Eduardo Santos (CeCafé): situação do mercado de café

O CaféPoint está fazendo um levantamento de informações sobre a situação dos estoques de passagem de café, a relação com consumo e exportação, o impacto da nova safra nesses estoques, e a tendência dos preços do café em 2010, no Brasil. Eduardo Heron Santos, que é gerente de informática e responsável pela área de dados e conteúdo web do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil - CeCafé, esclareceu algumas questões em relação as informações levantadas pelo CaféPoint. Acesse e confira!

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O CaféPoint está fazendo um levantamento de informações sobre a situação dos estoques de passagem de café, a relação com consumo e exportação, o impacto da nova safra nesses estoques, e a tendência dos preços do café em 2010, no Brasil.

Eduardo Heron Santos, que é gerente de informática e responsável pela área de dados e conteúdo web do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil - CeCafé, esclareceu algumas questões em relação as informações levantadas pelo CaféPoint, conforme colocadas abaixo.

O consumo interno e a exportação vem registrando aumentos expressivos nos últimos anos, impulsionados principalmente pelo crescimento das safras colhidas e pela melhoria de qualidade. Contribuíram, também, para esses aumentos, questões como a redução da oferta mundial, notadamente na área dos suaves centrais e colombianos, estabilidade dos preços ao consumidor interno, eficiência comercial e industrial, entre outros.

Na produção, saímos do patamar de safras médias de 25 a 30 milhões de sacas no final da década de 1990, passando para cerca de 45 milhões de sacas nos anos recentes, enquanto na exportação saltamos de 25 milhões para 30 milhões, respectivamente. No consumo interno, segundo a ABIC, evoluímos de 13 milhões para 18 milhões de sacas, no mesmo período.

No que diz respeito à melhoria de qualidade na exportação, basta mencionar que em 2008 os cafés finos brasileiros, preparados inclusive pela via úmida - cereja descascado e despolpado, alcançaram um preço médio de US$ 215 por saca, que se compara com US$ 196, preço médio dos cafés colombianos. Em 2009, os finos brasileiros tiveram um preço médio de US$ 201 por saca, recuo explicado pelas baixas no mercado e, principalmente, pelos problemas de qualidade que afetaram a safra corrente, e os colombianos passaram a US$ 221, aumento que se atribui à forte contração de suas exportações - embarques de 7,9 milhões em 2009 contra 11,1 milhões de sacas em 2008. No consumo interno, a questão se exterioriza na crescente oferta de cafés gourmets, especiais, etc.

No caso da exportação, o fator limitante quanto aos volumes anuais - que tem oscilado entre 28 e 31 milhões de sacas - é basicamente o tamanho da safra. Isto quer dizer que os estoques internos de passagem mantém-se em patamares próximos do que se considera os volumes mínimos de estoques de trabalho, carregados pelos vários setores da cadeia. Na medida em que não há qualquer estimulo à formação e aumento dos estoques de trabalho pelo comércio exportador e pela indústria, responsáveis pela colocação nos mercados finais por cerca de 88% da safra, os volumes produzidos na safra praticamente correspondem ao desaparecimento no período (exportação + consumo interno).

Neste contexto, as variações dos estoques de passagem não são significativas. Não existem levantamentos mais apurados para o conhecimento desses estoques. O trabalho mais abrangente, é a contagem anual dos estoques realizada pela CONAB, posição de 31 de março de cada ano, que estão sendo feitos desde 2005, e oferecem também a vantagem de permitir a conferencia e o eventual ajuste das estimativas de safras. Nos anos anteriores, essas avaliações não puderam ser feitas posto que a CONAB, quando surgiam diferenças entre os números do estoque verificado e as suas estimativas de safras, ao invés de revisar a previsão de produção, ajustava o estoque de passagem dos anos anteriores, como se vê no quadro abaixo. Agora, com o decorrer dos anos, isso já não é mais possível e a contagem anual em 31 de março - se não for inventado nenhum outro artifício - passa a se constituir em dado confiável para medir a variação dos estoques e a acuidade das previsões de safras.

Tabela 1. Estoques Brasileiros - CONAB 1.000 scs.

Figura 1


Segundo Eduardo, a safra que em breve será colhida, será suficiente para ajudar na reposição de estoques, desde que se adotem políticas de financiamentos à formação de estoques de trabalho, por prazo de 1 ano, aos agentes da cadeia café.

Atualmente, os recursos do FUNCAFÉ para estocagem são destinados exclusivamente às cooperativas (cerca de 80%) e produtores independentes (cerca de 20%), estando o comércio e a indústria excluídos da linha. Essa concentração de recursos nas cooperativas conduz a uma baixa liquidez no mercado interno provocando uma pressão nos preços, notadamente ao inicio das safras, fenômeno que se repete a cada ano e que evidencia, de um lado, a nossa incapacidade de organizar o escoamento da safra e, de outro, o caráter assistencialista da política. Nesses períodos de expansão da oferta a partir do setor produtor, o aumento da oferta de crédito para a estocagem contribuiria para proporcionar aumento correspondente da demanda interna, com óbvios efeitos sobre os preços, além de sinalizar uma política de fortalecimento dos preços internos que pode gerar uma alavancagem de créditos de outras fontes, inclusive do mercado financeiro, que vê no café - tradicionalmente- um ativo seguro.

Em relação aos preços do café no mercado interno em 2010, Eduardo Heron Santos comenta que a tendência dos preços internos é de firmeza e de alta moderada, se formos capazes de aplicar para a safra que se inicia nos próximos 3 meses, um esquema financeiro adequado. O cenário externo é favorável: o consumo mundial continua crescer, a oferta mundial, excluído o Brasil, é apertada e não deve exercer pressões negativas sobre os preços. Na questão da paridade da moeda - que impacta os preços internos - a tendência parece ser a de valorização moderada do dólar, em face dos riscos de aumento de inflação, provável redução dos fluxos de investimento externo no segundo semestre e aumento das importações, com redução do superávit, contribuindo para o aumento nominal das cotações internas.

Quando o assunto é a participação do Brasil na formação de preços no mercado internacional, Eduardo afirma que dentro da estrutura atual de funcionamento do mercado cafeeiro, sem dúvida os preços do mercado interno e os preços internacionais apresentam grande correlação. Em resumo, isto quer dizer que situações do mercado interno de café do Brasil (ou de outros países fornecedores com peso no mercado) geram movimentos de altas ou baixas nas cotações externas, o mesmo ocorrendo em sentido inverso, como, por exemplo, um problema grave no suprimento vietnamita provocaria altas internacionais que se transmitiriam internamente, nos vários países.

É um equivoco dizer que o Brasil é mero coadjuvante na formação dos preços internacionais do café. Indiscutivelmente, o Brasil é não só o principal formador de seu preço como também influi em boa parte no preço dos demais produtores, quando nada pelo simples fato de que representa cerca de 35% da oferta mundial. Essa influência se materializa a partir do valor das ofertas brasileiras no mercado do dia a dia e pelas expectativas futuras destes preços.

Em outras palavras, os preços dos cafés brasileiros oferecidos no mercado mundial são o resultado do preço interno do café mais o custo de todos os insumos para torná-lo exportável (preparo, parcela a ser vendida a preço inferior no consumo, fretes, serviços, capatazia, charge, etc.), convertido em dólares. O preço brasileiro, portanto, é assim formado. E, sem dúvida, o seu componente principal é o preço do café ou a expectativa futura de seu comportamento. A falta de sustentação interna dos preços pagos ao produtor, causada em grande parte pela iliquidez do mercado para a formação de estoques, meio de se contrapor ao aumento cíclico da oferta interna, é por certo a principal causa de enfraquecimento do preço externo brasileiro.

Por vezes, tem sido atribuído ao aumento do diferencial dos cafés brasileiros vis a vis Bolsa de New York, como a causa da fraqueza dos nossos preços. Tolice. O diferencial, ao qual muitos desinformados atribuem efeitos de mercado e responsabilizam por quedas de preços, é meramente a expressão aritmética da diferença entre o preço brasileiro (café + insumos) e as cotações da Bolsa de New York. Ou seja, se os custos internos sobem e NY permanece inalterada, a diferença se estreita e passa a ser menor. Se os custos internos, ao contrário, caem, a diferença (diferencial) aumenta. Logo, por definição, o diferencial é uma resultante da movimentação dos mercados interno e externo e não uma causa.

Assim, é preciso ficar claro que as variações do preço de venda externa são consequência das condições do nosso mercado interno. Se desejamos influir positivamente na formação de nosso preço, impõe adotar políticas adequadas de fortalecimento desse mercado. Medidas assistencialistas somente irão dar respaldo às teses absurdas de que há excesso crônico de oferta e não desequilíbrio conjuntural, e que justificariam a compra de café pelo Governo, ano após ano, para dar choques de oferta, em beneficio dos concorrentes.

Natália Fernandes, Equipe CaféPoint, com informações de Eduardo Heron Santos
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Celso Luis Rodrigues Vegro
CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO

SÃO PAULO - SÃO PAULO - PESQUISA/ENSINO

EM 14/04/2010

Prezado Eduardo Santos
Os argumentos que lista em seu depoimento são muito persuasivos. Creio que a desconstrução de mitos é uma tarefa destinada a alguns poucos que pautado por informações objetivas se encarregam de fazê-los. Estou de acordo consigo ao afirmar que a tendência prevalecente para esse trimestre é de alta moderada, ou como prefiro, homeopática das cotações. Caso o dolar venha a se valorizar e consequentemente, o real a se desvalorizar haverá alguma chance de maior ingresso monetário nos bolsos dos produtores. Aguardemos os fatos.
Abçs
Celso Vegro
Domingos Ribeiro de Andrade
DOMINGOS RIBEIRO DE ANDRADE

BOM SUCESSO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE CAFÉ

EM 13/04/2010

Na minha opinião, ao analisar mercado de café temos que sitar o fortalecimento do real perante ao dolar e a alta dos custos de produção. Em relação a 1994 a desvalorização cambial foi de 150%. A mão de obra subiu 600%, o diesel 600% e os fertilizantes 500%. A saca de café subiu 30%.
Com relação a estoques de passagem, se não houver uma intemperie muito grande torna-se um dado insignificante. A economia globalizada, o excesso de informações e produtores de café tornou o planeta terra muito pequeno. O mercado é dinâmico, o importador tem todas as informações on line e o produtor descapitalizado fica à merce do mercado. O ano passa muito rápido e o periodo de uma safra até a outra são apenas cinco meses.
Estamos diante de uma grande crise na cafeicultura. Encontro produtores desanimados até para colher a safra, descapitalizados, cansados, desesperançosos, castigados por leis e mais leis, fiscalizações e mais fiscalizações e a mídia omissa noticiando apenas interesse de multinacionais e grandes cooperativas.
Com este custo e câmbio somente cafeicultores com outras fontes de renda sobreviveram. Alguns destes mais espertos já desanimaram. Outros continuam jogando dinheiro ganho em outras atividades na ilusão de recuperar o prejuízo.