O palestrante iniciou sua apresentação com a seguinte pergunta: O crescimento mundial está mais moderado?
Segundo Mendonça de Barros, estamos passando por um momento onde temos uma consolidação da recuperação da economia norte-americana. Na Europa a situação segue complicada, para ele "esse ainda é o maior risco para o cenário de recuperação gradual da economia mundial". Enquanto na China o crescimento continua bastante acelerado, com mudanças importantes em andamento no mercado de trabalho chinês.
"Entretanto, este cenário ficou mais complicado e incerto desde os eventos no Oriente Médio e com a divulgação de indicadores de atividade mais moderados nos EUA, sugerindo um crescimento mais lento do que o imaginado para 2011".
José Roberto Mendonça de Barros ainda pontuou que nos países emergentes existe uma piora em relação à inflação, pois estamos observando que existe um choque de oferta num momento em que a demanda segue aquecida e na opinião dele este desequilíbrio deve continuar.
Apresentando uma série de dados da economia norte-americana, ele mostrou que mesmo tendo uma lenta recuperação, a situação dos EUA está melhorando. Existe melhora na renda da população, aumento da renda agrícola e recuperação no valor das ações das empresas norte-americanas.

Mendonça de Barros avaliou que o PIB dos Estados Unidos já apresenta um crescimento, apesar deste ser menor do que o esperado. "Isso posterga a alta dos juros e qualquer mudança na política financeira só deverá ocorrer em 2012 ou 2013, devendo manter a cotação do Dólar reduzida". Dessa forma a expectativa é que os produtos norte-americanos sigam ganhando competitividade.
Apesar da situação ainda complicada, "na Europa já existe crescimento após a crise de 2008" e no gráfico abaixo é possível ver indicadores econômicos que mostram crescimento nos países do norte europeu.

Porém, o palestrante avalia que em países como a Grécia a situação ainda é difícil e provavelmente será preciso realizar uma reestruturação da dívida, "numa situação parecida com o que aconteceu na América Latina nos anos 80". "Em Bruxelas se fala em uma recuperação "soft", realizando apenas o adiamento das dívidas. Ação que acho que não será suficiente para resolver o problema", completou.

Na Ásia o crescimento deve continuar bastante acelerado. Mendonça de Barros avalia que na China não deve ocorrer desaceleração do crescimento, já que o Banco Central do país é controlado pelo Governo e este tem pavor de manifestações populares como as que ocorreram no Oriente Médio. "Assim, eles devem combater o desemprego e a economia vai crescer 7,5% como é esperado".
Segundo levantamento do banco central chinês, o salário médio real na China subiu 9% em 2010 em relação ao ano anterior. Isso pode ser prejudicial para a inflação, mas vai a favor de maior participação do consumo no país.

Assim Mendonça de Barros concluiu que no cenário internacional, mesmo com EUA crescendo menos que o esperado, dificuldades na Europa, a economia mundial deve crescer em ritmo lento e na sua opinião o cenário é otimista.
Ele acredita que o crescimento mundial deverá ser da ordem de 4,0% ao ano, os países do G7 devem crescer por volta de 2% ao ano e a China em torno de 8,0%. Para o Brasil a hipótese mais provável é um crescimento por volta de 4,5% a.a.
Como alavancas do crescimento da economia brasileira o palestrante elencou 3 pontos:
1- continuidade do aumento do consumo da classes C;
2- crescimento das exportações das cadeias de commodities agrícolas, mineração e produtos naturais;
3- crescimento dos investimentos privados (Petrobras, Copa do Mundo e Olimpíadas).
Como fatores que podem limitar este crescimento estão os desequilíbrios macroeconômicos crescentes, causados pelo aumento do consumo; e a perda da competitividade, causada pelo aumento do chamado custo Brasil, forte valorização do Real, baixa eficiência do setor público, alta tributação, péssima infraestrutura, falta de mão de obra qualificada e ausência de reformas e avanços institucionais.
Mendonça de Barros dividiu o setor produtivo brasileiro em 3 Classes:
1- Produtores de commodities; que estão se saindo bem, pois os preços internacionais estão em alta;
2- Serviços; que tem apresentado elevação dos custos;
3- Industriais; que tem que enfrentar indústrias mais competitivas em outros países e estão trabalhando com margens reduzidas.
"Em 2010 foi fácil vender, mas difícil entregar", comentou o palestrante. Segundo ele faltou mão de obra, os custos foram elevados e as margens recuaram. Assim foi preciso repassar esse aumento de custos para o consumidor. "Isso gera problemas para a economia e o Governo tardou a perceber esses problemas".
"De qualquer forma, este é um cenário doméstico bom, mas é um cenário desafiante", comentou.
Impactos sobre o Agronegócio
Na avaliação de José Roberto Mendonça de Barros neste cenário os preços internacionais devem continuar elevados, a demanda seguirá crescendo pela elevação da população e pelo crescimento da renda das famílias levando a entrada de novos consumidores no mercado.
A volatilidade também deve continuar elevada, com os problemas climáticos se tornando mais recorrentes e o fundos financeiros assumindo papel cada vez mais importante. Segundo o palestrante, "esses fundos respeitam os fundamentos dos mercados, mas se movimentam muito rapidamente, entrando e saindo com agilidade de determinados mercados" e isso acaba influenciando o movimento dos preços.
O preço do petróleo também seguirá alto. "Projetamos um preço médio entre 100 e 110 dólares por barril. Com isto a pressão nos preços de fertilizantes e nos custos de transportes será importante, bem como continuará a haver suporte para o etanol".
"Em algum momento de 2012/13 o juro americano vai subir e o Real brasileiro irá ser desvalorizado", trazendo melhoras na competitividade das empresas brasileiras.

Pensando no mercado doméstico, Mendonça de Barros acredita que a demanda interna também seguirá crescendo e a procura por produtos de maior qualidade e diferenciação será cada vez mais marcante.
Por outro lado ele frisou que a infraestrutura continuará afetando a oferta regional de alimentos e produtos do Agronegócio. "Nesse ponto saem ganhando a região do Mapito e do oeste da Bahia; as regiões tradicionais do sudeste continuarão com vantagens pela proximidade dos portos e das grandes cidades; já o Mato Grosso e outras regiões distantes continuarão negativamente afetadas pelos custos de transporte".
De qualquer forma ele avalia que o Agronegócio, de maneira geral, passa por uma fase excepcional.
Cenário Alternativo
Apesar do cenário mais provável ser bastante otimistas, o palestrante propôs uma situação alternativa onde o crescimento da China desacelera. "A questão mais substantiva entretanto, se coloca com a seguinte questão: irá a China ultrapassar os Estados Unidos ou seguirá a trajetória do Japão?", questionou Mendonça de Barros. A economia americana segue derrapando, agora pelo peso do excesso de endividamento e do ajuste fiscal e a zona do Euro enfrenta maiores problemas.
"Neste cenário o ciclo de alta das commodities se reverte. Entretanto, existirá uma certa compensação pela subsequente desvalorização do Real", ou seja, o Real mais fraco poderia compensar uma retração nos preços internacionais.
