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Aplicação de uréia em cobertura para a cultura do café

Por André Guarçoni M.
postado em 15/08/2006

28 comentários
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Dias atrás, um amigo cafeicultor me perguntou se poderia aplicar uréia sobre as folhas de café caídas no chão ou se precisaria limpar o local da aplicação. A resposta foi simples e direta. Entretanto, essa simplicidade é embasada em muitos aspectos teóricos. Tentaremos abordar alguns deles, para que o leitor do CaféPoint possa decidir por si mesmo, o que, na cafeicultura empresarial, é o mais adequado.

A uréia é um adubo mineral sintetizado industrialmente, com, aproximadamente, 44 % de N, cuja fórmula química é CO(NH2)2. É sintetizada a partir da combinação de amônia (NH3) líquida com gás carbônico.

As plantas não absorvem a uréia diretamente, esta deve ser transformada em NH4+ (amônio) ou NO3- (nitrato), que são as formas preferencialmente absorvidas. Ao se aplicar a uréia no solo, esta é rapidamente hidrolisada pela ação da urease, enzima liberada por microrganismos, formando NH4+ segundo a reação simplificada:

CO(NH2)2 + 2 H2O --> 2 NH4+ + CO32- + OH-.

Pela reação, pode-se notar que, além da formação de NH4+, há liberação de OH-, o que eleva bastante o pH em torno do grânulo de uréia aplicado. O NH4+ formado poderá ser absorvido pelas plantas, imobilizado por microrganismos, convertido à NO3- por meio da nitrificação ou adsorvido por forças eletrostáticas aos sítios de troca do solo. Além disso, pode ocorrer a rápida transformação do NH4+ em NH3 (g) (amônia), que é um gás e se perde para a atmosfera, fenômeno denominado como volatilização da amônia.

A reação simplificada de volatilização da amônia é a seguinte:

NH4+ + OH- ↔ NH3 (g) + H2O

Quanto mais alcalino o solo (maior pH), mais a reação tenderá para a direita, ou seja, formação de NH3 (g). Dessa forma, há um feito cumulativo das duas reações, gerando elevada volatilização de NH3 (g). Na hidrólise da uréia há formação de OH- que, em conjunto com o OH- proveniente do solo, irá reagir com o NH4+, causando elevada perda de nitrogênio do sistema solo:planta na forma de NH3 (g).

As perdas de nitrogênio por volatilização da amônia, quando se aplica a uréia em cobertura, estão compreendidas entre 25 - 30 % da quantidade aplicada, podendo chegar a 70 % dependendo do solo e da forma de aplicação.

Como a urease é uma enzima "fabricada" por microrganismos, e, quanto mais as condições do meio favorecerem a atuação dos mesmos, maior a produção de urease e maior a transformação da uréia em NH4+, com possíveis perdas de nitrogênio por volatilização de NH3 (g). Essas condições favoráveis são: pH elevado, umidade, temperatura elevada e presença de restos culturais.

Para reduzir as perdas de nitrogênio por volatilização, quando se aplica uréia em cobertura, deve-se, portanto, utilizar um manejo que equacione as condições acima descritas e algumas outras características do solo.

Ph

O pH do solo que promove melhor desenvolvimento do cafeeiro tende a favorecer volatilização de NH3. Em relação a isso, pouca coisa pode ser feita, mas deve-se evitar, se possível, a aplicação superficial de uréia em solo com pH mais elevado. A capacidade de tamponamento do pH do solo também pode interferir na volatilização de NH3. A aplicação superficial de uréia promove aumento do pH ao redor dos grânulos, o que favorece a volatilização da amônia. Este aumento do pH é mais acentuado em solos arenosos, com baixa capacidade de tamponamento, especialmente quando são aplicadas elevadas doses de N.

Umidade

O umedecimento do solo, imediatamente após a aplicação da uréia, é mais importante do que a condição de umidade do solo no momento da aplicação. A água diminui a volatilização da amônia se for suficiente para diluir a concentração de OH- ao redor dos grânulos de uréia, além de proporcionar a incorporação de uréia ao solo. Se a quantidade de água for suficiente para incorporar a uréia ao solo, como numa chuva ou irrigação, as perdas de N por volatilização são mínimas. A ação da água deve ocorrer o mais rápido possível, pois a maior perda de nitrogênio por volatilização se dá em até seis dias após a aplicação da uréia.

Temperatura

Em temperaturas mais baixas a ação dos microrganismos é reduzida, diminuindo a hidrólise da uréia. Portanto, se pode esperar menores perdas de nitrogênio por volatilização em lavouras de café arábica, em relação a lavouras de café conilon, devido às exigências climáticas das duas espécies.

CTC

Solos com elevada CTC apresentam elevada capacidade de reter o NH4+, o que dificulta a volatilização de amônia. Por isso, a volatilização é menor em solos argilosos do que em solos arenosos.

Restos Culturais

Os restos culturais podem aumentar ou reduzir o efeito das condições acima descritas. Se por um lado, os restos culturais, que estimulam a ação dos microrganismos e elevam a concentração e a atividade da urease, podem aumentar a volatilização da amônia, por outro lado, diminuem a temperatura do solo e a perda de umidade por evaporação, além de aumentar a CTC do solo, o que pode diminuir a volatilização da amônia.

No entanto, quando se aplica a uréia sobre os restos culturais, como folhas caídas no chão, estes impedem o contato imediato da uréia com o solo. Com isso, possíveis retenções de NH4+ nos sítios de ligação do solo não ocorrem. Mas a hidrólise da uréia continua, pois existem microrganismos e umidade nesses restos vegetais. Nesse caso, as perdas de nitrogênio por volatilização serão elevadas.

Considerando as condições descritas, pode-se separar três situações para aplicação de uréia em cobertura:

a)A presença de restos culturais na superfície do solo diminui as perdas de nitrogênio por volatilização quando eles proporcionam menor temperatura e maior umidade ao solo, em comparação ao solo descoberto. Entretanto, a aplicação de uréia sobre esses restos causa elevada perda de nitrogênio por volatilização.

b)Em condições semelhantes de umidade no solo, o que ocorre com a aplicação de uréia, logo após a chuva, a perda de nitrogênio por volatilização é maior se a uréia for aplicada sobre as folha caídas no solo.

c)Quando ocorre chuva ou é realizada irrigação logo após a aplicação da uréia, a perda de nitrogênio por volatilização é a mesma, com a aplicação sobre folhas caídas ou se essas forem retiradas.

Mas qual foi a resposta, simples e direta, transmitida ao amigo produtor?

A resposta foi: Tanto faz. Tanto faz, pois as perdas podem ser maiores ou menores em relação a um caso ou outro, mas, mesmo assim, serão elevadas em ambos. Se a uréia for aplicada em cobertura, sobre as folhas caídas no chão ou sobre o solo nu, as perdas de nitrogênio por volatilização da amônia serão muito grandes. Exceto se chover ou se for realizada irrigação logo após a aplicação da uréia.

No Quadro abaixo são mostrados exemplos de perdas de nitrogênio por volatilização em três situações, uma de baixa, uma intermediária e outra de elevada perda. Foram calculadas as perdas em sacas de uréia de 50 kg/ha e quanto se perde em dinheiro, considerando o preço da saca de uréia de R$ 45,00 e a aplicação de 20 sacas de uréia por hectare, ou seja, condição plausível para elevada produção.


Obviamente, as perdas são menores em uma condição onde a volatilização de amônia seja baixa. Mas, mesmo assim, quem quer perder R$ 225,00/ha na adubação nitrogenada, considerando apenas as perdas por volatilização? Devemos substituir a uréia por sulfato de amônio, que "não perde" nitrogênio por volatilização?

Não! A substituição indiscriminada de uréia por sulfato de amônio é um equívoco. Apenas em algumas situações particulares ela é indicada. A uréia contém 44 % de N e o sulfato de amônio contém 20 % de N. Se houver uma perda de 50 % do N contido em uma saca de uréia, ainda assim a quantidade aplicada de N será maior do que numa saca de sulfato de amônio.

Para reduzir a volatilização de amônia e a perda de nitrogênio quando a uréia é aplicada em cobertura, basta cobri-la com uma camada de terra de, aproximadamente, 4 cm de espessura após a aplicação. Agindo assim, em solo mais úmido e com a expectativa de chuva próxima, as perdas de nitrogênio por volatilização de amônia são insignificantes.

Essa é a forma mais eficiente de se aplicar uréia em cobertura e foi minha recomendação ao amigo cafeicultor. Felizmente, agora ele sabe que, se não agir assim, deve estar preparado para perder, só na adubação nitrogenada, R$ 225,00 ou mais por hectare, apenas pela volatilização de nitrogênio na forma de amônia.

Com essas informações ele pôde tomar sua decisão, bem como, poderão os leitores do CaféPoint.

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Comentários

Luiz Antônio Valle Guimarães

Vitória - Espírito Santo - Produção de café
postado em 16/08/2006

Qual o intervalo que devo observar entre a aplicação de calcário e a adubação?

Lavoura de café conilon, Jussari, Litoral Sul da Bahia.

Obrigado pela atenção.

Prezado Luiz Guimarães,

Na realidade não há um período de tempo fixo a ser cumprido entre a calagem e a aplicação de adubos. Em muitas publicações, especialmente folhetos de revendas ou manuais técnicos, sugere-se em torno de 60 a 90 dias. Elas não estão erradas. Mas deve-se entender o porquê, para que você possa tomar sua decisão.

Não há necessidade de longo período de tempo para que ocorra a reação do calcário no solo. Necessita-se, sim, é de água. As sugestões de longo período de tempo acertam nesse ponto, pois 60 a 90 dias após a aplicação do calcário, certamente, já haverá chovido bem. Mas, e se em 30 dias já tiverem caído algumas boas chuvas ou houver irrigação constante na área? Nesse caso, pode-se aplicar o adubo tranqüilamente, pois a reação do calcário vai estar completa.

Resultados de Veloso et al. (Sci. Agri. 49(1):123-128, 1992) mostram que, em 25 dias após a calagem o pH do solo atingiu seu valor máximo, estando o solo, constantemente, com 30 % de umidade. Portanto, mais importante do que o período de tempo após a calagem, é a quantidade de água no solo e a constância de sua aplicação, seja na forma de chuva, seja na forma de irrigação.

Qualquer dúvida volte a escrever para o CaféPoint.

André Guarçoni Martins.

Gilberto Guarido

Campo Mourão - Paraná - Consultoria/extensão
postado em 18/08/2006

Dr. André,

O que voce pensa sobre o SUPER N em substituição à uréia, considerando-se o tema abordado nesta matéria sobre a aplicação em café?

Prezado Gilberto,

Como você bem sabe, mas outros leitores podem não estar tão bem informados, Super N é o nome comercial de uma uréia (45 % de N) que recebe um produto inibidor da urease. Portanto, se não há ação da urease, não há hidrólise da uréia e, conseqüentemente, não há formação de NH4+ e possíveis perdas de N por volatilização da amônia.

Realmente, esse tipo de fertilizante é uma alternativa muito interessante para aplicação em culturas perenes, como o café, que não necessitam de absorção imediata de nitrogênio. Isso porque o inibidor leva, aproximadamente, 15 dias para perder seu efeito e, como ressaltamos no artigo, as plantas não absorvem a uréia diretamente, sendo que esta deve ser transformada em NH4+ ou NO3>-, para que ocorra absorção. Assim, enquanto o inibidor da urease não perder seu efeito, praticamente não haverá absorção de nitrogênio oriundo do adubo.

Se a época da adubação nitrogenada for planejada, levando esse fato em consideração, pode-se obter bons resultados com o adubo mencionado, pois em 15 dias é possível que ocorra uma boa chuva capaz de incorporar o fertilizante ao solo, reduzindo drasticamente as perdas de nitrogênio por volatilização.

A partir desses 15 dias, o Super N funciona como uma uréia comum e, se não chover ou não for realizada irrigação, dentro desse intervalo de tempo, perderá nitrogênio por volatilização em grande quantidade, se estiver sobre a superfície do solo.

O ponto mais importante a ser considerado, no entanto, é a diferença de preço entre o Super N e a uréia comum. No artigo, mostro um pequeno cálculo para se estimar as perdas em dinheiro se a uréia for aplicada em cobertura, como também a forma de aplicação para que a perda seja insignificante. Você pode fazer o mesmo cálculo para a sua situação e comparar com a diferença de preço do Super N em relação à uréia comum. Tenho certeza de que você fará a melhor escolha entre os produtos para o seu caso particular.

Qualquer dúvida volte a escrever para o CaféPoint.

André Guarçoni Martins

Pablo Menezes

Teixeira de Freitas - Bahia - Consultoria/Produção de café
postado em 09/10/2006

Em épocas de altas temperaturas e menor quantidade de chuvas, eu teria uma relação custo/benefício melhor com a utilização do nitrato de cálcio no lugar da uréia?

Prezado Pablo,

Sua pergunta é muito pertinente. Calcular a relação custo/benefício dos insumos é a forma correta de decidir sobre qual ou quais utilizar.

Coletei preços dos dois produtos e, na média, os valores foram: uréia R$ 50,00/saca de 50 kg; nitrato de cálcio R$ 39,15/saca de 25 kg. Devemos lembrar que a uréia contém 45% de N, o nitrato de cálcio contém 14% de N e, além disso, pode-se considerar que este não perde N por volatilização. Com essas informações montei o quadro abaixo:



A partir dos resultados acima, você pode verificar que o nitrato de cálcio irá apresentar uma relação custo/benefício mais atraente que a da uréia, apenas quando as perdas por volatilização de N, proveniente da uréia, forem maiores do que 80 %.

Vale ressaltar que perdas acima 80 % raramente ocorrem e que se houver aplicação correta da uréia, na situação por você apresentada, as perdas ficam em torno de 50 % ou ainda menores, se for aplicada uma camada de 4 cm de solo sobre a uréia. Esses resultados dizem respeito apenas ao N.

Se você quiser fornecer cálcio, nem precisa fazer os cálculos, pois o calcário é imbatível. Se o solo apresentar um pH já elevado, deve-se aplicar o gesso, que trás muitos benefícios além de fornecer cálcio (ver o artigo "Aplicação de gesso agrícola para a cultura do café").

Pelo que foi mostrado, não consigo entender, realmente, porque tantos produtores optam pelo nitrato de cálcio para fornecer N ao cafeeiro.

Você, que trabalha diretamente com produtores, deveria alertá-los sobre isso. Todos nós temos um papel a desempenhar na cadeia produtiva do café.

Qualquer dúvida volte a escrever para o CaféPoint.

André Guarçoni Martins.

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