Crise não afeta consumidor solidário, diz especialista

Michael Conroy, professor de economia da Universidade do Texas e autor de extenso estudo sobre o assunto, defende que a importância de consumir produtos "do bem" já está tão introjetada na consciência do cidadão do mundo desenvolvido que os efeitos da crise devem ser pequenos. Ele cita pesquisa recente que mostra que 9 entre 10 norte-americanos se preocupam com as condições sociais e ambientais envolvidas na produção.

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A crise econômica que varre o planeta não deve afetar o crescimento dos certificados de responsabilidade socioambiental para produtos, adendo que costuma torná-los mais caros. Essa é a conclusão do seminário "A certificação ambiental resiste à crise?", realizado na Faculdade de Economia da USP (Universidade de São Paulo).

Ainda incipientes no Brasil, os selos de qualidade funcionam como comprovantes de que o produto que chega ao consumidor obedece, em cada fase de seu processo de produção, a imperativos ambientais e sociais. O certificado da Fair Trade Organisation, por exemplo, atesta que os pequenos agricultores responsáveis pelo produto receberam pagamento justo por seu trabalho.

Outros, como o da Rain Forest Alliance, utilizado pelo café que a rede de lanchonetes McDonalds oferece na Inglaterra, na Austrália e em outros países (mas não no Brasil), tentam minimizar o impacto que a atividade agrícola tem sobre o meio-ambiente.

Michael Conroy, professor de economia da Universidade do Texas e autor de extenso estudo sobre o assunto, defende que a importância de consumir produtos "do bem" já está tão introjetada na consciência do cidadão do mundo desenvolvido que os efeitos da crise devem ser pequenos. Ele cita pesquisa recente da GlobScan que mostra que 9 entre 10 norte-americanos se preocupam com as condições sociais e ambientais envolvidas na produção.

Para Roberto Waack, presidente do conselho internacional do Forest Stewardship Council, organização que emite certificados de manejo florestal, atualmente, não ter o certificado pode significar a exclusão de mercados inteiros, como o europeu.

Comércio Justo

O chamado comércio justo, que busca criar oportunidades sociais e econômicas para pequenos produtores rurais e preservar o meio ambiente, triplicou de tamanho (veja quadro) de 2005 para cá. Uma das mostras mais recentes dessa expansão está nas placas instaladas em quase todas as 700 lojas da rede de cafeterias Starbucks no Reino Unido, desde o final de 2008, com os dizeres: "Você, Starbucks e fairtrade".

A companhia estabeleceu a meta de dobrar neste ano a compra de café certificado pelas regras do comércio justo em todos os 44 países em que está presente. No Reino Unido, a Starbucks tem planos ainda mais radicais: 100% do café espresso vendido será certificado até o fim deste ano. A esperança da rede de cafeterias é que o politicamente correto consumidor inglês se encante com a proposta e compre mais café.

Assim como a Starbucks, outras gigantes do setor de alimentos começam a abraçar a causa - em grande medida por enxergar uma oportunidade de polir a própria imagem. A fabricante de chocolates inglesa Cadbury anunciou que até o final deste ano todas as barras do tradicional Cadbury Dairy Milk serão totalmente produzidas com cacau certificado. A anglo-holandesa Unilever garantiu que o chá em sachê vendido sob a marca Lipton em todo o mundo levará o selo de comércio justo até 2015.

Segundo a Fairtrade International hoje as vendas globais de produtos industrializados que seguem essas regras chegam a 3,2 bilhões de dólares - Estados Unidos e Inglaterra juntos respondem por mais da metade desse consumo. "Existe uma geração crescente de consumidores em países ricos dispostos a pagar mais pela ideia de defender o meio ambiente e os direitos humanos", diz Katie Stafford, consultora especializada em sustentabilidade.

Para obter um selo capaz de atrair esses novos consumidores, porém, é preciso percorrer um caminho longo e custoso. "Um programa montado de maneira séria representa um investimento na marca, e não uma máquina de produzir dinheiro fácil", diz Katie. O processo leva em média um ano - entre a auditoria e a certificação propriamente dita - e pode chegar à casa dos milhões de dólares para as grandes empresas.

Gráfico 1. Evolução da comercialização de produtos "Fair Trade" nos últimos anos
Figura 1


Com informações da Folha de São Paulo e da Revista Exame.
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