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Onde começa a crise?
Os efeitos dessa revolução na disseminação de dados sobre a vida humana constituem um tópico de considerável debate. Embora sejam inegáveis as vantagens trazidas pela Internet, seguimos com capacidades cognitivas semelhantes; em outras palavras, não se pode dizer que nosso dom de processar informação seja capaz de acompanhar o seu crescimento exponencial. Indo além, Mario Vargas Llosa acredita que a Internet esteja mudando nossa própria atitude em relação ao conhecimento: mais impacientes devido à rapidez para a sua obtenção e à oferta crescente, estamos perdendo o hábito da concentração durante longos períodos de tempo.
Deixemos, porém, a discussão acerca dos aspectos cognitivos relacionados à tecnologia para um outro momento. Essa longa introdução, na verdade, não é mais do que o reflexo de nossa dificuldade de produzir algo original em uma data tão visada por colunistas e blogueiros. Era impossível não escrever sobre o 11 de setembro. Discorrer sobre o tema, porém, significaria se juntar aos milhões de textos já publicados, muitos dos quais com enorme qualidade. Como acrescentar algo novo a esse debate, então?
Nos últimos dias, muito tem se falado sobre o efeito dos atentados terroristas aos EUA. É comum encontrar análises que relacionem esses eventos a um declínio do poder norte-americano no globo. Ao longo de uma década, marcos históricos são facilmente encontrados.
Pois bem, queremos fazer algumas ressalvas a essa linha de raciocínio. Mais especificamente, consideramos que as dificuldades enfrentadas pelos EUA na atualidade se devem menos a Bin Laden do que muitos imaginam.
Embora um evento lamentável, o 11/09, sob uma lógica econômica, não é mais do que a prova de que os seres humanos podem usar a sua inesgotável criatividade tanto para o bem quanto para o mal. Nesse sentido, os atentados terroristas são semelhantes a outros eventos infames da história mundial, não evitados porque nem sempre as forças dedicadas a impedi-los são tão criativas ou eficientes. Nunca é demais lembrar, já na década de 1990 extremistas árabes tentaram derrubar o World Trade Center, sem êxito.
É verdade que, graças aos atentados terroristas, as despesas militares dos EUA dispararam, complicando ainda mais a situação atual. Os gastos norte-americanos, porém, têm mais a ver com a predisposição do governo a intervir em áreas consideradas estratégicas do que ao atentado em si. Isso é especialmente verdadeiro no caso do Iraque. Seja por causa do petróleo, para reparar um arrependimento do pai, pela existência de armas químicas e biológicas ou para levar a democracia ao Oriente Médio, não importa; basta enfatizarmos que a decisão de George W. Bush, aconselhado por seus assessores, vai além dos atentados terroristas. Para caçar Bin Laden, bastaria uma intervenção do Afeganistão, com o apoio de ampla coalização de países.
Se a importância dos EUA está diminuindo no mundo, conforme muitos argumentam, espera-se que alguém esteja se equiparando ao "Império". Ora, a economia da China não cresce porque Osama Bin Laden contou com a colaboração de algumas dezenas de fanáticos religiosos. Se os chineses ganham um papel crescente no cenário internacional, é por seu inesgotável estoque de mão de obra e mercado consumidor crescente, apenas para citar duas de suas características mais importantes.
Os norte-americanos, entretanto, passam por dificuldades econômicas, não? Se não é por causa do Bin Laden, quem é o culpado? Acreditamos que, em certa medida, é o objeto dos primeiros dois parágrafos uma razão indireta importante para a atual crise. A Internet, ela mesmo, além de nos trazer uma quantidade enorme de informação diariamente, possibilitou a criação de um mercado gigantesco em meados da década de 1990. Eram momentos "felizes" nos EUA: crescimento acelerado, lucros em alta, a impressão de que o liberalismo alcançaria todas as partes do globo, enfim, havia chegado o "fim da história", como afirmou Francis Fukuyama.
Chegou um momento, porém, que esse mercado não tinha mais como crescer. Resultado: o estouro da bolha. O mundo que assistiu aos ataques ao World Trade Center vinha desse chacoalhão no "mercado .com", enquanto os seus participantes, mimados, seguiam sedentos pelos lucros da década de 1990. A solução encontrada pelos norte-americanos: ainda mais desregulamentação, com a abertura para a consolidação de práticas que culminariam nas crises de 2008 e nas atividades atuais.
Obviamente, a história é mais complexa do que os cerca de 5.000 caracteres desse texto parecem demonstrar. O que queremos demonstrar é que, ainda que o World Trade Center estivesse de pé, é provável que os EUA estariam em dificuldades. Afinal, as políticas relacionadas ao mercado financeiro pouco têm a ver com o Bin Laden, como tampouco o tem o apetite dos neo-conservadores por objetivos estratégicos dos norte-americanos. Com respostas distintas, o 11/09 talvez ficasse na história como um triste evento, seguido por uma crise de confiança dos consumidores norte-americanos destinada a sumir com o passar dos dias. Infelizmente, o buraco o qual nos metemos é mais fundo do que o causado por qualquer fanático religioso.
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