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A redenção da lavoura

POR CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

CELSO VEGRO

EM 11/01/2011

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O avanço do conhecimento agronômico sobre as práticas de manejo e preparo do café com qualidade de bebida, incrementaram-se enormemente nos últimos 20 anos. Muitas das inovações geradas tanto pelos centros de pesquisa como pelos próprios cafeicultores (irrigação branca, por exemplo), já alcançaram os principais cinturões produtores, colhendo êxitos em termos de ganhos da produtividade física das lavouras ou, ainda, do trabalho nelas empregado, repercutindo numa mais robusta competitividade para o agronegócio café do Brasil.

Porém, mesmo aqueles cafeicultores inseridos na fronteira do conhecimento tecnológico sobre as exigências da lavoura, viram-se sem condições de manterem-se economicamente sustentáveis ao longo do último ciclo de baixas cotações (que felizmente parece já encerrado e sepultado). A gravidade desse contexto expressou-se com maior e mais dura contundência, especialmente, entre aqueles que acumularam dívidas junto ao Sistema Financeiro Nacional. Desde a erradicação para substituição do uso da terra por outros cultivos e criações até mesmo o simples abandono, formaram imagens marcantes da década que se encerrou.

Havia ao longo de todo o ciclo de baixa, entretanto, relativa unanimidade entre os especialistas no cultivo do café: a ênfase total na qualidade da bebida! Por premissa, adotou-se o consenso, ainda que parcial, de que dificilmente o cafeicultor teria chances de se capitalizar oferecendo um produto de bebida inferior, uma vez que, aos preços recebidos por esse tipo de mercadoria imputavam-se expressivos deságios.

O argumento exposto, por vezes, mostrava-se inclusive paradoxal. Como proceder com investimento em infraestrutura de preparo quando os preços praticados nas praças de comercialização especializadas no produto, na melhor das hipóteses, recebiam a aberrante classificação de "duro para melhor". Esse foi, por exemplo, o maior empecilho para a adoção mais massiva do preparo cereja descascado com o agravante da exigência da comercialização antecipada, no pico da safra, para evitar o deságio decorrente do comum branqueamento das favas armazenadas. A imagem da sinuca de bico não poderia ser mais apropriada para ilustrar essa realidade.

A espetacular evolução recente nas cotações tratou de ratificar os defensores intransigentes da qualidade, pressuposto esse já quase na iminência de ruir perante a cruenta realidade pregressa de baixas cotações. A valorização do cereja descascado; cafés finos, de boa qualidade e duros com xícaras fracas, foi acentuada tanto no terceiro como no quarto trimestres de 2010 (Tabela 1).

O avanço acumulado das cotações para os naturais foi maior que o contabilizado para o cereja descascado. Esse fato não deve servir de desestímulo para a adoção da tecnologia de preparo de café com qualidade. Revela apenas que o mercado para o CD ainda não tem, por enquanto, quantidade de compradores capazes de gerar a disputa pelo produto especial, diferentemente dos naturais, em que todo o mercado demanda e compete. Disso decorre o relativo descolamento dos percentuais entre CD e naturais especiais. Tal aspecto deve mostrar uma guinada com a efetivação da participação dos cafés lavados e semilavados brasileiros na Bolsa de Nova Iorque.

Na outra face dos produtos de qualidade reconhecida e valorizada, têm-se os cafés destinados ao mercado interno e os de pior bebida. Tais tipos não apenas deixaram de acompanhar os tipos finos como, inclusive, exibiram queda nas cotações (caso do tipo rio). Os cafés menos reputados permanecerão com cotações ancoradas nas praticadas para o robusta sem defeitos (ausência de gostos indesejáveis - terra, fumaça, fermentações). Atenção! Esse fenômeno tenderá a ampliar ainda mais a diferença de preços entre os dois grupos de bebidas a cada safra que se seguir.

TABELA 1 - Cotações de café verde, por tipo, jul.2010 a jan.20111(em R$/sc)


1 Cotações médias vigentes ao qüinquagésimo dia de cada respectivo mês.
2 Cotação de 03/01/2011.
Fonte: Escritório Carvalhaes.

Os cafeicultores aderentes ao esforço de produzir café de qualidade, normalmente, não alcançam preparar mais que 30% a 50% de sua colheita total dentro dos tipos mais valorizados. O restante da quantidade colhida distribui-se entre os tipos menos conceituados (geralmente duros e riados destinados ao mercado interno). Também, para essa segunda metade da colheita, o esforço de aprimorar o preparo do produto é recompensado, pois, na esteira da valorização dos tipos mais refinados, os de menor reputação reverteram o deságio antes praticado pelos compradores para ligeiros incrementos que, ao fim e ao cabo, contribuem na amortização dos custos totais com a condução, colheita e comercialização de seu produto.

A revolução final de que ainda carecemos consiste na dificuldade em se suprimir de vez a classificação imprecisa e equivocada do "duro para melhor", praticada inclusive pelas cooperativas de cafeicultores que, por princípio, deveriam se aliar ao esforço dos produtores que fazem qualidade, reconhecendo-a e valorizando-a e não a escondendo por detrás de uma classificação que sequer legalmente existe. As lideranças individuais e institucionais da cafeicultura precisam se mobilizar para extinguir e enterrar o "duro para melhor" o bem da transparência comercial, da renda dos cafeicultores e da satisfação dos consumidores daqui e de além!

Sem aderir aos que ingenuamente acreditam que a história é cíclica e, tampouco, escorregar para o exagero, creio que a qualidade da bebida deveria ser considerada como o "Acordo de Taubaté" do século XXI, melhor ainda, a verdadeira "Salvação da Lavoura".

CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

Eng. Agr., MS Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade. Pesquisador Científico VI do IEA-APTA/SAA-SP

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PAULO HENRIQUE LEME

LAVRAS - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 25/01/2011

Caro Celso,

Estou de acordo.

O que me preocupa agora é que ao contrário da crise mundial, onde a renda do consumidor diminuiu, mas os preços ficaram estáveis no varejo ou houve a migração para outras alternativas mais baratas por xícara (como a migração do espresso de fora de casa para dentro de casa), atualmente, a renda do consumidor está inalterada na maioria dos países consumidores.

Por consequência, se houver um aumento generalizado nos preços em TODAS as formas de consumo, aí sim abriremos espaço para os mais temíveis concorrentes: refrigerantes, bebidas prontas para beber, chá e outras novidades como águas saborizadas e etc. As opções são muitas.

Porém, otimista que sou (risos), acho que o hábito de tomar café continuará se reinventando.

A alternativa para cafeterias e indústria é essa mesma: se reinventar, criar novas formas de preparo e consumo, buscar cafés diferenciados e especiais, de forma a mostrar ao consumidor que existe um valor agregado maior. É a melhor forma de justificar uma alta nos preços da xícara.

O que não pode acontecer é colocar a culpa nos cafeicultores, que por 10 anos sustentaram a indústria do café e esperar que os preços voltem a cair.

Vamos aguardar as cenas dos próximos capítulos.

Um abraço,

Paulo Henrique Leme (PH)



CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

SÃO PAULO - SÃO PAULO

EM 24/01/2011

PH
Teremos pela frente os chamados anos da ansiedade. Sob todas as circunstâncias fatos nos estarão a surpreender e gerar ansiedade global.
Quero só ver os administradores e economistas racionalizarem esse ambiente tão cheio de estresse.
Acompanhe essa gritaria em razão das cotações e vá nos informando, pois teremos material para repensar a inelasticidade. Lembra-se de meu artigo "O apanágio da inelasticidade", chegou a prova dos nove.
Abçs
Celso Vegro
PAULO HENRIQUE LEME

LAVRAS - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 21/01/2011

Caro Celso,

Já temos conhecimento de importadores reclamando dos altos preços, dizendo que não será possível repassar o aumento aos consumidores estrangeiros.

A crise mundial provou que o consumdior não abandona seu hábito de tomar café de qualidade e certificado (sei que há controvérsias), porém, até que ponto ele resisitirá a um aumento dos preços nas gôndolas? Será que a inelasticidade continuará intacta?

Um abraço,

Paulo Henrique Leme (PH)
CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

SÃO PAULO - SÃO PAULO

EM 20/01/2011

PH
Seja bem vindo. Eu aqui a escrever análises mensais e você a desaparecer sem as comentá-las. E o retorno é marcado por argutas interpretações dos fenômenos sociais. De fato deve haver mais de uma explicação para o fato do cereja não alcançar a mesma variação de preços que os demais tipos de naturais. Uma outra possibilidade é a dificuldade de repassar para o varejo preços tão vertiginosamente altos.
Há braços.
Celso Vegro
JULIANO TARABAL

PATROCÍNIO - MINAS GERAIS

EM 20/01/2011

Caro Celso,

Muito bom ver novamente este tema levantado. Ha muito em que se caminhar ainda quanto a normatização da classificação do café, neste caso em especifico da qualidade da bebida. Me lembro ainda quando iniciei no café, quando eu atuava como classificador e degustador que era dificil pra mim o entendimento do que era um "duro mais" , "duro para melhor", "apenas mole", "café fino", enfim, com o tempo voce se acostuma, mas como voce mesmo citou com o avanço do conhecimento agronomico não podemos ficar estacionados neste classificação um tanto quanto subjetiva e ultrapassada que nada mais nada menos precifica o valor do produto café in natura.

Tem ainda outros inumeros pontos que poderiamos abrir aqui com relação a classificação e precificação do café, tais como SCAA, entre outras, mas vamos deixar para uma outra, por hora o artigo demonstrou bem o direcionamento.

Abraço.

Juliano Tarabal
Fundação Café do Cerrado
PAULO HENRIQUE LEME

LAVRAS - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 19/01/2011

Caro Celso,

Sua análise é um excelente resumo do que vimos no mercado em 2010 e nos ajuda a projetar o futuro também.
De fato, a qualidade organoléptica do café começa a se sobressair, finalmente!
Na minha modesta opinião, o preço do cereja descascado só não subiu mais, porque ocorreu justamente o contrário: faltou CD. Contraditório, mas eu explico.
As negociações dos produtores com os compradores do CD pararam no ponto em que não havia mais o que ser comercializado. Outra possível razão, é o produtor estar retendo este café para comercialização futura. Não há negócio, não há preço. O que você acha?

Um abraço,

Paulo Henrique Leme
P&A Marketing Internacional
PAULO ROBERTO PINTO DE AZEVEDO

SALVADOR - BAHIA

EM 19/01/2011

gostaria de saber qual a participação percentual da aplicação do gesso agricola no processo de aprimoramento da qualidade do cafe.
CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

SÃO PAULO - SÃO PAULO

EM 17/01/2011

Prezado Claúdio Fagundes

A situação dos compradores/provadores é das mais difíceis. Explicar as sutilezas do processo de compra do café vigente no mercado torna esse procedimento dos mais espinhosos. Caminhar para um sistema de compra mais transparente é direcionamento inexcapável para se alcançar um patamar mais sólido para o agronegócio café.

Grato pelos comentários.

Att

Celso Vegro
SIDNEI DOS SANTOS

CAMPOS GERAIS - MINAS GERAIS - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 17/01/2011

Abraço aos escritores ,

Att
CLAUDIO ANTONIO FAGUNDES

COROMANDEL - MINAS GERAIS

EM 14/01/2011


Boa tarde a todos,
Celso, sou gerente comercial de cafe da Cooperativa CAMDA, atualmente, estou em Adamantina - SP, e concordo plenamente com que voce colocou, e acrescento ainda mais, estas cotações que são passadas pelos orgãos de imprensa, deixam ainda mais preocupados os produtores e nos que comercializamos, pois toda vez temos que ficar explicando o diferencial de cafe fino, cafe duro para melhor, etc., e isto vai desgastando a ideia do comercializador e o produtor, que esta falando a verdade??, e quem esta ganhando atras disso. São questões como esta que o pais não vai para a frente, e preciso moralizar o mercado, e tambem as divulgações dos preços, sabemos que se trantando de cafe, a muitas variaveis de padrões, tipos, bebida, peneira, para se chegar num determinate, mas se chegarmos num consenso de unificar em uma classe de 5 tipos de classificação, para dai avaliar o seu preço, seria de muita valia, pois assim o mercado saberia que o seu cafe estando próximo desta classificação, tem tal valor, o que não ocorre nos dias de hoje. Um outro ponto que voce começou a falar e não completou, e quanto a qualidade, que hoje, o produtor no caso especifico da minha região, deixou de se preocupar devido a baixa remuneração do produto, nos ultimos anos, o que agora nos deixa bastante preocupado, pois o que sentimos e que a cada dia o mercado busca e a qualidade, e com isto o produtor se acha no direito de ter um preço que condiz, com as cotações dos cafes finos, pois acha que a diferença esta muito grande, eu ate concordo, mas tambem a qualidade que esta sendo produzida não e satisfatoria, nem o seu manejo de terreiro, no caso expecifico da minha região, em suma, juntando tudo isso, nos do departamento de comercializãção ficamos numa sinuca de bico, e temos que nus virar para explicar, buscar o melhor preço, e sempre seremos os culpados, mas nunca dixamos de informar que os seus procedimentos estão errados, precisa melhorar a qualidade, mas o que sentimos e que muito pouco se atende aos nossos conselhos, outros preferem e reclamar, pois fica mais fácil.
CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

SÃO PAULO - SÃO PAULO

EM 13/01/2011

Prezado Roberto Fernandes
Tremenda essa sua manifestação. Diante da contundência com que foram proferidas só me resta calar.
Abçs
Celso Vegro
ROBERTO DE CAMPOS FERNANDES

CAMPOS GERAIS - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 12/01/2011

Uma tese interessantíssima a do especialista em qualidade de café, mestre Celso Luis Rodrigues Vegro. Conhecedor e divulgador do bom café. Não é por menos ser co-autor do excelente livro "Café Um Guia do Apreciador", da Editora Saraiva.
A cafeicultura evoluiu muito nos últimos 20 anos como ressaltou o articulista. Porém, o mercado de café brasileiro, principalmente os praticados até por renomadas cooperativas, convive com expedientes ultrapassados e que não se alinham com a evolução no âmbito de cultivo e da qualidade. Ainda impera a figura do comprador de café, inclusive, dentro das cooperativas, que querem pechinchar. São pessoas desagradáveis. Horríveis figuras da cadeia produtiva do café. Isso tudo não existiria se o café fosse classificado e cotado nos termos da Instrução Normativa nº 18, de 11/06/2003, do Ministério da Agricultura, ao mesmo tempo em que o mercado disponibilizasse cotações diferenciadas pelos tipos de bebidas especificados na norma e não pela generalização do "duro para melhor" ou "cafés finos". Nessa norma há toda descrição de como deve ser o procedimento de amostragem visando proteger o produtor, porém, talvez, nenhuma cooperativa cafeeira ou comprador de café faça da Instrução Normativa, uma norma de conduta. Vale lembrar que até mesmo o indicador Cepea não diferencia os preços dos cafés finos. Que o Ministério da Agricultura tome providências visando a justa remuneração dos produtores. Parabéns ao pesquisador e à reportagem. Esse é um grande desafio do Ministério da Agricultura em prol da remuneração justa dos produtores. A Emater de MG já veiculou no CafePoint interessante matéria sobre o conhecimento por parte dos produtores do valor do café pelos mesmos produzidos(12/11/2010: Produtores classificam café para obter melhores preços).
Outra questão relacionada ao assunto que deve ser muito bem analisada pela cadeia produtiva e principalmente pelo Ministério da Agricultura é o referencial de preço praticado e pago aos produtores brasileiros. Qual o referencial de preço? Cepea, as cotações da OIC para os suaves brasileiros, a BMF, ou o comprador de cooperativas? O produtor é sempre o maior prejudicado, razão pela qual convive com as dívidas. Entre as cotações da OIC para os suaves brasileiros e até mesmo da BMF existe um enorme diferencial de R$ pago aos produtores brasileiros. É preciso transparência e justa remuneração aos produtores.