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Café: uma aurora de bem-aventuranças

POR CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

CELSO VEGRO

EM 11/03/2008

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Em fevereiro de 2008, as cotações internacionais do café nos diferentes mercados em que o produto é transacionado exibiram forte movimento ascendente, com substanciais elevações em dólares nas diversas praças. Em Nova Iorque, por exemplo, o ganho foi de 13,42% com cotação média do mês atingindo os US$ 205,66/sc (arábica contrato C, segunda posição). Tal incremento transmitiu-se para os demais mercados com ganhos de 9,29% na BM&F (contrato futuro, segunda posição cotado na média do mês a US$ 184,46/sc) e de 18,55% na Bolsa de Londres (robusta, contrato futuro em segunda posição cotado na média do mês a US$ 143,19/sc) (Figura 1). Com crescimento de 44,97% nos últimos 12 meses, o robusta cotado em Londres ainda é o tipo que exibe os maiores ganhos no mercado de café. Em Nova Iorque, o ganho acumulado nos últimos 12 meses foi 28,99%. Com esse aumento, os ganhos do arábica começam a encurtar a distância frente as cotações de robusta. Ponderadas as duas cotações (arábica e robusta), o indicador composto da Organização Internacional do Café (OIC) registrou-se ganho de 13,48% em fevereiro, com índice alcançando US$ 183,66/sc.



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Figura 1 - Cotações médias mensais do café em diferentes mercados de futuros (segunda posição) e do OIC-Composto diário, janeiro de 2004 a fevereiro de 2007
Fonte: Elaborada a partir de dados da Gazeta Mercantil2.

Ao contrário daquilo que afirmam a maior parte dos analistas do mercado, que reputam à queda nos estoques mundiais e ampliação da demanda os principais componentes para a aceleração das cotações, na realidade, a escalada das cotações vincula-se mais a desvalorização do dólar frente as principais moedas internacionais. Fundos e especuladores, visando proteção a patrimônio depositado buscam nas soft's commodities, refúgio para as perdas de valor da moeda estadunidense.

Na Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F), os ganhos nas cotações acompanharam o avanço registrado em Nova Iorque, com crescimento de 9,29% em fevereiro. Em função desse menor ganho, o diferencial entre BM&F e NY que contabilizava US$ 12,54/sc em jan/08, saltou para US$ 21,20/sc em fev./08, sendo esse valor o maior apurado nos últimos doze meses. Embora sob a valorização do real, o fechamento de posições em Nova Iorque e a realização da mesma operação espelho na BM&F (arbitragem), propiciou captura de significativa margem dos exportadores brasileiros.

Em São Paulo, os preços recebidos pelos cafeicultores em fevereiro de 2008, apurado pelo Instituto de Economia Agrícola (IEA), exibiram significativo incremento com fechamento R$ 270,23/sc (bebida dura, tipo 6). Os ganhos registrados nos preços nos últimos 12 meses, no mercado paulista, contabilizam exuberantes 25,34%. Mesmo assim, o preço de fevereiro de 2008 é, ainda, nominalmente inferior ao observado no mesmo mês de 2005 quando se alcançou os R$ 287,25/sc. É surpreendente a similaridade entre as curvas observadas entre 2005 e 2008, ensejando a possibilidade de que de fato há espaço para valorização ainda maior do café no curto prazo (Figura 2).



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Figura 2 - Preços médios mensais recebidos pelos produtores de café arábica, Estado de São Paulo, janeiro de 2004 a fevereiro de 2008
Fonte: Elaborado a partir de dados do Instituto de Economia Agrícola.

2 - Rumo aos US$ 5 bilhões em exportações

E meados de 1995, a Associação Brasileira da Indústria do Café (ABIC), em um lance de pura ousadia3, realizaram um grande evento no salão nobre da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), propondo a meta de consumo de 15 milhões de sacas em 2000. Naquele momento, o estabelecimento de tal meta implicava em incrementar o consumo doméstico em 50% no período considerado, uma vez que a demanda brasileira contabilizava apenas 10 milhões de sacas. Muito embora tal meta somente tenha sido alcançada em 20044, o arrojo da estratégia foi de puro acerto, pois a mobilização da indústria do café envolvendo todos os demais segmentos do agronegócio associado a ações de diversas naturezas (marketing, concursos de qualidade, fiscalização da pureza do produto e incentivo à participação nas Câmaras Setoriais), conduziu o setor rumo à uma trajetória crescente para o consumo da bebida, permitindo, atualmente, que a indústria do café se arvore em pleitear o primeiro lugar no consumo mundial a partir da virada dessa década, quando aparentemente suplantaremos os estadunidenses nessa matéria, reunindo, então, sob uma única bandeira os títulos de maiores produtores, maiores exportadores e maiores consumidores de café no globo5.

Por sua vez, o desafio que ora se impõe para o agronegócio café é o de estabelecer outras arrojadas metas, como por exemplo, a de exportações totais de café atingindo os US$ 5 bilhões em 2010. Evidentemente, que a elevação das cotações internacionais suporta tal orientação estratégica, porém, o que objetivamente os exportadores, as cooperativas e os solubilizadores, especialmente, poderiam desenvolver visando o alcance dessa receita cambial mesmo que as cotações venham a declinar?

Dentre as possibilidades alternativas, merecem destaque:

1)firmar posições para o café brasileiro nos mercados emergentes;
2)a exploração de nichos de mercado de alta qualidade valendo-se, principalmente, da expansão da oferta associada à notoriedade tanto do cereja descascado como do bourbon amarelo;
3)consolidação da experiência empírica de que o natural brasileiro é o mais apropriado ingrediente nas ligas de T&M utilizadas para o preparo expresso;
4)expansão das vendas de solúvel para o varejo do Leste Europeu e da Ásia, apoiadas por política consistente de draw-back;
5)contestar as barreiras tarifárias do solúvel brasileiro em mercados importadores tradicionais;
6)estabelecer parcerias com o segmento de torrefação e moagem visando o fortalecimento de um novo ramo exportador dentro do setor;
7)aliar-se a especuladores, aos fundos de pensão e ao Itamarati, visando a quebra da barreira existente na Bolsa de Nova Iorque para a implantação de contratos de café lavado brasileiro e;
8)desenvolver agenda positiva ao lado do Ministério do Desenvolvimento e BNDES com vistas a viabilizar a expansão da capacidade instalada em solubilização, torrefação e na modernização da estrutura de exportação de café.

As lideranças do agronegócio café com interface na exportação, precisam construir essa agenda de ações, estabelecendo metas para que o grande objetivo de perenizar receitas de R$ 5 bilhões com café seja uma constante no balanço anual do agronegócio. Certamente, que sob cotações de US$ 50 cents/lbp, tal possibilidade é remota, mas diante do contexto econômico de novo patamar para flutuações das commodities, tudo indica que o ciclo de alta permanecerá por longo período, permitindo a consecução de metas arrojadas e dessa forma robustecendo o agronegócio café no Brasil.

3 - Octavio Café um ícone em design de cafeteria

Em outras edições desse informativo, foi mencionado o enorme prestígio alcançado pelas duas maiores maravilhas do café das últimas duas décadas: o surgimento e expansão do preparo do cereja descascado e o renascimento comercial da variedade Bourbon Amarelo. Em dezembro de 2007 surge a terceira maravilha brasileira, a liderança mundial em design de cafeteria representada pela Octavio Café. Assim que na cidade de São Paulo foram abertas as portas desse estabelecimento, pode-se constatar que nada pode ter a pretensão em rivalizar com esse empreendimento, pois além de servir um dos melhores cafés existentes no mundo, há uma preocupação com a excelência no serviço de baristas (estes altamente capacitados e coordenados pela mais destacada barista brasileira na atualidade), em ambiente dos mais magnificamente requintados numa simbiose harmônica entre modernidade e tradição (poltronas com conexão à web coexistindo com a fina porcelana em que é servida a bebida). O mais estupendo dessa estratégia de alcançar o topo em design de cafeteria, conduzida por hábil empresário que respalda essa iniciativa, é a prática de preços sumamente competitivos para toda a linha de produtos ofertados.

Os participantes do agronegócio café não podem deixar de visitar o estabelecimento (correndo o risco de tomar imenso gosto e passar para o campo dos assíduos), principalmente, nas ocasiões em que recebem convidados de outras nacionalidades. Exibir para concorrentes e parceiros esse, que certamente será o grande ícone do movimento de reglamorização das casas de café, enchem de orgulho todos os apaixonados pela bebida e enaltecem, ainda mais, a inventividade do povo brasileiro.

4 - Marketing com foco no cliente e no café

No já esgotado livro "O Prazer e a Excelência de uma Xícara de Café Expresso", lançado em 20026, verificou-se que o mercado para café expresso, ao menos nos grandes centros metropolitanos, exibia taxas de crescimento calculadas em número de xícaras servidas ao dia, da ordem de 30% ao ano o que caracterizava um verdadeiro boom de demanda pela bebida. Desde então, o surgimento de novas redes de cafeterias e a trajetória daquelas já estabelecidas, confirmou o momento excepcional que o segmento ainda vivencia7.

Outro prognóstico inscrito no mencionado livro, dava conta da necessidade de transformar em objeto de desejo de consumo as máquinas de café expresso para uso doméstico. Até então, em função da desvalorização da moeda brasileira, o custo desses equipamentos rivalizava com o de um computador, afugentando muitos apreciadores de café da concretização do sonho em possuir uma máquina para o preparo de café expresso. Entretanto, a rota de valorização do real, o aumento das importações dessas máquinas (com ganhos de escala) e o início de fabricação em território nacional, impuseram um profundo barateamento desses equipamentos, tornando-os, atualmente, utensílios possíveis de compor o rol de eletrodomésticos das residências da maior parte das famílias. Percebendo tal oportunidade e reconhecendo esse anseio subliminar de seus leitores em possuir uma máquina de café expresso, o jornal de economia e negócios Gazeta Mercantil inaugurou campanha de marketing unindo ambos os apelos: informação atualizada associada a um bom café (Figura 1).


Figura 1 - Estampa do Jornal Gazeta Mercantil destacando a campanha promocional de arrecadação de novos assinantes
Fonte: Jornal Gazeta Mercantil.

A vulgarização de máquinas de café expresso, ou seja, sua entrada nos lares das famílias é o desenvolvimento que ainda faltava para o mercado de café de alta qualidade no país. Com essa campanha, ao lado de outras importantes ações (apresentação de máquinas em canais de compras, crescimento dos empresários gestores de máquinas de café expresso, maior oferta de cafés apropriados para esse tipo de preparo, etc..), promovem a qualidade e permite que se agregue mais valor ao longo da cadeia produtiva do café, o que fortalecerá esse negócio e conseqüentemente a base física em que ocorre efetivamente a produção, ou seja, a cafeicultura.



1 O autor agradece a colaboração do Técnico de Apoio a Pesquisa Agropecuária Gilberto Benatti.
2 Dados coletados do jornal Gazeta Mercantil.
3 Naquele momento a ABIC era liderada por aquele que veio a receber o título de mago do café, o empresário Américo Sato, então sócio diretor da Café do Ponto.
4Defazagem de quatro anos frente à meta inicialmente traçada. Dados sobre a evolução do consumo brasileiro podem ser consultados em www.abic.com.br
5Menos celebrado foi o resultado de pesquisa conduzida por equipe do IEA, em que se verificou consumo de 25 milhões de xícaras de café fora do lar na cidade de São Paulo, tornando-a, provavelmente, a cidade onde mais aprecia café fora do lar no planeta.
6VEGRO, C.L.R. et al. O prazer e a excelência de uma xícara de café expresso: um estudo de mercado. Ed. Agronômica Ceres, São Paulo, 2002. 140p.
7 Em 2007, por exemplo, a primeira loja paulistana da Starbucks em seu primeiro ano de funcionamento foi a que mais faturou na iberoamérica.

CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

Eng. Agr., MS Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade. Pesquisador Científico VI do IEA-APTA/SAA-SP

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