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Café: escassez de confrades

POR CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

CELSO VEGRO

EM 08/01/2009

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Balanço do mercado em 2008

As cotações médias em dólares por saca de café beneficiado desceram para patamares absolutamente baixos em dezembro de 2008, menores até mesmo do que a média das cotações de 2007, o que consiste em fator de imenso desalento para todos os cafeicultores brasileiros (tabela 1). Essas baixas cotações imprimem nos empreendedores uma postura defensiva, limitando ao mínimo a tecnologia empregada nas lavouras e os gastos com mão-de-obra e outros serviços, o que certamente redundará em menores produtividades e acentuação do ciclo de baixa aguardado para a corrente safra.

Tabela 1 - Evolução das cotações do café nas diferentes bolsas, jan.-dez./2008, cotação média de dez/08 e média das cotações, 2007 e 2008.


Fonte: Elaborado a partir de dados da Gazeta Mercantil1

É totalmente inusitada a ocorrência de tão acentuada baixa das cotações em dezembro, pois, historicamente, a partir desse mês e por todo o primeiro trimestre do ano seguinte é que ocorrem as melhores cotações para o produto. A junção da crise econômica mundial com a desvalorização de aproximadamente 50% do real desde setembro fez o mercado perder referências para a formação das cotações do produto, ocasionando persistentes queda nas cotações que culminaram com os 7,76% e 4,42% negativos, respectivamente, na BM&F-Bovespa e na Bolsa de Nova Iorque. A perda acumulada no ano na BM&F-Bovespa superou os 27%, enquanto em Nova Iorque o acumulado foi de 16,52% negativos em doze meses.

As cotações do robusta na Bolsa de Londres mantiveram ganho tanto no mês quanto no acumulado de doze meses, legitimando todas as teses de que deve ser cultivado para além das fronteiras capixabas e rondonenses, como já é a realidade do sul da Bahia. Trata-se de decisão estratégica para os cafeicultores com áreas aptas para o plantio da espécie, que não deveriam temer qualquer tipo de contágio da crise econômica sobre o mercado desse tipo de café, pois em seu mais acentuado ápice a demanda pelo produto sustentou a tendência ascendente para suas cotações.

Em reconhecimento ao grave momento que atravessa a cafeicultura brasileira, é importante destacar que nossos principais concorrentes também se encontram sujeitos a imensas dificuldades no sentido de obter rentabilidade com a cultura. Possivelmente, não serão observados novos plantios pelo mundo e tal fenômeno poderá exibir um custo muito grande no futuro, quando se pressentir que a escassez de café se acentuará por não reposição de lavouras que do ponto de vista comercial se esgotaram.

Frente a 2007, a média das cotações evoluiu em 2008, mas não permitiu que os cafeicultores brasileiros se beneficiassem desses melhores preços, pois em setembro - mês que assinalou o princípio da atual crise financeira - ocorreu justamente o início da comercialização da atual safra. Em momento algum, no período recente, seria tão necessário e oportuno o lançamento de políticas garantidoras da renda do cafeicultor, como serão as já anunciadas opções públicas. As atuais cotações são absolutamente irreais e, com uma ligeira intervenção via mercado, o governo poderá inverter a curva e propiciar um ano de 2009 menos problemático do que o fatídico 2008.

A nau dos insensatos

Os ciclos de repetição do endividamento agrícola se esgotaram. O modelo adotado para a agricultura, em particular para a cafeicultura, fez crescer o exército de inadimplentes e as seguidas rodadas de repactuação dos débitos pendentes sem possibilidade de se enxergar um horizonte para seu desfecho. Se no passado foi a escalada da inflação a desencadeadora de surtos de inadimplência, atualmente é o elevado patamar dos encargos financeiros praticados nos contratos de crédito rural, associado à imensa instabilidade dos preços agrícolas que constitui os alicerces dessa nova crise que se instaura no agronegócio brasileiro.

Na época em que o País se encontrava mergulhado em taxas de inflação de dois dígitos ao mês, vigorou uma proposta de contratação de crédito rural, vinculando-se sua quitação em produto numa espécie de escambo capitalista. Na época, aparentemente, tal alternativa representava um avanço no contexto da política agrícola, pois o processo inflacionário impedia os empreendedores da possibilidade de realização do cálculo econômico e da conseqüente decisão de investimento. Assim, se contrataria o crédito agrícola cujo montante seria convertido em equivalente produto, calculado com base na política de garantia de preços mínimos. E, quando do momento do encerramento da safra, o respectivo volume de produto seria novamente reconvertido em valores monetários e entregue como pagamento ao contrato firmado.

Os bancos estaduais, particularmente, da porção meridional do território nacional foram os primeiros a promover esse tipo de financiamento no final dos anos 80, suscitando demandas similares em todos os demais estados e também junto ao governo federal. Entretanto, a experiência não foi além de duas safras, períodos nos quais imensos lucros e prejuízos foram capturados e suportados tanto pelos produtores quanto pelos agentes financeiros. As oscilações de mercado das cotações dos produtos financiados pelo mecanismo de equivalência explicam o regime de gangorra ao qual a pseudo-alternativa se viu refém.

Diante da incapacidade de parcela dos cafeicultores em resgatar sua adimplência, suas lideranças voltaram à tecla do escambo capitalista como forma de alongar o endividamento crônico. A sugestão seria a de consolidar a dívida, transformando-a em sacas equivalentes de café as quais seriam entregues em amortização na proporção de 5% da produção colhida para a quitação parcelada da dívida. Esses cafés entregues se somariam aos parcos estoques públicos do produto e seriam utilizados nos rotineiros leilões eletrônicos, freqüentados, majoritariamente, pelos torrefadores de menor porte.

A proposta carrega a antiga ideia de escambo, um pouco piorada, pois a dívida seria congelada pelo volume equivalente de produto sem previsão de índice de correção para o período em que as parcelas fossem amortizadas. Também não prevê a necessidade de criação de fundo para equalização do valor financeiro equivalente às sacas de café entregues e o valor efetivo da dívida no ato da quitação da parcela corrigida pelo índice em comum ajustado. Finalmente, fica sem qualquer explicação como seria criado o sistema de apuração dos 5% da safra colhida. É irresistível a tentação dos produtores em diminuir esse percentual entregue para o pagamento da dívida, visando incrementar os lotes para o mercado físico. Isto acarretaria, possivelmente, muito mais do que 25 anos para a completa quitação das dívidas, algo fora de propósito até para projetos de investimento de longa maturação como as hidroelétricas.

Ao se prestar ao lançamento de ideias tão descabidas, em nosso diagnóstico, as lideranças da produção praticam o chamado diversionismo, ou seja, desvia-se a atenção para um assunto diverso daquele que se discute a fim de se retardar o inexorável ajuste ao qual parcela da cafeicultura brasileira terá que, necessariamente, enfrentar. Ainda mais agora que, sob o duríssimo contexto da crise econômica internacional, as cotações dificilmente atingiriam patamares mais vantajosos aos produtores.

A retórica das lideranças da produção foi lançada no seio da sociedade civil representada pela Câmara Baixa. Antes do titânico naufrágio, que dessa nau saltem todos os sãos de sua razão.2

Confrarias desafins

Os agentes do agronegócio café no Brasil, incluindo-se nele até os pesquisadores, esperam que um dia esse mercado espelhe tudo o que já é realidade em âmbito do vinho. Nesse último, existe uma espécie de moto contínuo que somente faz crescer sua presença em nosso dia-a-dia, seja por meios midiáticos seja pela efetiva participação nas lautas refeições servidas, por exemplo, ao longo da quadra festiva que acabamos de cumprir.

Entretanto, apenas uma singela comparação de poucos aspectos permite visualizar o quanto distantes da Terra Prometida nos encontramos. Senão vejamos:

a) Assemblage versus Blend: no mundo do vinho, a mistura de variedades de uvas visa à correção de aspectos que permitam ao vinho expressar ainda mais potentemente sua complexidade e vocações. Já no caso do café busca-se juntar aquilo que há de mais vil (PVA+leilão+conilon+arábica acima de 1000 defeitos) para conseguir um menor preço e, com isso, desbancar aquele concorrente no mercado varejista que ainda possui algum princípio em preservar padrão de qualidade decente para o produto. O pior é que se abster dessa vilania seu concorrente do andar de cima o fará e logo ele se encontrará fora do mercado.

b) Somellier versus Barista: a classe dos somelliers ganha a cada ano mais reconhecimento e reputação, situando-se entre os profissionais que, ao lado dos chefs, mais consagração trazem a um estabelecimento. Sua especialização em harmonizar a bebida com o alimento concede ao momento da refeição o mais proveitoso prazer que o freqüentador do restaurante pode almejar; já os baristas sequer possuem reconhecimento formal no Ministério do Trabalho, sendo em geral tratados como empregados para qualquer outro tipo de ofício na rotina das cafeterias. Ainda que mude a cor do uniforme, sua atenção não está concentrada no preparo da xícara perfeita dentro de um procedimento quase ritualístico e em sintonia com aquilo que os clientes desejam.

c) Vinícolas versus Torrefadoras: as vinícolas empenham-se em buscar a mais avançada tecnologia para o cultivo das uvas; sua fermentação; maturação e envasamento, tudo com foco em ganhos incrementais de qualidade final do vinho. Nas torrefadoras, persiste o empenho em agarrar-se ao atraso, como exemplifica o regulamento técnico em vias de ser sufragado pela autoridade pública que permite adição de água para resfriar o produto que sai do torrador, quando na verdade o procedimento já deveria estar extinto em favor do resfriamento a ar. De que vale toda a pesquisa e o investimento em tecnologias de embalagem se o produto já sai da fábrica úmido e rançoso? O lucro privado fácil é a explicação única para essa monstruosa decisão.

d) Confrades do vinho versus apreciadores de café: nas confrarias dos amantes do vinho, existem códigos de conduta sumamente rigorosos entre seus membros. A aceitação de um novo confrade é efetivada depois de aprofundadas investigações que envolvem inclusive a maneira de perceber esse mundo e, sobretudo, a moral e a ética com que se comporta no ambiente dos negócios. No caso do café, passa-se justamente o inverso. Alguns empresários da torrefação maquinam formas de burlar as licitações públicas e as cestas básicas, oferecendo, por exemplo, produto de inaceitável qualidade, ou ainda, de estampar nos rótulos denominações que não condizem com qualquer atributo do produto, os chamados extra-fortes que rendem mais, tradicional e sabor da roça em que, por meio da torra profunda (digo melhor, conduzido a pirólise), se mascara a marzanha3 ali ajuntada.

e) Atitude do varejo: os grandes grupos atuantes no varejo mantêm um comprador que circula por todos os continentes para melhor conhecer seus fornecedores e logicamente encontrar bons produtos. No caso do café, apenas um deles se interessa em validar o monumental esforço em selecionar, por meio de concursos estaduais e nacional, os melhores grãos da safra recém-concluída. Mesmo nesse caso em que se concede tal abertura, o prazo de comercialização é exíguo e as condições para o recebimento das vendas efetuadas traduzem-se numa péssima recordação desse instável relacionamento.

Não se pode deixar de reconhecer que, no caso do vinho, existe ainda no mercado, especialmente nos rincões mais longínquos, o produto batizado no Rio Grande do Sul e crismado em São Roque (SP), comercializado em garrafões de 5 litros. Todavia, esse tipo de produto vem perdendo aceleradamente mercado para outros de patamar mais elevado de qualidade, o chamado vinho de mesa, o que por si só e pela curiosidade dos apreciadores concede margem para experimentar outros tipos de vinho, os varietais, brancos, tintos e rosês, de determinada procedência, e assim por diante.

No caso do café, o esforço de incremento da qualidade e de se estabelecer protocolos para o processamento do produto é um avanço importante, mas o desprezo empresarial por regras de conduta comercial ainda predomina e aqueles que persistem em trabalhar com seriedade nesse mercado vivem sob permanente desconsolo. Sob esse clima, segue o apropriado adágio:

"Ora nossa tarefa consiste apenas em dizer sem rodeios verdades novas, mas também em mostrar como chegar a elas" Freud - Les Premiers Psycanalystes, 1909.

O autor agradece ao técnico de apoio Gilberto Bernardi pela colaboração na coleta e sistematização dos dados básicos deste artigo

1 Disponível em www.gazetamercantil.com.br (para assinantes).

2 Ao fechamento desse artigo fomos surpreendidos pelo endosso dessa proposta por parte do presidente da frente parlamentar da cafeicultura. A análise vem portanto em boa hora.

3 Recomendo a leitura do artigo anterior Café: uma catadupa de zurrapa, publicada na Seção "Relatórios mensais" do CaféPoint.

CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

Eng. Agr., MS Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade. Pesquisador Científico VI do IEA-APTA/SAA-SP

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CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

SÃO PAULO - SÃO PAULO

EM 22/01/2009

Prezado José Maria Castillo,

Sua duradoura paciência com as anarquias mentais desse confuso analista do mercado é o que de fato a nós todos surpreende.

Um grande abraço,
Celso Vegro
JOSÉ MARIA CASTILLO

IÚNA - ESPÍRITO SANTO - TRADER

EM 22/01/2009

Celso, parabéns pela forma séria e oportuna de colocar as comparações que são uma constante no mundo das chamadas Soft Derivatives...

Café e Cacau devem transitar pelo caminho da qualidade, sob pena de perder participação no mercado consumidor mundial.

Faz anos que aprendo muito com seus importantes comentários.

Saludos cordiales,
CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

SÃO PAULO - SÃO PAULO

EM 09/01/2009

Prezado Sergio Venuto,

Volta você a me surpreender com as gentis palavras. Em razão delas deixo aqui minha gratidão.
A maior chaga da qual purga a sociedade brasileira é pautar suas ações pelos consensos. Ao se afastar deles a realidade se desnuda e os horizontes da crítica tornam-se infinitamente amplos.

Bom saber que no negócio cacau, primo siamês do negócio café, existam homem com os quais possamos compartilhar nossas idéias e sentimentos.

AT.
Celso Vegro
SERGIO VENUTO

RESENDE - RIO DE JANEIRO

EM 08/01/2009

Celso, mais uma vez parabéns pela abordagem direta sobre um assunto tão importante. Como em muitos casos, procuramos lucros (financeiros) rápidos acreditando que são mais fáceis.... Em se tratando de anos, um grande equívoco.

Precisamos desta ética/moral em negócios bem-sucedidos ( sucesso de uma forma ampla, não somente financeira ) para que sirva de exemplo aos jovens empreendedores que, ao que me parece, vêm com uma atitude mais responsável com relação à sociedade, entendendo que lucro é uma das responsabilidades de uma empresa - e não a única.

Esta gestão está sendo semeada com algumas pessoas na USP-Pirassununga, onde surge a NOVA - Gestão Inovadora, uma Empresa Júnior que quebra uma série de paradigmas.

Bem, tenha certeza de que em poucos anos você verá um modelo que contemplará este nosso desejo por algo melhor do que existe, onde negócio, filosofia, ética, responsabilidades várias, lucro e outros elementos conviverão em plena harmonia.

Abraços e continue com seu trabalho de discussão e questionamento com a qualidade que lhe é pertinente.