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Falso Dilema

POR CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

E FÉLIX SCHOUCHANA

CELSO VEGRO

EM 15/09/2015

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Na arquitetura do processo de valorização capitalista, o encurtamento das cadeias de negócios por meio do enxugamento, do número de agentes que nela atuam, é estratégia bastante usual. Fusões e aquisições compõem esse direcionamento, com empreendimentos sendo adquiridos para permitir maior controle da cadeia de suprimentos. Dentro dos ramos que constituem o agronegócio brasileiro, tal fenômeno é plenamente observável nas cadeias do suco cítrico, papel e celulose e cana de açúcar.

Foto ilustrativa: Lucas Albin/agencia ophelia/ Café Editora
Foto ilustrativa: Lucas Albin/agencia ophelia/ Café Editora


Para aqueles mercados em que tal estratégia não se mostra tão eficaz, particularmente nos que o atributo de qualidade é imperativo maior (café), o estabelecimento de vínculos com os ofertantes é decisivo, sobretudo quando a maior parte das companhias, possui linhas de produtos segmentados que demandam produtos com atributos de notória especialização. Companhias de diferentes portes (de microtorrefadoras a transnacionais) atuam junto aos reconhecidos cinturões de suprimento, visando estabelecer maior governança sobre seu negócio em que qualidade é determinante. Tal fenômeno não se traduz em partição do mercado (bolsa e spot), tratando-se antes de anseio dos agentes econômicos com intuito de melhorar a competitividade individual e sistêmica.

Assim, produtores de café de qualidade, empenhados em agregar valor ao produto, objetivando obter maiores receitas, devem mesmo se associar a empresas interessadas nesse produto, pois esse é o caminho mais curto para a concretização de suas metas. Em pesquisa sobre a produção e comercialização do cereja descascado, constatei que houve grande alteração no poder de barganha do cafeicultor que passou de comprado (quando produzia commodity) para leiloeiro de seu produto, tamanho o leque de interessados nessa bebida.

Premiações pecuniárias por excelência; participação em clubes exclusivos; converter-se em fornecedor exclusivo; receber ágio por adotar boas práticas agrícolas; estampar sua produção com rótulo ou marca que o diferencie pela raridade formam as estratégias que procuram melhorar o grau de governança da cadeia de suprimentos.

Maior governança, teoricamente, diminui risco. Todavia, irmão siamês de negócio é seu risco, independente de quantos elos está composta a cadeia. Por isso concluir que o mercado está dividido e que o mercado futuro não atende ao segmento, parece derrapada que não se espera de quem analisa mercados agroalimentares.

Em primeiro lugar é preciso compreender que a entrega de café em Bolsa de Futuros (no Brasil ou em NY), representa menos de 1% do volume transacionado (somados futuro com o físico), pois o objetivo do mercado futuro é a proteção quanto à volatilidade do preço (risco). Ademais, alegar que a volatilidade tem sido elevada nos últimos anos não quer dizer que continuará sendo para os próximos. São notórios os fatores conjunturais que intensificaram a volatilidade no mercado de café (anomalia climática no Brasil e epidemia de ferrugem na Centro América na temporada anterior e impactos do El Niño nas lavouras do sudeste asiático).

Volatilidade elevada deve ser a alavanca para mais procura por hedge e não ao contrário, promover a fuga de investidores. A volatilidade do café commodity (Contrato C – qualidade dos cafés da América Central e Colômbia) guarda grande paralelismo com aquela que apresentam os cafés de melhor qualidade ainda, assunto esse pacificado por trabalho recentemente publicado1. Defender posição contrária a essa, seduzindo-se por falsos dilemas, constitui em enorme temeridade, produz-se miopia frente ao real e não conhecimento apropriado.

A cotação estabelecida pelas transações ocorridas na bolsa, constitui apenas numa referência/sinalização da média de preço de determinada qualidade, transbordando essa indicação para demais negócios, independentemente de sua magnitude. Para cafés especiais e/ou certificados, de melhor qualidade, são negociados tomando-se a referência da bolsa acrescido de ágio/prêmio. Em situação contrária; para pior qualidade (natural brasileiro), ocorre deságio.

As transações que ocorrem em bolsa de valores e aquelas do mercado spot (suprimento) não ocorrem de forma vinculada no mesmo espaço. No físico mantém-se a necessidade de aproximação/encontro entre comprador e vendedor. O hedge em bolsa é feito de forma separada do físico e tem natureza mais financeira. O resultado final do hedge é a soma do físico e dos ajustes diários e por isso devem ser entendidos de forma agregada, embora ocorram em espaços diferentes.

Ademais, com o contínuo avanço da qualidade, o que atualmente é considerado especial estará incluído no domínio das commodity, submetendo-se a volatilidade das cotações em futuro próximo.

Teria razão o argumento da partição do mercado caso esse evoluísse para a celebração de contratos. Almejar patamar mais elevado para a coordenação do mercado de café por meio desse tipo de instrumento, usualmente, pautado pelo longo prazo entre os agentes, permitiria a substituição da gangorra dos preços (flutuação livre das cotações) por administração entre as partes. Tal desiderato, porém, não passa de raríssima exceção no mercado.

O mercado constitui-se em processo epistemológico e disso se esquece quem por vezes procura compreendê-lo. Ao naturalizar sua existência e funcionamento, passando-o para o domínio ontológico, limitam-se as perspectivas para sua análise. A construção e contínuo aprimoramento do mercado pertence ao esforço humano e novas configurações serão sempre testadas na busca e seleção daquelas que melhor exibam capacidade em coordenar os fluxos de negócios.

Celso Luis Rodrigues Vegro
Eng. Agr. Pesquisador Científico do IEA
celvegro@iea.sp.gov.br

Félix Schouchana
Economista, Professor e Consultor
felixsc@uol.com.br



1 Sobre o tema consultar: http://www.sapc.embrapa.br/arquivos/consorcio/spcb_anais/simposio9/219.pdf (conclusão principal: volatilidade do cereja descascado é similar ou maior que o do tipo 6 bebida dura)

CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

Eng. Agr., MS Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade. Pesquisador Científico VI do IEA-APTA/SAA-SP

FÉLIX SCHOUCHANA

Economista, Pós-Graduação em Economia, com especialização em Mercados Agrícolas, Diretor da BM&F de 2003 a 2008, Atualmente na Market FS Consultoria e Treinamento Ltda.

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