CaféPoint: A estiagem nas regiões produtoras de café já causa grandes preocupações e até já interfere no mercado. A última frente fria amenizou a situação?
Celso Oliveira: Pelo contrário, obtive informações, hoje, de que a última frente que fria que chegou aqui à região Sudeste, chegou a provocar chuvas agrícolas em algumas regiões do Sul de Minas. Chuvas bastante isoladas, mas que foram significativas. Chuvas de 30 a 40 milímetros que, infelizmente, já despertaram a florada em lavouras de café.
Isto é muito preocupante porque não há mais previsão de chuvas, pelo menos, nos próximos quinze dias e as temperaturas prometem ser bem elevadas, causando um sério transtorno para estas áreas que receberam chuvas, na semana passada.
CaféPoint: Seria melhor até se não tivesse chovido, então?
Celso Oliveira: Exatamente. A melhor alternativa numa situação dessa é que não chova. Isso me lembra muito a primavera de 2002, que foi exatamente assim. Houve uma chuva forte em agosto, depois parou de chover e isto foi muito prejudicial para as culturas perenes como um todo. Isso promete acontecer novamente.
CaféPoint: Hoje, temos a consulta do internauta Ricardo Marques Furtado, de Conceição do Mato Dentro/MG. Ele pergunta sobre a condição climática na sua região nos próximos meses.
Celso Oliveira: Vamos falar um pouco sobre Conceição do Mato Dentro, que teve uma situação bem interessante, ou até mesmo, triste, no início do ano.
Conceição do Mato Dentro fica entre 100 e 150 quilômetros a nordeste de Belo Horizonte. Este município foi bastante influenciado pelas condições do tempo, neste ano. O Sr. Ricardo deve ter entrado em contato, provavelmente por isso.
No verão passado, nós tivemos a formação de um sistema, sobre o Nordeste, chamado vórtice ciclônico de altos níveis. É como se fosse uma massa de ar seco que atua, durante o verão, por volta de três a quatro semanas, causando tempo seco e extremamente quente.
CaféPoint: É o problema que, normalmente, atinge o Extremo Sul da Bahia?
Celso Oliveira: Sim. Normalmente, se forma sobre a Bahia, mas nesse ano, além do Extremo Sul da Bahia, nós tivemos problemas também no café conilon do Espírito Santo, devido ao tempo seco e muito quente, nesta região e até na região de Conceição do Mato Dentro. O tempo ficou muito seco e as temperaturas muito elevadas nos meses de janeiro e fevereiro e isto trouxe um prejuízo para as culturas de café conilon.
Em seguida ocorreram chuvas muito intensas e concentradas, bem acima da média, na região de café conilon do Espírito Santo e também na região de Conceição do Mato dentro.
Agora, temos o tempo seco que é normal para a época do ano, mas a preocupação do Sr. Ricardo é com a volta das chuvas, cuja previsão aponta para irregularidade. Mais um perigo, aí, para a florada do café, na região da Zona da Mata Mineira. Os modelos de previsão do tempo mostram que as chuvas devem permanecer irregulares, pelo menos, até novembro.
Ou seja, toda a primavera deve ser de chuvas irregulares na região de Conceição do Mato Dentro, onde, em anos normais, as chuvas já retornam entre outubro e novembro. Logo, os dois últimos meses da primavera prometem ser relativamente secos nessa região e em boa parte do Sudeste do Brasil.
Esta situação não se restringe apenas à região de café da Zona da Mata de Minas, mas atinge também a região da Mogiana, aqui em SP, e boa parte do Sul de Minas Gerais, principais regiões produtoras de café do Brasil.
Apenas na região Sul do país, a região de Londrina deve ter chuvas mais dentro da normalidade, voltando, agora em setembro, e, principalmente, a partir de outubro, dado à maior freqüência de frentes frias, com o aumento da umidade do ar.
CaféPoint: Se bem, que, naquela região, a situação, hoje, é até mais crítica que no Sul de Minas, não?
Celso Oliveira: É certamente mais crítica, porque, lá, já perdura uma estiagem mais duradoura. Desde o ano passado, ou desde o verão, não chove no Paraná, de uma forma geral, não só nas áreas de café.
Todas as áreas agrícolas do estado passam por um problema sério de estiagem, mas já existe, pelo menos, uma data próxima para que haja uma redução do problema. Ou seja, entre setembro/outubro, quando a atmosfera volta para uma condição de neutralidade climática.
CaféPoint: Neutralidade em relação à La Niña?
Celso Oliveira: Sim. É interessante observar que as águas do mar, no Pacífico, já estão numa condição de neutralidade. Mas a atmosfera não. Ela demora um pouco mais a responder às mudanças de temperatura das águas do mar. Por isso mesmo, as frentes frias continuam saindo para o oceano e não provocando chuvas no interior do Brasil.
Na primavera a tendência é que estas frentes avancem de forma mais continental, porém, como ainda não há neutralidade, elas não conseguem avançar mais que até o Paraná. Há chuvas fortes no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, mas a partir de São Paulo, as chuvas são irregulares.
CaféPoint: Então, é possível resumir que, no Paraná, hoje, a situação é pior, mas, a perspectiva é melhor, pois, uma vez chovendo, haverá regularidade?
Celso Oliveira: Sim. E a chuva virá antes que nas demais áreas de café. Volta a chover regularmente em setembro/outubro, enquanto que, nas outras áreas, há expectativa de chuvas constantes apenas lá para dezembro.
CaféPoint: Dr. Celso, eu gostaria de voltar na região afetada pelos vórtices. Ou seja, desde a margem direita do rio Jequitinhonha, na Bahia, até o Espírito Santo, a previsão é de que as chuvas também sejam irregulares?
Celso Oliveira: A previsão é de que, para esta região, e mesmo para o interior do Nordeste, a volta das chuvas também seja irregular. Mas, para esta última região, pode-se até "comemorar" este atraso, pois, quando ele ocorre, as chances de formação dos vórtices diminuem, e com isso, o período chuvoso é mais longo.
CaféPoint: O verão é melhor, então?
Celso Oliveira: Sim. Se as chuvas atrasam, elas, normalmente, são uniformes até o final da estação. Enquanto que, se elas vêm na época "normal", é quase certo que haverá problemas com vórtices, entre o final de janeiro e o início de fevereiro, bem na época de granação do café, que é o momento em que a cultura mais precisa de água.
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