Quando falamos sobre qualidade no café, devemos definir claramente as dimensões que estamos trabalhando. Por exemplo, quando nos referimos à qualidade do produto, podemos nos referir a atributos físicos e sensoriais do café. Por isso, é importante utilizarmos um padrão de referência aceito mundialmente, como por exemplo, o padrão de qualidade de bebida da Associação Americana de Cafés Especiais (SCAA). O padrão de qualidade incorpora uma característica importante, que é a consistência; afinal, não adianta levar para seu consumidor uma qualidade fantástica em um ano e nos seguintes produzir cafés de qualidade medíocre. É muito importante manter a regularidade do suprimento de qualidade e este é um fator que será levado em conta pelo comprador, inclusive na formação do preço.
Outra dimensão importante é a qualidade do processo produtivo. O crescimento da demanda e da oferta de cafés certificados social e ambientalmente demonstram claramente esta tendência de mercado. O café certificado possui a qualidade de ter sido produzido de acordo com normas específicas, respeitando parâmetros sociais e ambientais. Outro aspecto importante é a rastreabilidade do produto, desde o consumidor até a fazenda, cada vez mais demandada pelos consumidores dos países desenvolvidos.
Porém, a mais importante dimensão da qualidade é atender as expectativas dos consumidores. Ou seja, a qualidade ideal é aquela que deixa o cliente satisfeito plenamente. É aquela que leva o consumidor a pedir a segunda xícara! É exatamente aqui que mora o segredo da estratégia de como trabalhar a qualidade. Na maioria das vezes, os produtores rurais não possuem contato com o consumidor final e esta distância não permite enxergar o modo como seu café é visto e avaliado pelo elo mais importante da cadeia.
A compreensão destas demandas do mercado é muito importante, tão importante quanto conhecer que tipo de café está sendo produzido e como ele se adéqua ao mercado comprador. Por isso é recomendado provar cada lote produzido na lavoura, obviamente, através de um provador de confiança. Ao final da safra, o produtor terá um "mapa da qualidade" e a partir dele poderá direcionar sua estratégia de comercialização para conseguir os melhores resultados. Por exemplo, vender os cafés de qualidade inferior o mais rapidamente possível, reservar lotes para concursos, identificar glebas de melhor qualidade, ou seja, ter a noção exata da qualidade produzida. Já existem empresas no mercado especializadas neste tipo de trabalho.
Esta estratégia de comercialização da qualidade é fundamental, pois o mercado mundial de café mudou, e a boa notícia é que ele continua a evoluir. No mundo existe uma demanda específica para cada tipo e qualidade produzida e para cada origem, que pode ou não estar atrelada a qualidades sensoriais do café. No final, é o desejo do consumidor que move a gangorra dos preços.
Por exemplo, o famoso caso colombiano. Os diferenciais históricos (sempre acima de NY) são resultado de uma alta demanda pelo produto colombiano, que foi construída com muito marketing e dinheiro. Mais recentemente, refletem a oferta escassa do produto, pois nos últimos dois anos a produção despencou mais de 30%. Assim, preços elevados no mercado interno colombiano e na bolsa de NY não surpreendem.
O Brasil é o maior produtor mundial há muito tempo, e, exceto depois de geadas, nunca faltou Café do Brasil no mercado. Não podemos, portanto, contar com o fator "exclusividade" ou "raridade" para os Cafés do Brasil. E este é um dos motivos para que o café brasileiro seja utilizado como a base de muitos blends. Fica difícil diferenciar nosso produto "genérico" no mercado, pois ele é vendido em abundância e o desejo do comprador internacional é um café brasileiro com qualidade padrão, qual padrão? Aquele para ser usado como base para seu blend.
Faz-se necessário, portanto, "descomoditizar" o café brasileiro do mundo. E para atingir este objetivo devemos trabalhar com a lei da oferta e demanda. Reduzir a produção é inviável, pois reduziria nossa participação no mercado e colocaria muitas regiões brasileiras em situação terrível. Fazer estoques altos, de grande volume, é postergar o problema para safras futuras.
Só nos resta trabalhar a questão da demanda por nossos cafés. Uma estratégia é diferenciar os Cafés do Brasil. Definir as qualidades de cada região, organizar a produção e trabalhar a consistência e qualidade da oferta ao longo dos anos. Devemos colocar na mente do consumidor internacional o desejo por tomar um café brasileiro, de qualidade tal e de tal região. Existem diversos países produtores de café dentro do Brasil, mas o mundo não sabe disso. Por competência, temos ótimos exemplos, o Café do Cerrado de Minas Gerais conseguiu se posicionar como uma origem diferenciada, com atributos específicos de qualidade. Outro exemplo, mais recente, é o nosso cereja descascado, que ano após ano conquista cada vez mais espaço.
Portanto, seja na sua propriedade, seja para o agronegócio Cafés do Brasil, marketing da qualidade é a chave. E marketing não é só propaganda e publicidade. Marketing é entender o mercado, organizar a oferta, definir qualidades e procedimentos da produção, encontrar os canais de vendas adequados, definir estratégias para cada mercado, e, por fim, levar a xícara perfeita para cada consumidor. Afinal, o consumidor não sabe que ama o seu café até prová-lo.













DELVO FREIRE
Boa Esperança - Minas Gerais - Consultoria/extensão
postado em 14/10/2010
Parabéns Paulo, excelente seu artigo, - estou tentando fazer isto, tenho trabalhado com a Europa e outros paises a mais de 8 anos, - este ano começamos a engatinhar neste mercado de cafés finos, conseguimos vender o cereja descascado a mais de $ 100,00 por saca, foi segundo a Agnocafé a melhor venda nos últimos 5 anos !... Estamos investindo muito na nossa produção, melhorando ainda mais nossa estrutura !... - Ë um café dificil de se produzir,preparar, e comercializar; - mais continuamos investindo na forma de melhorar ainda mais, pois o Mercado principalmente lá fora, paga mais por este produto. Não adianta nada o Brasil ser o maior produtor de café, temos sim de continuarmos ser o maior produtor mais de um café de qualidade.Inclusive no mercado interno temos de mudar este perfil, pois o consumidor final paga o preço de um café fino, por um de baixa qualidade. - O que se toma por aí é realmente uma vergonha !....