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Afinal, qual era a função do Dunga?

POR SYLVIA SAES

E BRUNO VARELLA MIRANDA

BRUNO VARELLA MIRANDA

EM 14/07/2010

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A recente eliminação da seleção brasileira de futebol da Copa do Mundo tem motivado as mais variadas interpretações. Uma figura, em especial, constitui o alvo dessas análises: o treinador Dunga. Sua inexperiência, a falta de técnica nos tempos de jogador ou ainda a incapacidade de lidar com as pressões da imprensa; abundam razões para desqualificar o trabalho daquele que, segundo se dizia há quatro anos, chegava para por ordem na casa.

Respeitando a lógica da divisão do trabalho, não pretendemos rivalizar com os cronistas esportivos pela construção de uma teoria para o fracasso da seleção. De nossa parte, a combinação de um limitado conhecimento do tema com a descrença em relação à pureza do futebol faz com que uma análise baseada em aspectos meramente esportivos esteja fadada ao fracasso. Nossa proposta é discutir o papel do comandante em uma equipe; em outras palavras, para que servem os técnicos, os gerentes, enfim, a figura do chefe?

Monitoria e coordenação

Um tema que desafia os pesquisadores é a determinação de uma lógica para a ação coordenada na esfera social. Sem entrar nos pormenores do debate, hoje a maioria da comunidade acadêmica reconhece que os chamados custos de transação são um fator central na explicação da organização humana. Estes se fazem presentes em distintos contextos, e é importante notar que inexiste uma teoria capaz de unificar todos os desdobramentos de sua existência. Nada que impeça a discussão de problemas específicos, como o papel dos supervisores na rotina econômica.

A magnitude dos custos de transação em uma ação coordenada explica tanto a função desempenhada por um supervisor como a forma como as pessoas são recompensadas por seu esforço. Em um cenário desprovido de custos de transação, seria possível determinar com exatidão a contribuição individual para o resultado final do trabalho. Dessa maneira, o chefe se limitaria a coordenar as atividades da equipe, auxiliando-a a tirar o melhor proveito possível dos benefícios do trabalho conjunto.

Por uma série de razões, porém, a situação é mais complexa no mundo real. Em primeiro lugar, a existência dos custos de transação faz com que raramente seja possível mensurar com exatidão a participação individual em uma ação cooperativa. O supervisor, dessa forma, assume a missão de monitorar o esforço de cada membro da equipe, determinando as respectivas recompensas. Inclusive, muitas vezes esse pagamento é feito por meio de um critério menos trabalhoso: daí o porquê de os salários geralmente serem fixados segundo o número de horas, e não de acordo com cada atividade desempenhada ao longo do mês.

Um chefe, portanto, possui múltiplas funções na tarefa de comandar uma equipe. Tendo em vista um objetivo definido, este deve coordenar os indivíduos de modo a facilitar a interação coletiva. Igualmente, tem a prerrogativa de mensurar o esforço de cada integrante da equipe, determinando as recompensas respectivas. Conforme visto aqui, essa necessidade de monitoramento varia de acordo com a magnitude dos custos de transação, ou, em outras palavras, da dificuldade de mensuração da contribuição individual.

Dunga: monitor ou coordenador?

O transplante das ideias expostas acima para o campo futebolístico exige alguma abstração. No caso da seleção a recompensa recebida pelos jogadores é a participação na Copa, algo que não se traduz explicitamente em termos monetários. Além disso, uma equipe de futebol produz algo intangível, que é a qualidade do jogo apresentado. Não entraremos na discussão acerca da importância da vitória para a percepção humana sobre a qualidade de um time; as evidências mostram, porém, que é melhor perder jogando bonito do que com uma atuação medíocre. Ou seja, a excelência é sempre a melhor resposta.

Ao assumir a seleção brasileira de futebol, o discurso de Dunga era claro: seu objetivo era o de resgatar o orgulho na seleção brasileira. Para isso, baseou-se em um conjunto de valores que considerava fundamentais para o êxito da equipe, subordinando as convocações a essa interpretação. Como resultado, não foram poucos os jogadores esquecidos pelo treinador por apresentarem um comportamento considerado incompatível com a tradição da camisa verde e amarela.

Agindo dessa maneira, Dunga privilegiou o monitoramento em seu trabalho. Por trás da referência constante à busca por "coerência", o treinador criou um critério pessoal para mensurar a contribuição potencial de cada jogador, determinando as recompensas segundo essa medida. A prerrogativa da coordenação, ou seja, da organização da equipe no campo de jogo, dava-se após a determinação do perfil ideal de seus membros.

Pois bem, a pergunta que fazemos é: será tão difícil mensurar a contribuição potencial de um jogador de futebol? Era necessária a criação de um critério tão pessoal quanto o "comprometimento" para a determinação do grupo que foi à Copa? Embora a subjetividade jogue aqui o seu papel, suspeitamos que, no conjunto, a resposta seja negativa. Afinal, o principal objetivo do trabalho coletivo em uma equipe de futebol deveria ser o respeito pelos fundamentos do esporte.

Talvez Dunga tivesse dificuldade para mensurar objetivamente o quanto cada jogador poderia agregar no campo de jogo. Ou, ainda, não tenha atentado para o fato de que a falta de comprometimento de outras ocasiões não se refletia em variáveis abstratas, e sim nos resultados do time. Um atleta que se apresenta acima do peso, por exemplo, não prejudica o time por sua devoção por uma dieta calórica, e sim porque sua contribuição para o trabalho coletivo é menor a que recompensa que recebe - a convocação para a Copa.

Especulações a parte, o aspecto importante a ser resgatado é que Dunga, em sua paranóia pela identificação dos jogadores "comprometidos" com os ideais da seleção, acabou errando na mão no controle de sua equipe. Preocupado em monitorar cada aspecto extra-campo, esqueceu-se de que a única variável que poderia controlar é a qualidade do resultado do esforço coletivo de sua equipe. Pior, superestimou a sua capacidade de impedir a entrada de "ovelhas negras" na seleção, como se essa fosse a decisão mais importante.

O futebol, assim como a maioria esmagadora das ações coordenadas na esfera social, tem na criatividade uma de suas maiores forças. Exagerar na dose do monitoramento dificilmente contribui para o êxito. A Coréia do Norte é uma prova viva no plano estatal; na esfera privada, dezenas de empresas com dificuldade de inovar o sentem diariamente. A seleção de Dunga, com sua exaltação do controle estrito, constitui mais uma evidência dessa realidade.

SYLVIA SAES

Professora do Departamento de Administração da USP e coordenadora do Center for Organization Studies (CORS)

BRUNO VARELLA MIRANDA

Professor Assistente do Insper e Doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Missouri

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DORIEDSON MAGIERO

SÃO MATEUS - ESPÍRITO SANTO - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 20/07/2010

Muito bom artigo, é notório que a falta de equilibrio não nos leva ao sucesso pleno, sempre que nos desequilibramos nos agarrando muito a alguma coisas nos esquecemos de outras as vezes mais importantes. " Sempre falo que as vezes come gestores seguramos com tanta força as moedas de R$1,00 que quando as notas de R100,00 passam não conseguimos pega-las."
REGINALDO MOACIR BELEZE

IPAUÇU - SÃO PAULO - INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS

EM 20/07/2010

Na minha opinião o único debate que cabe é quanto ao aspecto piscicológico.Até o primeiro tempo do jogo contra a Holanda tudo vinha maravilhosamente bem, portanto o comandante vencia e não havia críticas a não ser pelo destemperamento com a imprensa. Após sofrer o primeiro gol a coisa desandou e foi por água abaixo, enquanto a Holanda perdendo trabalhava com incrível estabiliddade emocional e garra.
MICHELE ROCHA OTSUKA

ANDRADINA - SÃO PAULO

EM 15/07/2010

Agora é fácil escrever e escrever, depende de tantas coisas, não nos cabe julgar agora, os meninos jogadores tentaram, se jogou de mais ou de menos, cabe a eles mesmos responderem, criam um exagero muito grande em cima dos jogadores, seja de qual país for, totalmente desnecessário. Bom é minha opinião rsrs.
CARLOS EDUARDO COSTA MARIA

ANHEMBI - SÃO PAULO - INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS

EM 14/07/2010

Excelente, a analogia em relação à figura de quem é responsável pela coordenação ou liderança de qualquer atividade, o artigo nos mostra que nem sempre ser especialista na área é requisito importante para se alcançar, como lider, os objetivos de um empreendimento.Lógico que o conhecimento e a competência aliadas à experiência da atividade(no caso de dunga e maradona como ex-jogadores e experientes na participação de copas) é fundamental para a missão de liderança,mas existem, muitos outros fatores que determinam o êxito e aí não basta apenas ser o "patrão" ou apenas o "monitor" como deixa claro os autores é preciso contar com todas as possibilidades e não se prender apenas a um punhado de regulamentos que não interferem significativamente na obtenção do que se almeja.