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Café: encontrado nosso "pé grande"!

POR CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

CELSO VEGRO

EM 05/08/2008

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Em julho de 2008, foram observados movimentos convergentes com ganhos nas cotações médias do café em todas as bolsas em que o produto é negociado. Em Nova Iorque (contrato C em segunda posição - em US$/sc.), a cotação média saltou para US$ 188,94 por saca em julho, com ganho foi de 0,73%, na comparação com a média de US$ 187,56/sc. em junho.

Na BM&F-Bovespa, foi registrado ganho similar ao observado em Nova Iorque, com o incremento nas cotações médias da ordem de 0,76% no mês. Para ambas as cotações, registram-se ganhos acumulados no ano de 7,92% e de 4,64%, respectivamente, nas bolsas de Nova Iorque e BM&F-Bovespa. Ganho expressivo no mês foi observado na Bolsa de Londres (contratos para a tonelada de café robusta - em US$/sc.), cuja cotação média subiu de US$ 136,93/sc. em junho para US$ 142,39/sc. em julho, com variação positiva de 3,99%. Para esses contratos, o ganho acumulado no ano alcança 27,31%.

Refletindo o movimento ascendente, o indicador composto da OIC fechou julho com ganho de 1,92% e acumula em 2008 variação positiva de 12,90%. A constatação de que está atrasada a colheita brasileira nos principais cinturões, associada com alguma quebra de rendimento durante o beneficiamento, foi fator de pressão sobre as cotações (figura 1).


Figura 1 - Cotações médias mensais do café em diferentes mercados de futuros (segunda posição) e do OIC-Composto diário, janeiro de 2004 a julho de 2008.
Fonte: Elaborada a partir de dados do www.cafepoint.com.br/cotacoes1

A dimensão pegada de carbono2 da indústria de T&M

A torrefação do café verde implica, necessariamente, uma importante quebra de peso que varia de acordo com a intensidade da torra a qual o produto é submetido. Para os cafés consumidos no Brasil, a indústria de torrefação utiliza as classes mais profundas da torra, ou seja, torra escura e muito escura, preparando assim os cafés reputados com as designações forte e extra-forte, aderentes ao gosto da parcela amplamente majoritária de apreciadores da bebida. Sob essa intensidade de torra, é comum verificarem-se quebras de peso da ordem de 20 a 22% da massa de grãos verdes submetidos à torrefação.

Assumindo, portanto, a faixa mais elevada de torra como aquela que melhor representa os cafés consumidos no país, tem-se que nessa intensidade de torra, sob temperatura ambiente (25oC) e pressão normal (1 ATM), ocorre a liberação média de 12 litros de gás carbônico3 por quilo de café verde submetido à torrefação que, na imensa maioria das situações, é simplesmente emitido para a atmosfera4.

De posse desse indicador, é possível estabelecer, dentro da quantidade de café verde submetido anualmente à torrefação no Brasil, o volume de gás carbônico emitido (mistura dos gases de monóxido e de dióxido de carbono). O dado mais recente, divulgado pela Associação Brasileira da Indústria da Torrefação, informa que a expectativa de consumo de café torrado e moído é da ordem de 18,1 milhões de sacas em equivalente verde5.

Em consulta aos manuais de química analítica e profissional graduado em química, tem-se, na conversão de volume de gás carbônico para quilos de carbono, a aplicação da seguinte fórmula:

P(pressão) x V(volume) = n x R x T(temperatura em graus Kelvin) e

M(massa) = 0,012 x n, então

M = 0,012 x P x V / (R x T)


Onde:
P=1 ATM
V= 12 litros/kg
T= 25oC + 273,15oK = 298,15oK.
R = 0,082


Substituindo os dados, tem-se:

M = 0,012 x 12 / 0,082 x 298,15


Assim, as cerca de 18,1 milhões de sacas de café, que serão processadas em 2008 para abastecimento do mercado interno, com as devidas conversões das respectivas unidades, resultam no montante de 6.407.400 quilos de carbono emitidos pela indústria de torrefação brasileira.

Nesse cálculo não foram consideradas as emissões decorrentes da energia elétrica ou gás natural utilizados nos equipamentos de torra, da logística de suprimento e distribuição e do volume residual de gás carbônico que é liberado na etapa seguinte de moagem e empacotamento dos grãos torrados. Um esforço dirigido na condução do cálculo do impacto ambiental do segmento de T&M, provavelmente, traria mais robustos indicadores, posicionando-o, possivelmente, entre aqueles que mais poluem a atmosfera no ramo da indústria de alimentos.

O volume de emissões totais da indústria paulista, calculado pela Secretaria do Meio Ambiente, alcançava, em 2006, 138,7 milhões de toneladas ao ano. Considerando que cerca de 45% do total de café T&M são industrializados em território paulista, conclui-se que aproximadamente 2.883.330 quilos de carbono decorrem da atividade de torrefação conduzida no Estado. No rol das 100 maiores indústrias emissoras de gases de efeito estufa, encontra-se listada a maior solubilizadora de café de São Paulo.

Dentre as ações alternativas para mitigar tais impactos de emissões, a mais freqüentemente sugerida é o plantio de árvores. No caso da indústria de torrefação e moagem de café, seria necessário o plantio anual de aproximadamente 25 mil árvores para compensar o volume de emissões calculado, considerando apenas as emissões decorrentes da torra do café verde.

O cálculo dessas emissões ocorre em momento auspicioso para o setor, uma vez que as Secretarias do Meio Ambiente e de Agricultura e Abastecimento estão empenhadas em adotar os protocolos ambientais para as principais culturas agrícolas conduzidas no Estado. Para o café, o referido protocolo já foi bastante discutido pelos técnicos e representantes da lavoura, mas não se previu a possibilidade de que a indústria de torrefação compensasse suas emissões, por meio da recuperação de matas ciliares e reservas legais em propriedades que cultivam café. Dispondo dos cálculos efetuados, tal possibilidade pode ser imediatamente encampada pelo protocolo, conferindo mais sustentabilidade ambiental para o agronegócio.

Mais vantagens amealhadas pelos Donos do Poder6

O padrão econômico vigente no Brasil herdou de seu período colonial, imperial e republicano uma característica toda particular denominada por patrimonialismo. Sob esse regime, as políticas públicas são implementadas para favorecer aqueles que direta ou indiretamente possuem riquezas. No passado, a posse de escravos e as dotações em terras após 1850 para a elite agrária e eram os indicadores do patrimônio e, por conseguinte, da capacidade em induzir políticas que consolidassem essa base patrimonial.

Com o desenvolvimento da economia brasileira e a instituição do chamado estamento burocrático na condução das políticas de governo, outras castas sociais passaram a igualmente se apropriarem de vantagens obtidas do erário público.

O patrimonialismo se expressa sob a forma de captura de benesses pelos bem de vida e em contraposição o sacrifício extremo das classes menos favorecidas. O debate que antecedeu a extinção da CPMF, por exemplo, destacou bastante o assunto, que sob a roupagem econômica ganhou a cunhagem de regressividade, ou seja, os mais pobres pagam proporcionalmente mais tributo que as classes mais ricas. Aproximadamente 50% do rendimento dos pobres e remediados são destinados ao pagamento de tributos, o que os impedem de avolumar, ao longo de sua existência, qualquer patrimônio relevante. Em contraposição, os bem de vida, ao carregar menor tributação sobre seus rendimentos, estabelecem uma trajetória de ampliação de suas posses patrimoniais.

O que isso tem a ver com o café? Analisemos os dados sobre a inadimplência dos financiamentos obtidos junto ao FUNCAFE. Pelas informações divulgadas, constata-se que os pequenos empréstimos em situação de inadimplência perfazem aproximadamente 1,2% do total, ou seja, os pequenos cafeicultores em regime familiar de exploração saldaram seus compromissos. Todavia, nos financiamentos não quites de grande monta (de R$100 mil até R$500 mil e os acima de R$500 mil), o percentual de inadimplência supera os 30% do total de ambas as carteiras. Assim, reproduz-se o caráter regressivo da política agrícola, qual seja sufocar os menos favorecidos e postergar para um sem-número de anistias e descontos os débitos daqueles que deixaram de saldar grandes volumes de recursos públicos tomados e, assim, fortalecer e reproduzir o patrimonialismo da ação de governo (figura 2).


Figura 2 - Faixas de inadimplência dos financiamentos operados pelo FUNCAFE
Fonte: Elaborado a partir de dados básicos da Revista do Café7.

É preciso rever a forma com que se estabelecem os parâmetros para a concessão de empréstimos do FUNCAFE. Uma medida muito interessante seria a criação de um cadastro positivo que permitisse inclusive o escalonamento das taxas praticadas em consonância com o histórico de adimplência do cafeicultor. Tal sugestão deveria inclusive ser encampada pelo próprio crédito rural oficial, que ao favorecer os bons pagadores e aumentar as dificuldades de acesso ao crédito dos maus pagadores, no médio prazo, teria menos custosas rodadas de repactuação das dívidas contraídas.

1 Dados básicos disponíveis em www.cafepoint.com.br
2 Os ambientalistas utilizam o termo pegada de carbono para expressar o rastro de emissões deixado pelas ações humanas e de outras causas naturais.
3 ILLY, A & VIANI, R. Espresso Coffee: the chemistry of quality. Academic Press. 1995, 253p.
4 São ainda pouco expressivas as empresas que instalaram filtros capazes de reter e catalisar o dióxido de carbono e outros poluentes emitidos pelos torradores ao longo do processo de torra. As torrefadoras que modernizaram seus equipamentos de torra contam com filtros capazes de reter os gases, assim como aquelas situadas nos centros urbanos em que as autoridades ambientais tornaram obrigatória a utilização desses equipamentos. Também as empresas que estão se submetendo a certificações internacionais passaram a adotar políticas de controle de suas emissões, caso do café Bom Dia/Varginha-MG.
5 Disponível em www.abic.com.br. O dado consolida as quantidades de café torrado em grãos, torrado e moído e solúvel (em seus diversos tipos).
6 Subtítulo que homenageia a brilhante tese transformada em livro do cientista político já falecido Raimundo Faoro.
7 Detalhes em SIMÃO, E. Renegociação de Dívidas. Revista do Café, mar.2008. 4-6p.
8 O autor agradece aos comentários e sugestões formuladas pelos colegas José Sidnei Gonçalves (Eng. Agr., Dr., pesquisador do IEA) e ao Felix Shouchana (professor Dr. da FGV/SP).

CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

Eng. Agr., MS Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade. Pesquisador Científico VI do IEA-APTA/SAA-SP

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