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Café brasileiro em Nova Iorque: e o cafeicultor com isso?

POR CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

CELSO VEGRO

EM 22/10/2010

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O progressivo incremento da qualidade do café brasileiro é uma constatação irrefutável, confirmada tanto pela formidável segmentação das marcas de café no mercado doméstico como pelos inúmeros programas de certificação e as dezenas de concursos regionais, estaduais e nacionais de qualidade do produto nos quais se procura selecionar os café excepcionais que a cada nova safra surgem. Regiões antes desvalorizadas nos circuitos dos provadores foram alçadas à condição de produtoras de especialidades, com características muito desejadas nas mesas de prova de xícara. A adoção crescente dos descascadores para o preparo do tipo cereja descascado permitiu que os cafeicultores, mesmo situados em zonas não propícias à produção de qualidade pudessem produzir cafés de padrão gourmet. A progressão das vendas dos descascadores e o conseqüente aumento da oferta de CD que soma quantidade bastante expressiva, grosseiramente estimada entre 3 a 4 milhões de sacas.

O aumento da oferta de produto de qualidade no Brasil também exibe reflexos significativos nos embarques do produto. Estimativa elaborada pelo Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (CECAFE) a partir dos registros de embarques indica que, aproximadamente, 10% de todo o volume de café verde exportado já é composto pelo tipo lavado (de oferta ainda limitada) e pelo CD (Tabela 1).

TABELA 1 - Estimativa de Quantidade Exportada de Cafés Preparados por Via Úmida, Brasil, 2005-jan.-jul./2010



Para entender o assunto

O mercado de arábicas finos estabelecido na Bolsa de Nova Iorque, constitui-se no grande formador de preços para todas as demais praças em que se negocia café em âmbito mundial.

Há cerca de sete anos, por iniciativa dos exportadores brasileiros, houve grande esforço articulado, visando a obtenção do aceite do registro de café lavado brasileiro para entrega na Bolsa de Nova Iorque. Apesar do sério e competente trabalho desenvolvido, não se obteve o esperado êxito, pois os lobbies colombianos e centro-americanos pressionaram a estrutura legislativa estadunidense que, por sua vez, atuou junto aos administradores da bolsa no sentido de descartar essa possibilidade.

Recentemente, as autoridades daquela bolsa sinalizaram com a possibilidade de vir a aceitar o registro de lavados e semi-lavados brasileiros para entregas no mercado físico. Essa possibilidade tem sido amplamente discutida entre os técnicos e agentes de mercado, suscitando ainda algumas controvérsias. As autoridades da Bolsa de Nova Iorque sinalizam com o aceite, pois precisam incrementar fontes de liquidez para seus negócios, em momento conjuntural que ocorre forte encolhimento na quantidade de café certificado naquela praça (Figura 1).

FIGURA 1 - Evolução da Quantidade de Café Certificado, Bolsa de Nova Iorque, 2000 a jun./2010



Destaca-se ainda que os preços médios obtidos pelos embarques de produtos lavado e semi-lavado brasileiros são promissores. Enquanto a cotação média em 2009 praticada na BM&F para o natural foi de US$148,25/sc, o preço médio obtido pelos exportadores nas transações envolvendo o lavado e semi-lavado atingiu os US$186,90/sc, diferença essa bastante significativa em reais após conversão pela taxa média de câmbio nesse ano. Dentre os países produtores de café, são os cafeicultores brasileiros aqueles cujos valores recebidos mais próximos ficam da cotação de Nova Iorque. Assim, o exportador ao obter melhores preços pelo produto, ainda que fora do circuito da bolsa (pois essa praça não aceita o produto lavado brasileiro) transmite essa vantagem aos envolvidos nessa transação comercial. Portanto, esse é um benefício que não pode ser ignorado por nenhum agente desse agronegócio.

A abertura dessa possibilidade de entrega de café brasileiro na Bolsa de Nova Iorque confere ao produto do país e, consequentemente, aos seus cafeicultores a possibilidade de virem a participar do mercado de cafés finos, que se encontra em processo de expansão exponencial alavancado pelas estratégias das transnacionais da torrefação que definitivamente internalizaram a estratégia de agregação de valor ao produto por meio da venda por dose constituída por ligas de café de alta qualidade.

Ademais, a chance da Bolsa se tornar um dos possíveis compradores de café brasileiro amplia a concorrência pelo produto nacional, com repercussões favoráveis aos cafeicultores em termos de eficiência da formação de preços de seu produto. Ao se estruturar esse mecanismo de formação de preço para o produto de alta qualidade poderá inclusive auxiliar numa mais "justa" formação de preços para o café natural. Esses mercados funcionam como vasos comunicantes e alterações nas cotações de um tipo rapidamente se transmitem para o outro congênere.

Outros fatores pró-Nova Iorque podem ser explicitados: 1) a abertura de mais uma alternativa para a venda do café fortalece o poder de barganha dos cafeicultores frente aos seus clientes (traders, exportadores, torrefadores); 2) Nova Iorque sempre será um canal de comercialização de última instância, ainda que se considere a maior facilidade que é a possibilidade de entregar em São Paulo, comparativamente, à sua exportação para aquela praça e 3) a BM&F poderia criar uma cláusula dentro de seu contrato de natural com prêmio para cafés lavados e semi-lavados da mesma qualidade daquele contado no Contrato C em Nova Iorque. Com isso seriam estimuladas as operações de arbitragem carreando maior liquidez inclusive para a bolsa paulistana.

A certificação do café brasileiro por si só contribui para uma formação de preços mais justa e, conseqüentemente, melhor para os cafeicultores, que por natureza do ofício (obviedade necessária), comercializam café e esperam alcançar rentabilidade em seu negócio capaz de fazer frente aos custos incorridos e que ainda os permita manter um padrão de bem estar a altura das exigências de um país como o Brasil.

Independente da decisão final dos gestores da bolsa de Nova Iorque, a trajetória para a cafeicultura brasileira continuará firmemente apoiada no alicerce da inovação tecnológica/desenvolvimento com incremento da qualidade por meio de atenção total ao pós-colheita.

CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

Eng. Agr., MS Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade. Pesquisador Científico VI do IEA-APTA/SAA-SP

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WILLEM GUILHERME DE ARAÚJO

GUAXUPÉ - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 02/12/2010

Prezado Celso,

A diferença do grande profissional é a sensatez e a coerência das informações. Também não podemos deixar de citar a consistência dos dados apresentados em uma discussão tão complexa como esta. Parabéns pelo artigo e pelo excelente trabalho que vc presta ao setor cafeeiro, ao contrário de outros que somente lançam informações sem credibilidade nenhuma, porém como possuem alguma influência acabam causando turbulências no mercado que afetam diretamente os cafeicultores brasileiros.
CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

SÃO PAULO - SÃO PAULO

EM 27/10/2010

Prezado amigo cafeicultor
Seu apontamento enrriquece o debate que nesse espaço é tanto estimulado.
Grato pelo prestígio.
Att
Celso Vegro
REINALDO FORESTI

CAMPANHA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 27/10/2010

Brilhante e Respeitado Professor Celso Vegro. O cafeicultor brasileiro, cuja categoria com muita honra pertenço e tambem como Presidente do Sindicato Rural de Campanha, Sul de Minas Gerais e nas terras da Mantiqueira, cumprimento V,Sa pelo oportuno e tecnico-cientifico artigo em pauta, e como óbvio, temos muito haver com isto. Senão vejamos: O Brasil é o maior produtor de café do mundo,o segundo consumidor, está conseguindo padrão de qualidade, igual as melhores perfomances internacionais, desta feita é de grande interesse estratégico e nacional, voltarmos nossa atenção e apoio para esta iniciativa. Os fatores explicitados e a presença da BM&F, asseguram sucesso na empreitada. Peço licença, para informar, aos interessados na cafeicultura de montanha que a Faemg publicou estudo importante sôbre o assunto.Ver site www.inaes.org.br
CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

SÃO PAULO - SÃO PAULO

EM 25/10/2010

Salve PH
Somente sábias palavras são capazes de prender a atenção de consultor tão reputado como você. Teu testemunho ratifica a isso.
Grato pelo prestígio concedido.
Att
Celso Vegro
CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

SÃO PAULO - SÃO PAULO

EM 25/10/2010

Prezado Marco Antonio Jacob
Sou um privilegiado em possuir leitores como você. Além de captar toda a vitamina do texto é capaz de ir além e defender um discurso. Não tenho o que acrescentar. Sucesso!
Att
Celso Vegro
PAULO HENRIQUE LEME

LAVRAS - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 25/10/2010

Caro Celso,

Brilhante seu artigo! Colocou em números tudo o que vemos no mercado hoje.
Achei interessante sua análise onde o cafeicultor brasileiro é o que recebe valores mais próximos em relação à Bolsa de NY.
Realmente, a situação de outros países não é tão confortável, apesar dos valores nominais serem elevados.

Um abraço,

Paulo Henrique Leme (PH)
CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

SÃO PAULO - SÃO PAULO

EM 22/10/2010

Prezado Delvo Freire
Congratulo-me consigo nessa conquista conseguida pelo seu trabalho de consultoria. Criar exemplos é o melhor caminho para demonstrar como a seleção de estratégias bem delineadas podem trazer conquistas definitivas.
Boa sorte com a atual safra.
Celso Vegro
MARCO ANTONIO JACOB

ESPÍRITO SANTO DO PINHAL - SÃO PAULO - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 22/10/2010

Caro Celso ,

Prova-se mais uma vez que o maior aliado do cafeicultor é o consumidor.
Aproveito seu artigo para conclamar cada dia mais os produtores a produzirem cafés de qualidade , por via úmida ou naturais.
Creio ser importante também tornar bursatil no mercados internacionais o café natural , assim tornaremos mais transparentes e a formação de preço deste café, evitando-se cartéis importadores na formação dos preços , vide diferenciais praticados nos cafés finos naturais brasileiros.
Quero lembrar que a atitude tomada pelo Bolsa de New York , atual ICE , não é em defesa de nós brasileiros , mas sim sobrevivência da própria bolsa , pois as origens que atualmente compõe a oferta de cafés entregáveis começam a reduzir drasticamente suas produções , principalmente por serem países que produzem em montanhas , e consequentemente, produzem artesanalmente com grande incidência de mão de obra. No meu ponto de vista , com a desvalorização do dolar perante seus pares internacionais , o custo da mão de obra vem subindo , assim sendo o café de montanha terá suas produções declinantes , inclusive no Brasil.
DELVO FREIRE

BOA ESPERANÇA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 22/10/2010

- CELSO,
- GOSTEI MUITO DE SEU ARTIGO, PARABÉNS, - ACREDITO REALMENTE NO SUCESSO DE CAFÉ CEREJA DESCASCADO, ANO PASSADO CONSEGUIMOS PREPARAR MAIS DE 60%. - e conseguimos mesmo no mercado interno $ 50, 00 a mais na venda, - este ano nossa safra foi menor e devido as varias floradas - fizemos pouco mais de 30% deste tipo de café e conseguimos mais R$ 100,00 por saca!....
Continuamos nos aprimorando para fazer já nesta próxima safra um percentual maior.
abrs.
DELVO FREIRE