso" buscava demonstrar a minha visão: tratou-se de uma ação exagerada. Espero que motive uma reflexão sincera por parte dos responsáveis pela condução de operações policiais.



Precisamos encontrar formas de minimizar os danos a inocentes. A polícia tem uma tendência natural ao comportamento "espetaculoso", de modo que no curto prazo é importante nos perguntarmos: como estabelecer um sistema em que os eventuais exageros da polícia não atinjam milhões de indivíduos? O desafio de fundo é: como desenhar um sistema de fiscalização eficiente que, ao mesmo tempo, evite uma contaminação de todo o setor como resultado de casos como o atual?  



(iii)     Minha principal crítica diz respeito à letargia das principais empresas envolvidas no escândalo. Este seria o momento de tomar a dianteira e participar mais ativamente da discussão, assumindo responsabilidades e propondo melhorias. Muito se fala sobre os defeitos da burocracia estatal, mas a iniciativa privada precisa avançar em uma agenda propositiva. Até o momento, o tom parece ser "vocês estão enganados" quando, em realidade, no mínimo estamos diante de um problema de corrupção incentivado pelo atual desenho institucional do sistema de fiscalização.



Conforme já argumentei outras vezes, sinto que somos muito bons para "apagar incêndios". Porém, temos uma tendência a tirar lições limitadas dos percalços da vida. Por isso, acabamos cometendo os mesmos erros.



Obrigado novamente pelos comentários e pela constante predisposição ao debate de ideias.



Atenciosamente,



Bruno Miranda
ROBERTO TICOULAT

SÃO PAULO - SÃO PAULO

EM 03/04/2017

Bruno



Artigo como sempre muito interessante mas me permita ponderar os seguintes aspectos:



- houve sim uma reação imediata de todos os setores envolvidos, tendo o presidente da republica agido com muita eficiência ao convocar ministros e corpos diplomáticos. Mesmo sem ter conhecimento do conteudo de todo o processo o governo e as entidades de classe reagiram rapidamente e com muita eficácia. Sempre somos criticos ao governo federal mas, desta vez, tanto o governos federal como as entidades de classe reagiram com rapidez e com eficácia, a ponto de reverter o problema quase por completo.



- a operação foi espetaculosa e não havia problemas de risco de qualidade para o consumo



- em que lugar no mundo se vê a Policia Federal agindo como quarto poder? Cabe a Policia Federal trabalhar com consciência em suas atuações. Por exemplo se baseou em gravações e não consultou mesmo seus técnicos formados nesta área, mesmo tendo alardeado que estava há dois anos levantando dados (certamente dados de corrupção o que todos estamos de acordo)



Resumindo, a Policia Federal tem prestado um grande serviço à Nação corrigindo desvios que ocorreram em nossa sociedade e coibindo a continuidade deste processo de má utilização de recursos públicos mas, cometeu falhas neste processo da carne fraca.



Talvez isto sirva para melhorarmos muito a seguraça alimentar do Brasil e quem sabe diminuir a dependencia de tanta fiscalização. Todos nós sabemos que a dependência pode sim gerar vicios de procedimento ainda mais em nossa sociedade má formada.



Gostei do artigo mas tenho obrigação de ponderar este aspectos.



Muito obrigado pela contribuição



Grato



Roberto