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Menos 5%

POR CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

CELSO VEGRO

EM 18/08/2010

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Há que se reconhecer que nos últimos 20 anos a cafeicultura brasileira se reinventou. Amparada por inovações tecnológicas, os ganhos de produtividade se incrementam, em média, para o arábica, cerca de 1,0 saco de café beneficiado por hectare a cada três safras, ou seja, a média atual de produtividade das lavouras já avançou 8 sc/ha. Saiu-se de apenas 12 sc/ha para pouco mais de 20sc/ha.

Do mesmo modo que outros cultivos, no café, a expansão da área cultivada não foi significativa (o Oeste da Bahia é a única exceção), enquanto que o maior rendimento das lavouras é aquilo que efetivamente responde pelo salto no patamar de oferta de produto. Outra constatação importante é o encolhimento da amplitude do ciclo bienal, com variações menos intensas entre as produções em safras de ciclo de alta e de baixa.

O avanço da tecnologia agronômica é, portanto, incontestável. Concomitantemente, houve a intensificação da motomecanização das lavouras, especialmente, na etapa da colheita. Nesse capítulo, o interesse determinante está em incrementar os ganhos de produtividade do trabalho. Não são raras as ocasiões em que o custo da mão de obra de colheita do café supera os 50% dos custos totais de produção, constituindo-se no mais importante constrangimento para a manutenção competitiva da lavoura. Assim, cultivos situados em planaltos passaram a ser moldadas para a entrada das máquinas. As áreas renovadas sempre são planejadas com foco em realizar mecanicamente a colheita. Outros talhões situados em relevos mais ondulados, se não partiram para as máquinas automotrizes/arrasto, enxergaram nas derriçadoras costais uma alternativa para atender para com o inelutável crescimento da produtividade do trabalho.

Inicialmente, importadas do Hawai/EUA, as máquinas para colher café foram sendo aprimoradas com substanciais contribuições da montadora paulista JACTO, que criou um equipamento adaptado às condições brasileiras. Todavia, o vetor favorável à decisão de mecanização completa da colheita somente ganhou impulso nessa última década. Com a melhoria da eficácia dos equipamentos; a concessão de financiamento facilitado para as aquisições (FINAME e MODERFROTA) e, principalmente, o encarecimento e escasseamento da mão de obra de colheita tornaram inapelável a decisão por se mecanizar.

O êxito das políticas de assistência social dirigidas aos pobres rurais é um dos exemplos de combate a pobreza mais bem sucedido no mundo. Tanto a Previdência Social como o Bolsa Família, melhoraram as condições de sobrevivência dessa parcela da população que passou a prescindir das ofertas sazonais de emprego. A colheita do café sempre foi um dos mais importantes movimentos migratórios internos, deslocando trabalhadores rurais do Nordeste e Vale do Jequitinhonha para o Centro-Sul cafeicultor. A escassez de trabalhadores para a realização da colheita deriva, parcialmente, desse correto esforço em erradicar a pobreza no campo.

Estima-se que regiões como os cerrados (mineiro, baiano e paulista) a parcela majoritária da colheita ocorra mecanicamente. Noutros cinturões com topografia favorável a mecanização da colheita, também, já é amplamente empregada. Naquelas em que a topografia acidentada impede a circulação das máquinas, as derriçadoras costais são opções bastante convenientes. Assim, a colheita essencialmente manual restou apenas para os pequenos cafeicultores com perfil familiar. Esse grupo é o mais numeroso dentro da cafeicultura brasileira, porém a cada safra que se encerra, passa a responder por menor parcela do café colhido no compito da oferta global do País.

Inquestionável tornou-se a irrevogabilidade da mecanização da colheita do café no Brasil. Todavia, um elemento tem deixado de ser contabilizado dentro dessa inexorável trajetória: o aumento das perdas. Por melhores que sejam os equipamentos e, ainda, por mais bem regulados que estejam as perdas de frutos das árvores é da ordem de 5% no mínimo. Ademais, a mesma mão de obra que escasseia para realizar a colheita também falta para a varreção e repasse. Tomando em conta seu custo diário o procedimento se confirma como economicamente inviável. Os 5% se concretizam como perda quase irrecuperável.

O aumento das perdas devido à colheita mecânica associados às perdas decorrentes da queda dos frutos temporões e aqueles que sobram na planta que já não mais receberá repasses é um tema importante para a pesquisa. Acredito que os 5% menos decorrentes da mecanização da colheita, possam mais que dobrar em razão da atuação dos demais fatores apontados.

Os técnicos quando visitam uma lavoura para estimar o potencial de colheita, normalmente, avaliam o café na planta. O número final da safra que encerrou é levantado quando ocorre a primeira previsão da próxima safra, quando então o entrevistador questiona o cafeicultor sobre quanto efetivamente foi colhido em sua propriedade. Porém, quando esse novo número vem a tona, contabilizadas as perdas na colheita, o mercado está completamente voltado para a próxima safra e o esforço de ajustar ao real a quantidade colhida é quase que ignorado.

Excetuando-se os cafeicultores e suas cooperativas, todo o restante do agronegócio trabalha com as mais otimistas expectativas para safra. Essa extraordinária confiança com a produção brasileira precisa ser temperada com os 5% menos. Feito isso teríamos todos nós números mais convergentes para o futuro suprimento do mercado pelo produto mais genuinamente brasileiro.

CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

Eng. Agr., MS Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade. Pesquisador Científico VI do IEA-APTA/SAA-SP

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CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

SÃO PAULO - SÃO PAULO

EM 19/08/2010

Amigo PH

Especialistas como você é que servem de farol para aquilo que faço.

Abçs
Celso Vegro
PAULO HENRIQUE LEME

LAVRAS - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 19/08/2010

Caro Celso,

Eis que a mecanização da colheita torna-se um fato. Agora é necessário ajustarmos as análises e novos direcionamentos para esta realidade.

Excelente artigo.

(Que bom que voltou!)

Paulo Henrique Leme (PH)
P&A Marketing Internacional
CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

SÃO PAULO - SÃO PAULO

EM 19/08/2010

Prezado Antônio Augusto Reis

Grato pelas palavras sempre encorajadoras.

Abçs


Celso Vegro
CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

SÃO PAULO - SÃO PAULO

EM 18/08/2010

Prezado Juliano Tarabal

Somente posso endoçar suas considerações. Temos ferramentas estatísticas para dimensionar o quanto de café vem sendo perdido pelo processo de colheita mecânica e pela falta de mão de obra de colheita. Iremos avançar para isso pode nisso se assegurar.

Abraços

Celso Vegro
ANTONIO AUGUSTO REIS

VARGINHA - MINAS GERAIS

EM 18/08/2010

Caro Luiz Vegro,

sua análise está correta por esse motivo além da existência de outros. De qualquer maneira, seus comentários são pertinentes à sustentabilidade de preços, contribuindo um pouco mais, na melhoria do faturamento dos produtores em pleno periodo de safra.

Gostaria de ver aqueles propagadores de safra superior a cinquenta milhões de sacas para este ano e denegridores de preços por essas falsas previsões, retornando a baila, para justificar porque erraram tanto... e, qual o interesse em prejudicar uma classe sofredora já combalida e endividada pela ausência de rentabilidade na atividade.

Parabéns pela credibilidade da informação contribuindo na construção de uma base de dados mais confiável para todos nós.
JULIANO TARABAL

PATROCÍNIO - MINAS GERAIS

EM 18/08/2010

Caro Celso Vegro,

Muito pertinente esse artigo. Levando em conta uma questão que não tem mais volta, a mecanização da colheita do café devemos agora caminhar para avançar rumo a melhoria das máquinas que temos no mercado. As empresas devem aperfeiçoar as máquinas visando a menor queda ou a não queda de café no chão, ja que temos estimativas de técnicos aqui no Cerrado Mineiro até 20% do café ficando no chão. O custo para "levantar" o café, a imobilização nestas máquinas, isto tudo pode acabar se as colhedoras não deixarem café cair no chão. Sem falar na qualidade deste café que cai ao chão qu se torna muito pior.

Neste sentido a pressão positiva do setor produtivo sobre os fabricantes, na verdade um trabalho em conjunto, onde o setor converse mais e troque mais informações é fundamental.

Abraço,

Juliano Tarabal
Fundação Café do Cerrado