ENTRAR COM FACEBOOK ESQUECI MINHA SENHA SOU UM NOVO USUÁRIO

O Levante da catação

POR CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

E EDUARDO HERON SANTOS

CELSO VEGRO

EM 10/02/2016

7
0
Por Celso Luis Rodrigues Vegro, pesquisador do IEA e Eduardo Heron dos Santos, diretor técnico do Cecafé


Taunay na “Pequena História do Café no Brasil”1, registra que o primeiro embarque de café, realizado em 1616, pela Companhia das Índias Orientais com destino à Holanda, proveio da região denominada à época de Levante, ou Grande Síria, território que englobava o atual País mais a Jordânia, Israel e a Palestina. Curiosamente, o Levante voltou ao momento histórico atual, em razão de se assemelhar ao território reivindicado pelo Estado Islâmico para a constituição de seu pretenso califado.

Se por um lado a conexão entre o Levante e o comércio de café possa ser historicamente estabelecido, a deficiência do levante (amento), no caso estatístico, da safra de café brasileira, por outro, teima em perdurar. Por dois anos consecutivos, 2014 e 2015, o Brasil embarcou rumo ao exterior quantidades recordes de café que, quando acrescentadas ao consumo interno (estimativa de entidade privada provavelmente alavancada2) e a estimativa pública dos estoques de passagem (também bastante imprecisa) produz inconsistência abissal frente a estimativa de produção.

O cadastro de estabelecimentos rurais, empregado no processo de amostragem estatística para a elaboração de estimativa da produção, provém do Censo Agropecuário de 2006. Após dez anos essa base defasou, amplificando desvios em qualquer tentativa metodologicamente consistente de constituição de amostra representativa dessa população3. Lamentavelmente, com o derretimento fiscal do Estado, a esperança de que um novo recenseamento seja brevemente conduzido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é praticamente nula.

Para além dessa deficiência de dados estatísticos, outro aspecto que poderia oferecer ajustamento mais preciso para a safra brasileira de café seria a contabilização da chamada catação. Com o avanço tecnológico/agronômico dos últimos 25 anos, lavouras em segunda metade da fase de formação (18 a 30 meses após o plantio) exibem catações em quantidades que, por vezes, superam a média de lavouras em fase de produção, especialmente quando irrigadas. Tal constatação é mais efetiva para o conilon do que para o arábica, tendo em vista o salto de produtividade obtido a partir dos sistemas de produção com emprego das variedades clonais.

Esforço em calcular subjetivamente a quantidade oriunda da catação foi conduzido a partir dos dados finais da previsão de safra 2015/2016 da Conab4. Pelo relatório apresentado, havia no País 324.205 ha de lavouras em formação, repartidos entre 287.109 de arábica e 37.096 de conilon.

Considerando como primeiro critério5 que 40% dessa área encontra-se na etapa mais adiantada da formação, ou seja, entre 18 a 30 meses do plantio, pode-se extrair área provável ocupada por lavouras nesse perfil. Ademais, como segundo critério, pode-se imputar, tanto para arábica quanto para conilon, percentuais para o manejo agronômico da irrigação. Adotados esses critérios, obteve-se que a área em formação das lavouras entre 18 a 30 meses cultivadas sob sequeiro somaria área de 98.721 ha sendo outros 30.960 ha cultivados sob irrigação (Tabela 1)




Para o caso do conilon entendeu-se apropriado segmentar essa lavoura em dois grupos. O primeiro, mais tecnologicamente avançado, estabelecido no norte capixaba e sul da Bahia e o segundo, relativamente menos evoluído, em Rondônia. Ademais, adotou-se menor cobertura para a irrigação para o cinturão rondoniense em razão do clima tipicamente amazônico com grande incidência de precipitações bem distribuídas ao longo do ano.

De posse das estimativas de área e de manejo, partiu-se para a simulação de produção a partir de dois cenários para a produtividade: A (pessimista) e B (otimista), mantendo o critério de manejo agronômico de condução sob sequeiro ou irrigado (Tabela 2).




Pelas estimativas obtidas a catação das lavouras entre 18 a 30 meses em arábica sequeiro podem oscilar entre 976 mil e 1,95 milhão de sacas de café beneficiado apenas para a safra 2015/2016. Para a mesma variedade, porém sob manejo irrigado, a catação alcançaria entre 517 e 689 mil sacas. Totalizando a catação obtida em arábica e conilon sob o manejo de sequeiro e irrigado, seriam acrescentados à produção 2,07 milhões sacas no cenário pessimista (A). Por sua vez, no cenário otimista (B), a catação de lavouras em sequeiro e irrigadas poderia render até 3,49 milhões de sacas (Tabela 3).




Provavelmente, a produção real oriunda da catação em 2015/2016 deva se situar entre os dois números estimados. A previsão efetuada concentrou-se na última safra apenas, que casualmente foi a que maior área em formação exibiu na atual década. Portanto, para as safras passadas o intervalo entre os cenários deve posicionar-se em patamares inferiores ao obtido nessa simulação.

O avanço tecnológico observado no manejo agronômico das lavouras de café exige que se reveja o modo como se constroem as estimativas de produção. Desprezar a quantidade colhida oriunda da catação obtida em lavouras em fase adiantada de formação, aparentemente, consiste em falha que pode ser corrigida a partir da agregação de mais uma pergunta na enquete aos cafeicultores ou, alternativamente, passar-se a considerar lavouras comerciais todas aquelas com mais de 18 meses de plantio agregando à produção comercial aquela oriunda da catação.

____________________________________________________________________

1 TAUNAY, Affonso de E. Pequena História do Café no Brasil (1727-1940). Instituto Brasileiro do Café, 1943. 480p.
2 Ao menos a estimativa de consumo nas propriedades produtoras de café avaliada, pela entidade que a produz, em um milhão de sacas, pode conter entre 600 a 800 mil sacas de sobrestimativa, conforme já se averiguou a partir de recenseamento realizado para o caso paulista.
3 A Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Estado de Minas Gerais em parceria com a Universidade Federal de Lavras (Ufla) iniciou, em 2015, projeto de georreferenciamento da cafeicultura estadual. Convêm salientar que o ajuste da área que será obtido pela técnica carece ainda de visitas de campo para mensuração da produtividade. Detalhes em: http://revistagloborural.globo.com/Noticias/Agricultura/Cafe/noticia/2015/06/mg-investira-r-5-mi-em-georreferenciamento-de-parque-cafeeiro.html > Acesso em 04/01/2016.
4 Relatório disponível em: http://www.conab.gov.br/OlalaCMS/uploads/arquivos/15_12_17_09_02_47_boletim_cafe_dezembro_2015_2.pdf > Acesso em 04/01/2016.
5 Todo critério é arbitrário, portanto, passível de contestação a partir de perspectivas alternativas. Como enfatizado, trata-se de esforço subjetivo com intuito de aprimoramento da estatística de produção.
6 O objetivo em estratificar a elaboração da estimativa, orientou-se no sentido de produzir aproximações mais reais, embora a subjetividade do método permaneça como principal limitação.


Celso Luis Rodrigues Vegro
Eng. Agr., M.S., Pesquisador Científico do IEA
celvegro@iea.sp.gov.br

Eduardo Heron dos Santos
Cientista da Computação, Diretor Técnico do Cecafé
eduardo@cecafe.com.br

CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

Eng. Agr., MS Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade. Pesquisador Científico VI do IEA-APTA/SAA-SP

EDUARDO HERON SANTOS

Cientista da Computação; Gerente de TI do CeCAFE - Conselho dos Exportadores de Café

7

DEIXE SUA OPINIÃO SOBRE ESSE ARTIGO! SEGUIR COMENTÁRIOS

5000 caracteres restantes
ANEXAR IMAGEM
ANEXAR IMAGEM

Selecione a imagem

INSERIR VÍDEO
INSERIR VÍDEO

Copie o endereço (URL) do vídeo, direto da barra de endereços de seu navegador, e cole-a abaixo:

Todos os comentários são moderados pela equipe CaféPoint, e as opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores. Contamos com sua colaboração. Obrigado.

SEU COMENTÁRIO FOI ENVIADO COM SUCESSO!

Você pode fazer mais comentários se desejar. Eles serão publicados após a analise da nossa equipe.

CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

SÃO PAULO - SÃO PAULO

EM 12/02/2016

Prezada Natália

Tanto eu como o Eduardo somos fãs de seu trabalho também.

Grato pelo prestígio.

Att

Celso Vegro
NATÁLIA SAMPAIO FERNANDES

BRASÍLIA - DISTRITO FEDERAL

EM 12/02/2016

Parabéns pelo trabalho! Excelente análise! Não esperava menos de dois autores tão competentes =)



Trabalhos como esse são imprescindíveis para a reflexão e desenvolvimento da cadeia produtiva.



Abraço,

Natália
CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

SÃO PAULO - SÃO PAULO

EM 12/02/2016

Prezada Joana

Grato pelo prestígio

Att

Celso Vegro
ANTONIO COSTA REIS

ITAMOGI - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 11/02/2016

É inadmissível que o governo deixa uma riqueza dessas, chamada café nas mãos de especuladores
JOANA D ARC TEIXEIRA DE FARIA

CALIFÓRNIA - PARANÁ - PROVA/ESPECIALISTA EM QUALIDADE DE CAFÉ

EM 11/02/2016

Depois do extinto IBC as estimativas de safra são sofríveis.... Lembro que um Presidente de Associação de produtores de café questionou tal fato e foi quase linchado ....MUITO OPORTUNA a matéria, pois conforme o comentário de francisco ourique :" Por enquanto, essa precária situação vem aparentemente dando ao produtor, em função dos precos em reais dos últimos anos, a sensação de que é melhor não mexer em nada.

Ledo engano. Quando o clima permitir, variável independente, vamos, lamentavelmente, assistir a estimativas substancialmente elevadas sem podermos fazer nada a respeito, não temos um sistema de informações que o mercado possa acreditar." cria uma situação letárgica nos produtores invisto ou não... renovo ou não...
CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

SÃO PAULO - SÃO PAULO

EM 11/02/2016

Prezado Francisco Ourique

Grande satisfação em reencontrá-lo nesse espaço virtual.

De fato o artigo contribui de maneira consistente para decifrar parte do enigma sobre a falta de convergência entre as estatísticas de café do Brasil. Lembremos que ainda há o ajuste dos números do consumo para que ocorra plena convergência.

Melhorar o trabalho no campo vai depender de um novo Censo Agropecuário que como sabemos deverá ser mais uma vez adiado. Cadastro é tudo em previsões de safra assim como o emprego de imagens.

Abçs

Celso Vegro
FRANCISCO OURIQUE

RIO DE JANEIRO - RIO DE JANEIRO

EM 11/02/2016

Parabéns pelo trabalho.

Certamente o fluxo de saída dos últimos anos, trabalho que pode ser extendido para décadas, revela uma contradição: sai mais café para consumo do que as estimativas de producao indicam.

Nos últimos vinte anos varias tentativas de discussão institucional foram iniciadas para o Brasil implementar um levantamento completo da sua cafeicultura. Não ha meia solução, ou levantamos o universo e aplicamos técnicas de amostragem, ou ficaremos tateando a questão na expectativa de acompanhar que número o mercado irá acreditar. Nos últimos três anos safra, por força de regimes climáticos anormais, estimativas mais conservadoras tem prevalecido ficando o excelente fluxo de desaparecimento explicado por estoques de safras anteriores, o que o artigo em questão, de forma corajosa e direta, também lança objetivamente dúvidas. De certo, o Brasil esta totalmente cego, vamos tateando os contornos na busca de conhecermos a situação. Area em produção, adensamento por hectare, precocidade de produção de cafeeiros novos, idade da população cafeeira, nùmero de propriedades, enfim, todas as necessárias informações para um planejamento mínimo, do produtor até o consumidor, hoje sao matérias de pesquisa e avaliação dispersas, sem um sistema capaz de dar e agregar informações formando um sistema.

Por enquanto, essa precária situação vem aparentemente dando ao produtor, em função dos precos em reais dos últimos anos, a sensação de que é melhor não mexer em nada.

Ledo engano. Quando o clima permitir, variável independente, vamos, lamentavelmente, assistir a estimativas substancialmente elevadas sem podermos fazer nada a respeito, não temos um sistema de informações que o mercado possa acreditar.    

Parabéns aos autores do artigo pela coragem e por terem tratado de todos os aspectos do fundamental assunto: qual é a  produção brasileira de cafe.