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IEA: Efeitos das mudanças climáticas vão além do imaginado

POR NELSON BATISTA MARTIN

E CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

CELSO VEGRO

EM 10/01/2007

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A primeira estimativa oficial da nova safra de café confirmou aquilo que já havia sido aqui antecipado. Ou seja, uma temporada em que a oferta será bastante reduzida frente às necessidades de abastecimento do mercado interno e ao atendimento dos clientes internacionais, ainda que se recorram aos parcos estoques existentes.

Nesse contexto e sem desprezar notícias como a da já anunciada produção de cerca de 15 milhões de sacas no Vietnã, as cotações persistiram pressionadas. Em dezembro, na Bolsa de Nova Iorque, o café arábica acumulou ganho de 6,49%, contrato C para a segunda posição, frente à média do mês anterior, contabilizando US$ 168,87 a saca. Esse valor representou mais de US$ 10,30/saca de incremento nas cotações somente no último mês do ano. Todavia, para essa bolsa, no acumulado do ano, a média das cotações permaneceu praticamente estável, com apenas ligeiro aumento de 0,66% frente a 2005 (gráfico 1).


Fonte: Elaborado a partir de dados da Gazeta Mercantil

Gráfico 1 - Cotações médias mensais do café em diferentes mercados de futuros (segunda posição) e do OIC-Composto diário, jan.2004 a dez.2006

Na Bolsa de Londres, as cotações de dezembro de 2006 para o café robusta registraram declínio de 0,38% frente ao mês anterior. Diferentemente daquilo que se observou para o arábica, a evolução das cotações do café robusta ao longo de 2006 exibiu ganho de aproximadamente US$ 18,00/saca, com preço médio no ano de US$ 79,28/saca.

No mercado de futuros da BM&F, bastante aderente ao que foi observado em Nova Iorque, as cotações apresentaram ganho de 6,52% (segunda posição). Essa variação positiva, entretanto, foi incapaz de sustentar uma média das cotações para 2006 superior à de 2005, pois se situou em US$ 132,69 (enquanto no ano anterior registrou US$ 134,05).

Finalmente, o indicador OIC-Composto diário apresentou incremento de 4,48% em relação à média do índice de novembro (gráfico 1). Para o fechamento do ano, o indicador exibiu crescimento de aproximadamente 7,15% frente a 2005.

O diferencial das cotações observadas entre a BM&F e Nova Iorque cresceu para US$ 15,63/saca, cerca de 0,50% superior à média do mês anterior. A recomposição de margens dos traders e exportadores foi tendência bastante forte em 2006, já que o diferencial exibia o valor de apenas US$ 8,92/saca (gráfico 2 ).


Fonte: Elaborado a partir de dados da Gazeta Mercantil

Gráfico 2 - Cotações médias mensais do café arábica, segunda posição, nos mercados de Nova Iorque e BM&F, 2006.

As cotações do arábica, contrato C, segunda posição, na Bolsa de Nova Iorque, exibiram grande volatilidade (mínimo de US$ 164,29/saca e máximo de US$ 174,41/saca), porém com tendência prevalecente de ganho ao longo do mês de dezembro (gráfico 3).


Fonte: Elaborado a partir de dados da Gazeta Mercantil

Gráfico 3 - Cotações diárias na Bolsa de Nova Iorque, para café arábica, Contrato C, segunda posição, dezembro 2006.

O comportamento das cotações no mercado de robusta, na Bolsa de Londres, foi mais firme do que aquele exibido pela Bolsa de Nova Iorque, uma vez que apresentou um movimento de baixa enquanto os demais tiveram alta. Ao primeiro dia do mês, a cotação praticada foi de US$ 86,76/saca e, no último dia de movimentação na bolsa (29/12), essa cotação batia na casa dos US$ 95,40/saca (gráfico 4).


Fonte: Elaborado a partir de dados da Gazeta Mercantil

Gráfico 4 - Cotações diárias para o café robusta, segunda posição, na Bolsa de Londres, dezembro de 2006.

No mercado para a cafeicultura paulista, as cotações médias de dezembro do arábica (em R$/sc) cresceram mais de 13% em relação à média de novembro de 2006, em função dos ganhos registrados para o produto no mercado internacional. Mesmo diante dessa majoração positiva, na média do ano, houve declínio nos preços de 10,67% em 2006, frente à média ano de 2005 (gráfico 5).


Fonte: Elaborado a partir de dados do Instituto de Economia Agrícola

Gráfico 5 - Preços médios mensais recebidos pelos produtores de café arábica, Estado de São Paulo, jan. 2002 a dez. 2006.

Mudanças climáticas e o consumo de café

O inverno com aparência de primavera no hemisfério norte tem assustado a maior parte dos climatologistas, pois confirma a hipótese de que o globo está a se aquecer. Em decorrência dessas elevadas temperaturas, o mercado de commodities já exibe suas primeiras vítimas.

Inverno mais ameno significa menos consumo de derivados de petróleo para gerar energia utilizada no aquecimento das residências. Menor demanda traduz-se de imediato em menores cotações, que no atual momento verdadeiramente desabaram. No mercado de café, fenômeno de mesma natureza está a se processar.

A estação invernal do hemisfério norte é sempre muito aguardada pelos agentes do mercado de café, pois há, efetivamente, maior consumo da bebida não apenas por causa do frio em si, mas, sobretudo, pela dificuldade imposta ao deslocamento. E, estando mais tempo em seus lares, as pessoas acabam por consumir mais café. Entretanto, as temperaturas mais elevadas registradas até agora deverão ser interpretadas como um indicador indireto de menor demanda pela bebida, que com certeza será traduzida por baixa nas cotações.

Antes de se configurar esse ´tórrido´ inverno no norte, todos os analistas do mercado de café eram unânimes em afirmar que os preços deveriam seguir pressionados desde o final de 2006 e até pelo menos março de 2007. Porém, o atual calor pode ser um balde de água fria nas expectativas quanto à evolução das cotações.

A discussão sobre os impactos das mudanças climáticas sobre os cinturões produtores de café no Brasil já aparece no desenho de cenários futuros para essa cultura. O aspecto novo nesse debate é que o consumo da bebida também está negativamente afetado pelas altas temperaturas globais. Ações corretivas precisam ser imediatamente implementadas, pois nada mais assustador que um mundo consumindo menos café.

Artigo publicado originalmente em www.iea.sp.gov.br e registrado na CCTC-IEA sob número HP-04/2007.

Publicado no CaféPoint mediante autorização dos autores.

NELSON BATISTA MARTIN

Engenheiro Agrônomo, MS em Economia - Gestão de negócios de recria-engorda em Lucélia, oeste do Estado de Sâo Paulo

CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

Eng. Agr., MS Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade. Pesquisador Científico VI do IEA-APTA/SAA-SP

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LENNART VEIGA DIAS

CARMO DA CACHOEIRA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 21/01/2007

Aquecimento Global...

A previsão baixista levou em consideração somente a queda do consumo. Qual a influência do aquecimento na produção? Esse aquecimento que diminui o consumo nos paises do hemisfério norte não seria o mesmo que influenciou a florada desse ano? Se for, o preço do café irá estourar nas bolsas, pois a quebra de safra será bem maior que a do consumo. Estamos vendo a safra cair e o consumo aumentar.

Parabéns aos Mestres do IEA pela pesquisa, mas não teríamos que analisar os dois lados da moeda? O efeito do aquecimento não traria danos às lavouras situadas em locais mais quentes?

Um abraço, Lennart.
PAULO FAVERET FILHO

INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS

EM 12/01/2007

Caros Nelson e Celso,

Parabéns pelo artigo, que traz à baila um tema da maior importância! Realmente, nesse inverno, como diz a garotada, "a ficha do aquecimento global caiu" nos EUA. O pessoal está assustadíssimo com o inverno prá lá de ameno da Costa Leste, ao mesmo tempo em que, no Colorado, as nevascas se sucedem.

O lado positivo é que isso e a vitória dos democratas na Câmara prometem desatar o debate e, especialmente, as tão necessárias medidas do maior mercado do mundo. Cabe ao Brasil levar o assunto muito a sério e pensar em tudo com o máximo de antecedência.

Grande abraço,

Paulo Faveret
MARA FREITAS

LAVRAS - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 10/01/2007

Gostei muito desse artigo porque ele abre um precendente fundamental para as discussões relacionadas à sustentabilidade do agronegócio café ao longo das próximas décadas.

Em 2008 o Brasil sediará mais um evento de projeção internacional, que é o Congresso Internacional da ASIC, que tratará sobre os efeitos do café na saúde. Considerando a temática do artigo acima, é válido ressaltar que nosso país, tem importantes apelos no contexto ambiental que deveria corroborar diretamente para mudança do tema do referido congresso para as discussões sobre os efeitos do clima na cafeicultura. O Brasil sediou em 1992, aECO-92, é signatário do Protocolo de Kyoto, dispõem em seu território da biodiversidade mundial, que é a floresta amazônica e é um potencial vendedor de créditos de carbono, tanto que a BM&F é uma das primeiras bolsas de mercadorias mundiais a investir no assunto.

É hora do Brasil começar a pensar em cafeicultura sombreada, bem como em investir veementemente em proteção de nascentes de rios e bacias geográficas. O nosso maior exemplo de recuperação de matas até hoje registrado é a Estação Ecológica da Juréia, situada no Estado de São Paulo. Se plantarmos árvores hoje, em 10 anos contribuiremos para a vida num planeta melhor.

É preciso também repensar o cultivo do café na região do Cerrado, apesar de ser o grande cartão de visitas da cafeicultura nacional, em função de ser a primeira Denominação Geográfica Brasileira, porque é nessa mesma região, onde se situa o único bioma genuinamente nacional, é que está a grande caixa d´água do país: na região do Cerrado Brasileiro nascem a maioria dos nossos rios e em função das características do solo, também tem origem aí, o chamado Aquífero Guarani.

Quanto ao preparo do cafezinho, o calor realmente desprende gás carbônico, contudo, não numa escala idêntica à queimada realizada na Amazônia. Hoje, em função da intensificação do consumo de café robusta no país, estimulado pela indústria de café, temos no café, um potencial contribuinte para mais destruição das matas, por não contribuir diretamente para a sustentabilidade do planeta. Não devemos ampliar o número de lavouras, mas sim investir na qualidade das que já existem.

Penso que seria interessante estimular o desenvolvimento de soluções inteligentes que conduzam a combinação de promoção do comercial do café brasileiro com a preservação ambiental, que fuja ao modelo proposto pelos já existentes programas de certificação.

No mais, só cumprimento os professores mais uma vez por iniciarem esta importante discussão.