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Dizem que café é saudável. E daí?

Por Bruno Varella Miranda, mestre em Administração pela USP e doutorando em Economia Agrícola pela Universidade de Missouri - Columbia

É crescente o interesse dos consumidores por entender aquilo que os alimenta. Na televisão, programas se dedicam diariamente à tarefa. Os amantes da leitura tampouco têm problemas em encontrar informação, bastando uma visita à banca de jornais mais próxima para uma ampla oferta de títulos. Pode-se mesmo dizer que é desnecessário interesse no tema para a obtenção de "conhecimento": boa parte dos sítios dedicados à publicação de notícias na Internet possuem seções dedicadas a tópicos como "saúde e bem-estar", ou publicam artigos sobre a questão em suas páginas iniciais.

Fanáticos ou não pelo tema, milhões de leitores ficaram sabendo que o governo dos Estados Unidos concluiu recentemente que o consumo moderado de café não implica riscos adicionais de doenças crônicas. Os amantes da bebida comemoraram, muitos representantes da indústria também. E, de fato, trata-se de uma boa notícia. Não deveríamos, entretanto, exagerar o alcance dessa conclusão, ou ligarmos estratégias de promoção do produto apenas às conclusões positivas trazidas pelos estudos científicos.

Como assim? Para entender o argumento introduzido acima, faz-se necessário avançar na cobertura dada à questão pela imprensa internacional. Conforme apontado por especialistas, as conclusões apresentadas pelo governo dos Estados Unidos buscam estabelecer uma referência de alcance nacional. Em outras palavras, por trás de tais palavras, está a intenção de informar mais de 300 milhões de indivíduos ao mesmo tempo.

Obviamente, inexistem recomendações únicas para toda a população de um país. Logo, é possível que o café não seja a melhor opção para uma porcentagem pequena de pessoas. Ocorre que essas minorias podem chegar a milhões dependendo do tamanho do grupo analisado; pensemos apenas no exemplo dos Estados Unidos e seus mais de 300 milhões de habitantes. De fato, os mesmos especialistas enfatizaram que a compreensão dos efeitos de um determinado alimento sobre nosso organismo depende de análises avançadas, cujo custo atual seria proibitivo para a maioria da população.

Um segundo desafio deriva das dificuldades de transformação do conhecimento científico em informação relevante para a população. Via de regra, o debate acadêmico se caracteriza pelo embate de distintas visões. Mesmo nos momentos de concordância, é necessário enorme cuidado antes de afirmar algo. Afinal, a típica pesquisa se caracteriza por diversas limitações, derivadas de escolhas de ordem metodológica, dificuldade em obter dados, escassez de recursos, limites de tempo para a execução, etc.

Contradições e limitações, porém, não costumam caber na típica manchete de jornal. Consequentemente, a transmissão das novidades vindas dos laboratórios muitas vezes oculta as fragilidades que as sustentam. O resultado: maior peso é dado, já no curto prazo, a conclusões que exigiriam anos antes de serem plenamente consolidadas na comunidade científica. Pode-se dizer que, ao transplantar um complexo debate para um ambiente caracterizado por textos curtos e a tendência à síntese, a imprensa acaba adicionando certo ruído ao processo de sedimentação do conhecimento.

Não estamos diante de um processo necessariamente benéfico ou nocivo. De fato, inexiste evidência conclusiva de que a divulgação quase instantânea de pesquisas científicas ao grande público afete a consolidação de consensos no longo prazo. Antes que todos concordem com um determinado tema, entretanto, muita discussão ocorrerá. A controvérsia é um importante motor da acadêmia, de modo que, para cada pesquisa apontando as vantagens do consumo de café, certamente aparecerão outras levantando alertas. Em ambos os casos, possivelmente os argumentos estarão baseados em métodos legítimos e argumentos razoáveis. E, inevitavelmente, tais conclusões serão afetadas pelas limitações já citadas.

Se você, prezado(a) leitor(a), fosse o responsável pela estratégia de promoção de uma marca, ou de um produto, seria conveniente depender dos resultados de um debate imprevisível? Estaria confortável com o fato de que a transmissão de informação entre inúmeros recipientes se caracteriza por pequenas "distorções"? A resposta mais prudente seria um "não". Política mais eficiente seria a exploração de diversos atributos ligados ao produto ao mesmo tempo, oferecendo uma espécie de proteção contra más notícias em qualquer dessas frentes. Dessa maneira, o impacto de uma eventual pesquisa com conclusões contrárias ao consumo de café poderia ser melhor contido, sendo compensado por outros benefícios.

Em resumo, dar atenção exagerada às boas notícias trazidas pela ciência pode ser um verdadeiro "tiro no pé". Ninguém sabe o que a próxima pesquisa concluirá, e tampouco sabemos como os consumidores responderiam a um eventual alerta. Anúncios como o realizado pelo governo dos Estados Unidos ajudam, mas não deveriam ser superestimados. Afinal, novas oportunidades de êxito não dependem tanto do consumo exagerado por cada indivíduo, mas da consolidação do hábito em uma parcela crescente da população mundial. Para isso, precisamos nos esforçar para manter um equilíbrio na promoção dos inúmeros atributos ligados ao café, e não apenas dos mais óbvios no curto prazo.

BRUNO VARELLA MIRANDA

Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri

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