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Reconhecido pelo seu mérito¹

POR CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

CELSO VEGRO

EM 13/05/2010

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A imprensa especializada em café noticiou o interesse dos administradores da Bolsa de Nova Iorque em aceitar a origem brasileira para as entregas dos Contratos C negociados por aquela praça. Como já é de amplo conhecimento, saudei essa notícia como a mais relevante para a corrente safra brasileira. Ademais, procurei suscitar as lideranças do agronegócio café em se empenhar por constituir imediatamente lobby, para junto à bolsa, fornecer as informações e estudos necessários e, paralelamente, se interpor a qualquer espécie de oposição que a iniciativa possa reunir (ao menos vigiar os passos dos "hermanos" colombianos).

Há cerca de sete anos, por iniciativa dos exportadores brasileiros, houve grande esforço articulado visando o aceite do registro de café lavado brasileiro nas entregas nova-iorquinas. Apesar do sério e competente trabalho desenvolvido, não se obteve o esperado êxito, pois os lobbies colombianos e centro-americanos pressionaram a estrutura legislativa estadunidense que, por sua vez, atuou junto aos administradores da bolsa de Nova Iorque no sentido de descartar essa possibilidade. O mais desalentador foi serem ouvidos comentários oficiosos de que houve pressão contrária partindo inclusive de interesses brasileiros, temerosos da perda de liquidez para as transações lastreadas no contrato futuro de natural.

Então, como explicar que transcorrido todo esse tempo o embaraçoso assunto volte à cena, mais ainda, liderado pelas autoridades da bolsa estadunidense. Para entender esse fato se faz necessário elencar outras dinâmicas que influenciaram e continuam influenciando essa abertura ao produto brasileiro. São quatro os principais fenômenos que agora legitimam e concedem suporte para a iniciativa estadunidense: 1) início e consolidação dos concursos de qualidade da illycafè; b) desenvolvimento tecnológico do cereja descascado(CD) por parte da Pinhalense S/A Máquinas Agrícolas (depois copiado por outras metalúrgicas); c) êxito do ingresso da Starbucks no mercado de casas de café dos grandes centros urbanos brasileiros e d) necessidade de proteção a riscos de preço daquela que é a mais volátil das commodities transacionada em bolsa de valores.

Em 1990, chega ao Brasil o saudoso Dr. Ernesto Illy para implantar uma nova ideia, criar um concurso de qualidade do café nos padrões de excelência habituais para a torrefadora triestina. Com o transcorrer dos certames a disputa ganhou notoriedade, conferindo reputação para regiões desvalorizadas pelo tradicionalíssimo comércio de café. Norte do Paraná; região de Piraju/SP; Zona da Mata mineira; planalto de Vitória da Conquista/BA, foram alguns dos cinturões produtores, que após a conquista do lugar mais elevado da premiação, lançaram-se organizadamente no esforço de maior melhoria da qualidade com vistas a consolidar a reputação de seu café que, pelo prêmio conquistado, foi imensamente alçada. Dentro de pouco tempo todos os cinturões produtores criaram seus certames regionais, estaduais e nacional, esse último encabeçado pela Associação Brasileira da Indústria do Café (ABIC). A mobilização pela qualidade mudou o padrão de bebida do café brasileiro que segue melhorando por meio da introdução de rotinas básicas como: separar os tipos em lavador, revolver mais vezes o café em terreiro mantendo camadas finas e controlar a temperatura do secador, entre outras ações de capacitação implementadas.

A melhoria da qualidade do café brasileiro é uma realidade que o mundo passou a reconhecer e mais, pretende pagar por isso! Caso vingue o aceite da origem brasileira em Nova Iorque, o incremento dos preços recebidos pelos cafeicultores pode alcançar entre R$40,00/sc a R$ 50,00/sc, para o café classificado dentro desse critério.

Quase que de forma concomitante ao surgimento do prêmio da illy, a Pinhalense lançava seu equipamento descascador. Por meio dele, se tornou possível separar cerejas dos frutos verdes e prepará-los, buscando a melhor qualidade que o tipo pode oferecer. A tecnologia de descascamento de café permitiu que os cafeicultores, mesmo situados em zonas não propícias à produção de qualidade de bebida e mantendo a colheita por derriça, pudessem produzir cafés de padrão gourmet. A penetração da tecnologia, aliada à crescente aceitação comercial dos grãos assim preparados, foi por mim, chamada da segunda maravilha do engenho brasileiro2. A progressão das vendas dos descascadores e o consequente aumento da oferta de CD já soma quantidade bastante expressiva, grosseiramente estimada entre 3 a 4 milhões de sacas.

A entrada da Starbucks no mercado brasileiro somente ocorre após a companhia se tornar um caso de imenso sucesso no mundo empresarial. Seu exponencial crescimento fez surgirem cenários em que, brevemente, estaria a rivalizar no ranking das marcas mais preciosas como a Microsoft ou outra firma de igual renome. Sua presença física no maior país produtor de café possibilitou que travasse contato com os padrões de qualidade de café que já se encontravam com relativa facilidade dentro das distintas regiões produtoras, especialmente, o CD. Informações extraoficiais sinalizam que o volume de CD adquirido pela companhia gira em torno das centenas de milhares de sacas. A Starbucks, recém entrante no mercado brasileiro, constitui apenas um das dezenas de exemplo de outros importadores (traders e torrefadores), que da mesma forma, descobriram a qualidade CD, que se tornou ainda mais cobiçada devido à escassez conjuntural do tipo lavado colombiano e centro americano. Ademais, não passou despercebida sua capacidade intrínseca em simplificar a formação das ligas voltadas para o espresso.

Maior quantidade de café de qualidade brasileiro negociado para além fronteiras, envolve, necessariamente, maiores riscos de preços. Sabidamente, o café é a commodity de maior volatilidade nas bolsas (embora nos últimos cinco anos tal amplitude de oscilação tenha-se arrefecido). Os importadores precisam se proteger dessas oscilações nas cotações, sendo a aquisição de posições em Nova Iorque a forma mais usual de transferir esse risco. Pois bem, sem a possibilidade de certificar café despolpado brasileiro (que junta tanto lavado como o descascado), os importadores assumem isoladamente imensos riscos durante a condução das transações. Portanto, a bolsa nova-iorquina não passará a certificar a origem brasileira por ter feito sua autocrítica e constatado um equivoco quando primeiro se tentou levar adiante o assunto. Passará a aceitar o produto brasileiro porque os importadores necessitam de hedge para cobrir suas posições no físico, garantindo a rentabilidade da operação comercial/industrial. Starbucks, traders, torrefadores e solubilizadores precisam de proteção e a bolsa precisa deles para aumentar a liquidez de seu contrato. Desse modo, a decisão não pode ser outra que não a de certificar a origem brasileira.

Como os agentes mencionados atuam no segmento, ou seja, necessitam da matéria prima para sua atividade, o contrato C sem entrega de café brasileiro não lhes confere apropriada segurança de preço. A crescente demanda pelo produto nacional se posiciona em um mercado cuja trajetória aponta para maior escassez, ou seja, nossa oferta cresce, abastece o mercado e a referência para o preço se forma sobre um produto crescentemente escasso. O aceite da origem brasileira mitigaria esse fato precificando melhor a posição comprada no físico dos importadores.

O assunto possui ainda outras nuanças como: expertise comercial do exportador brasileiro; diminuição da margem para tentativa de ganho na arbitragem NY versus SP; possibilidade da BM&FBovespa assumir parceria no credenciamento de produto certificado, entre outros, mas que aqui não levarei adiante. Para concluir, retomo o início do artigo quando lembramos a iniciativa do Dr. Ernesto Illy ao implementar o concurso de qualidade de café no Brasil. Não há quem deixe de perceber nesse pioneirismo a verdadeira mania que se transformou o empenho pela qualidade nos mais diferentes rincões em que se produz café nesse País. Não foram os mais de 180 anos de história comercial de café no Brasil que impuseram o assunto qualidade na pauta do negócio, mas o olhar visionário do itálico mestre. No caso em tela, se repete a mesma história, estrangeiros a oferecer soluções significantes para os constrangimentos que tolhem o desenvolvimento do agronegócio café brasileiro. Parece que padecemos todos da síndrome de vira-latas, como sagazmente definiu o caráter do povo brasileiro o insubstituível Nelson Rodrigues. Cafeicultores, o mérito é todo de vocês, saúdem-se com retumbantes vivas!!! Vira-latas; isso é para os outros, ou não é?

1 O autor agradece os comentários e sugestões efetuados pelo exportador Eduardo Carvalhaes.
2 A primeira foi o ressurgimento comercial do Bourbon Amarelo.

Leia mais sobre o assunto:

Entrega de café em NY é a melhor notícia em tempos

NY analisa aceitar entrega de arábica brasileiro

CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

Eng. Agr., MS Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade. Pesquisador Científico VI do IEA-APTA/SAA-SP

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CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

SÃO PAULO - SÃO PAULO

EM 14/05/2010

Caríssimo PH
Não tinha dúvidas de que você estaria a se pronunciar nesse espaço, especialmente, por haver citado a Pinhalense em meu artigo. Tenha certeza que essa nossa geração de entusiastas do agronegócio café brasileiro constitui-se num dos melhores, senão o melhor, grupo que um país pode amealhar.
Sua consideração para com esse escriba é verdadeiramente louvável.
Abçs
Celso Vegro
PAULO HENRIQUE LEME

LAVRAS - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 14/05/2010

Cruzada por NY

Caro Celso,

Brilhante seu artigo, que constrói de maneira inteligente e precisa toda a conjuntura que precede este importante momento da cafeicultura brasileira.

Para mim, engenheiro agrônomo/marketeiro que sempre defendeu a qualidade, esté é um momento para brindarmos os esforços dos cafeicultores e pesquisadores, que como você, caro Celso, sempre lutaram incansavelmente pela bandeira da qualidade.

Vamos em frente, porque este é assunto é de suma importância para a cafeicultura brasileira!

Aguardo o artigo sobre as questões operacionais. Penso que é muito importante levarmos esse deabte mais a fundo.


Um abraço,


Paulo Henrique Leme (PH)
CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

SÃO PAULO - SÃO PAULO

EM 14/05/2010

Amigo Rena
Quem me dera possuir o conhecimento em cafeicultura que você já acumula. O que escrevo são apenas curiosidades de alguém que é pago pela sociedade para tentar interpretar os fenômenos sociais. O acaso me jogou para o café e sobre esse tema tenho exaustivamente me debruçado. Das porções de fanfarronices que alardeio, algumas conseguem se destacar e se tornar coisa séria. Obrigado pelo seu voto.
Abçs
Celso Vegro
ALEMAR BRAGA RENA

VIÇOSA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 14/05/2010


Prezado Celso,

Não tenho conhecimentos técnico-científicos suficientes para comentar seus importantíssimos artigos, mas bom senso suficiente para interpretá-los. Por favor, continue insistindo nesse ponto, pois, usando suas palavras, ele representa o diamante da cafeicultura, talvez o maior achado das últimas décadas. Parabéns!
Rena
CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

SÃO PAULO - SÃO PAULO

EM 13/05/2010

Grande Sergião
Veja que não era brincadeira a história de que iria por no papel minhas consideraçõe sobre o aceite do café brasileiro no contrato C negociado em Nova Iorque. Penso que o balizamento que apresentei ao assunto norteará outras discussões, inclusive o próximo artigo que pretendo escrever sobre as condições operacionais da proposta de forma a não levar gato por lebre.
A história do CD na illy está corretíssima. Não a mencionei no artigo e foi ótima a sua lembrança.
Abçs a todos ai em Lavras.
O PH deve se pronunciar ainda. Vamos aguardar.
Att
Celso Vegro
SERGIO PARREIRAS PEREIRA

CAMPINAS - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 13/05/2010

Celso,

Quero cumprimentá-lo pelas análises e pelo artigo. Sempre muito pertinentes.
Gostaria de lembrar que nos primeiros anos do Prêmio Brasil de Qualidade do Café para "Espresso", da italiana illy, havia a exigência de se encaminhar apenas café natural. A conseqüência era a hegemonia dos Cafés do Cerrado perante às demais regiões chegando a totalizar todos os cinqüenta finalistas.
Não me lembro ao certo em que ano que a torrefadora italiana se rendeu ao Cereja Descascado (CD) brasileiro, mas ao permitir o encaminhamento dessa modalidade, abriu "a porteira" para muitas regiões, consideradas hoje entre as melhores do país.

Estaremos agora abrindo outras "porteiras" com a participação do café brasileiro contrato tipo C da Bolsa de NY (ICE Futures US) ???
Creio que sim.....

Saudações Cafeeiras....